A Europa mudou

A Europa mudou

No socorro à Grécia, Alemanha 'nacionaliza' seus interesses em detrimento da União Europeia - e isso transforma de vez o bloco

Joschka Fischer, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

PROJECT SYNDICATE

A recente cúpula da União Europeia produziu um compromisso tipicamente europeu na questão da crise financeira grega, um compromisso que evita o termo "solução" e se esconde atrás da ideia de um "mecanismo". Resta ver se funcionará em abril, quando a Grécia terá de refinanciar, de novo, sua dívida.

A chanceler alemã, Angela Merkel, impôs-se com sua exigência de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) participasse da operação de ajuda, caso necessário. Além disso, a decisão final a respeito dessa ajuda exigirá, como costuma acontecer, a unanimidade dos organismos europeus, o que significa que permanecerá sob o controle alemão.

No meio tempo, o presidente Nicolas Sarkozy garantiu a participação da zona do euro numa operação de ajuda à Grécia. Para a Alemanha, isso representará um pagamento de 4 bilhões e - sacrilégio! - o fim da proibição da ajuda prevista no Tratado de Maastricht (que, em 1992, lançou as bases para a integração europeia), apesar da série de malabarismos para "provar" que o pacto sobre a Grécia coaduna-se com a proibição.

Se a Alemanha precisava do envolvimento do FMI para salvar as aparências internamente, seria realmente necessário provocar um tumulto sem paralelo na Europa para que, no fim, isso acontecesse? Todos os envolvidos poderiam conviver muito bem com o compromisso. Foi o confronto político que o precedeu que, na realidade, tornou o acordo difícil. De fato, o embate europeu iniciado por Merkel - não ouse achar que tem alguma relação com as próximas eleições alemãs! - mudou a UE para sempre.

Na imprensa alemã, são numerosas as referências a Margaret Thatcher e a Otto von Bismarck. Merkel é chamada de Dama de Ferro e até mesmo de Chanceler de Ferro. Só podemos balançar a cabeça diante da pouca consciência histórica dos alemães, considerando que nem Thatcher nem Bismarck jamais foram modelo para a política europeia da Alemanha - e por boas razões! Nenhum deles dava muita importância, ou mesmo nenhuma, à integração europeia.

Por que pensar em Bismarck quando se espera a amizade europeia? Introduzir o nome de Bismarck no debate indubitavelmente tumultuará a cooperação regional. Poderíamos desprezar tudo isso como exagero típico se a reação interna dos alemães não demonstrasse uma tendência claramente identificável, ou seja, o recuo da Alemanha como motor da integração europeia para buscar cada vez mais seus interesses nacionais.

"Mas é o que os outros também fazem", é a resposta que se ouve frequentemente na Alemanha de hoje. É verdade, só que a Alemanha não é como "os outros". Por causa de suas dimensões, localização e história, a Alemanha desempenha um papel peculiar na estrutura única - espremida entre os interesses nacionais e europeus - que é a UE. Se a Alemanha não atua mais como a força motora da integração europeia, significa que a integração europeia agora é coisa do passado.

Se a Alemanha não mais "europeiza" seus interesses nacionais, mas os busca como fazem outros, o resultado será a "renacionalização" em toda UE. Até que ponto a UE conseguirá suportar esta tensão, só o tempo dirá.

Até esse momento, a Alemanha foi sempre o motor da integração europeia, de conformidade com seus interesses políticos e econômicos. As consequências da renúncia da Alemanha a esse papel são previsíveis: a UE, uma união de Estados que caminham para uma integração cada vez maior, regredirá para a condição de fraca confederação dominada por interesses nacionais conflitantes.

Essa é a ideia britânica de Europa, e o Tribunal Constitucional alemão provavelmente também ficaria feliz com este desdobramento. Mas considerar esse retrocesso um lampejo de gênio político, que salvou o euro e o legado de Helmut Kohl, é ilusão.

É melhor não tentar imaginar o que essa tendência ao enfraquecimento da UE significará para o futuro da Europa em um ambiente internacional com o desafio de novos participantes e de novas dimensões. Mas, por que motivo, diante destes acontecimentos, a UE se preocupou em aprovar o Tratado de Lisboa, é algo cada vez mais difícil de compreender. Esse tratado é praticamente a última coisa de que uma mera confederação precisaria./ ANNA CAPOVILLA

LÍDER HISTÓRICO DO PARTIDO VERDE, FOI CHANCELER ALEMÃO

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