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Gilles Lapouge
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A Europa enferma

A União Europeia é um vasto canteiro de obras sempre em movimento. Sinal da sua vitalidade. E também da sua fragilidade, pois à medida que os pedreiros recolocam um tijolo caído, restauram uma estátua quebrada, outras pedras caem, outras brechas se abrem. E eles têm de correr incessantemente de um desabamento para outro. 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2015 | 03h00

A Espanha descobre que há uma corrupção sem precedentes. O partido no poder (PP, de direita) beneficia-se de financiamentos ilegais. Cerca de 74 responsáveis políticos estão implicados. Os socialistas não valem muito mais. No governo de Andaluzia, 49 dirigentes socialistas foram indiciados: embolsaram fundos destinados aos desempregados. 

Felizmente existe a Grã-Bretanha onde não se brinca com a moralidade. Infelizmente uma rede de pedófilos foi descoberta. E 1.433 pedófilos saem das sombras. Entre eles 76 políticos do alto escalão, 43 músicos, 7 esportistas, 135 jornalistas e cineastas. 

Por outro lado, a Grécia continua à deriva. Na véspera da cúpula europeia de Riga, o Syriza, partido de esquerda no poder, anuncia que não conseguirá pagar os A 302 milhões que deve ao FMI. Três meses de negociações ruidosas que terminam num beco sem saída: “refletirei durante muito tempo antes de afirmar que não haverá uma falência da Grécia”. E o espectro que toda a Europa procura afastar há seis meses paira sobre as cabeças: a eventual saída da Grécia da zona do euro, com o furacão sobre a Europa. 

Na outra extremidade do continente, o britânico David Cameron prepara-se para um referendo em 2016 ou 2017 sobre a possível saída do país da UE. 

Na Europa central, na Hungria, Viktor Orban, membro de uma direita bem à direita, faz os políticos de Bruxelas suarem frio. Não perde uma oportunidade de atirar contra essa União Europeia da qual seu país faz parte. Ridiculariza não só as divisões de Bruxelas, mas também sua filosofia. Ele sempre carrega alguns bons petardos que acende cada vez que deseja enervar os funcionários humanistas e sonolentos de Bruxelas: ele se refere aos romas como ladrões de galinhas, criminosos que a bela Europa deve expurgar. 

Segundo Orban a liberdade de imprensa é uma imbecilidade. E diz que a UE é uma peneira que idiotamente permite a passagem desses delinquentes, preguiçosos, que são os imigrantes da África ou da Ásia. E tem uma obsessão: não entende porque na UE não se cortam cabeças. De tempos em tempos Orban pensa em restabelecer a pena de morte na Hungria. E quando os senhores de Bruxelas lhe dizem que a abolição da pena capital é um pré-requisito para a adesão à UE, responde com desenvoltura: mas afinal, os tratados não são mandamentos divinos”. 

Orban faz propostas tão bizarras que até o grupo de deputados europeus do Partido Popular Europeu, que é a direita europeia, não sabe mais como desativar essa “granada eternamente sem pino”. O pior é que o governo Orban obtém resultados econômicos superiores aos de outros países da UE. E na Hungria a oposição é inerte e está enferma: os socialistas acabam de ser dizimada por um escândalo de corrupção. 

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris/ Tradução de Terezinha Martino 

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