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A Europa é a sra. Merkel

Barack Obama está na Irlanda do Norte, onde participa de uma reunião do G-8 e do lançamento de uma rodada de negociações sobre um acordo comercial entre os EUA e a União Europeia. Não é pouca coisa. No entanto, essa notícia dupla é eclipsada por uma terceira: amanhã e depois de amanhã, Obama estará em Berlim.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h09

Durante três dias, Obama e Angela Merkel não desgrudarão um do outro. Trata-se de uma proeza formidável da chancelaria alemã, que enfrentará as urnas em 22 de setembro, em busca de seu terceiro mandato. Que os alemães tenham conseguido seduzir o americano não é façanha menor, ainda mais quando se recorda que, no fim de maio, há três semanas, a mesma Angela Merkel recebeu o novo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang.

A lição é clara: a Europa, está combinado, é essa UE que tem sede em Bruxelas. Seu jogo de cena é sutil e improdutivo. Já a China e os EUA compartilham da mesma convicção: a Europa é a senhora Merkel.

Merkel só tem a ganhar com a visita de Obama. E também ele está contente. Há 50 anos, em 26 de junho de 1963, o jovem e notável presidente John F. Kennedy subiu à sacada da então sede da Prefeitura de Berlim e pronunciou um discurso cujo eco ainda se ouve: "Ich bin ein Berliner (Eu sou um berlinense)".

Agora é a vez de Obama fazer uso da palavra. Como o atual presidente dos EUA poderia deixar de se render à emoção? Meio século se passou. O mundo comunista evaporou. As duas Alemanhas reunificaram-se, mas Berlim continua a ser o coração do continente.

De Londres, a Economist diz que Merkel precisa "religar o motor", e a revista semanal britânica explica: "A economia mundial corre grande perigo. Sua sorte depende de uma mulher". E a conclusão é estranha: "Se queremos que as economias europeias voltem a crescer, a Alemanha precisa começar a exercer seu poder".

Os conselhos da Economist são estranhos. A revista dá a impressão de não perceber que, há dois ou três anos, a Alemanha ocupa a posição de "chefe da Europa", impondo ao continente o remédio da austeridade que, embora extremamente necessário, também é perigoso, tendo empurrado a Grécia, a Espanha e mesmo a França para situações penosas ou precárias.

O desemprego na Alemanha é bem mais baixo que na Itália, Espanha ou França. Mas a população alemã vem diminuindo nos últimos anos. Diferentemente da população francesa, que tem crescido. É de espantar que o país cujos cidadãos são cada vez em menor número tenha uma taxa de desemprego baixa, ao passo que um país cuja população se multiplica sofre com um desemprego elevado? São parâmetros como esses que a Economist deveria incluir em seus cálculos. TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER.

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS.

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