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A Europa iludida

PARIS - Em Kiev, fez-se uma pausa no ódio e uma promessa de pacificação? Ou trata-se, ao contrário, de um simples entreato separando dois surtos de violência?

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2014 | 02h06

Recordemos a gênese dessa crise: em novembro, o governo ucraniano, muito próximo de Moscou, bateu a porta na cara da União Europeia (UE), interrompendo bruscamente negociações que deviam assegurar a essa vasta república saída da desagregação da União Soviética o status, não de membro pleno, mas de simples e modesto "associado" da UE.

A Ucrânia optou então, francamente, por estender a mão à Rússia e não à UE. Foi para protestar contra essa escolha que enormes multidões se revoltaram na capital ucraniana, Kiev, exigindo uma reaproximação da UE.

Portanto, é a Europa que se viu brutalmente desafiada e quase desdenhada pela brusca reviravolta do presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, sustentado evidentemente por seu padrinho, o russo Vladimir Putin. E qual foi a resposta da UE? A debandada, primeiro. Depois, a cacofonia.

No início, a UE desinteressou-se resolutamente da questão. Bruxelas manteve um silêncio estrondoso enquanto os tumultos se espalhavam por Kiev. Foi preciso que os enfrentamentos entre a polícia ucraniana e as multidões que reivindicavam "mais Europa" produzissem feridos e depois mortos para que a poderosa UE saísse do seu sono e fizesse alguns grunhidos.

Infelizmente, como sempre, esses grunhidos europeus eram desencontrados. Na última segunda-feira, o chefe da diplomacia sueca, Carl Bildt, lançava o debate e sacudia a letargia de seus colegas de continente. No dia seguinte, o presidente da Comissão Europeia (CE) em Bruxelas, José Manuel Durão Barroso, aproveitou o embalo. Heroico, ele ameaçou agir contra o governo de Yanukovich.

Muito bem. Mas, na quinta-feira, foi a vez da chanceler alemã, Angela Merkel, se pronunciar. Ela não teve meias palavras. Abriu o debate para fechá-lo de maneira categórica: "A adoção de sanções contra a Ucrânia não está na ordem do dia". Merkel precisou que o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier - que não pertence Partido Democrata-Cristão (CDU), de Merkel, mas aos social-democratas (SPD), parceiro na grande coalizão que governa Berlim -, era da mesma opinião que ela.

O discurso da líder alemã acalmou o jogo subitamente, de tal forma que cabe perguntar se existe mesmo algum jogo. Nas horas seguintes, todos os demais dirigentes europeus acertaram o passo com Merkel, em particular o caro Durão Barroso, que se punha apaixonadamente a buscar o "diálogo" com o poder ucraniano.

Assim, a Europa vai enviar a Kiev um representante para mediar esse "diálogo". E quem foi escolhido para esta missão? O comissário Stefan Fille - o mesmo homem que havia sofrido em novembro a humilhação extrema de ver a Ucrânia lhe bater a porta na cara.

Tudo isso não impede que os cérebros de Bruxelas fiquem ativos. A cada dia, a UE inventa um novo plano para sair em ajuda às multidões Europa que se recusam a ver seu país se alinhar à Rússia de Putin.

A última ideia em voga consistiria em fazer pressão sobre Putin para que ele exerça sua influência e acalme um pouco o presidente ucraniano. Boa ideia! Mas como fazer para convencer Putin a socorrer essa UE que ele tanto detesta? Ameaçando sabotar os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, o evento com o qual Putin conta para assegurar a projeção mundial da Rússia.

Putin já respondeu antecipadamente a esse projeto dos estrategistas europeus. Seu porta-voz, Dmitri Peskov, acaba de garantir que Moscou não quer de maneira nenhuma interferir nos assuntos interno da Ucrânia.

Trata-se de uma doutrina do Kremlin: os problemas de Kiev são uma questão doméstica da Ucrânia e a Rússia tem uma regra sagrada: ela jamais se imiscui, absolutamente jamais, no que ocorre em seus vizinhos, mesmo quando isso envolve uma república que, não faz muito tempo, integrava a União Soviética. Gente de princípios, essa do Kremlin!

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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