A Europa pode parar a guerra

Bloco europeu é capaz de impedir o conflito na Ucrânia, mas não em Gaza ou na Síria

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2014 | 02h02

Há guerra na Europa. Não, não estou usando o tempo presente histórico para evocar agosto de 1914. O que há na Ucrânia oriental é guerra - "guerra ambígua" como um comitê parlamentar britânico a chama, em vez de uma guerra declarada, entre dois Estados soberanos, mas, ainda assim, guerra. E guerras alastram-se nas franjas da Europa, na Síria, Iraque e Gaza.

Não digo que "a Europa está em guerra". Deixo a hipérbole para Bernard Henry Levy. A maioria dos países europeus não está diretamente engajada em conflito armado. Mas não devemos nos iludir. Por décadas, os europeus vivem com a noção reconfortante de que "a Europa esteve em paz desde 1945". Isso sempre foi um exagero. Em partes como o Leste Europeu, conflitos de baixo nível continuaram até o início dos anos 50, seguidos pela invasão soviética da Hungria em 1956 e da Checoslováquia em 1968. Nos anos 90, a ex-Iugoslávia foi dilacerada numa série de guerras.

Foi em Kosovo que vi, pela primeira vez, corpos projetando-se para fora de sacos para cadáveres improvisados e sangue na neve. Enquanto aquele sangue ainda estava fresco, conversei com o comandante do ELK, Ramush Haradinaj, que memoravelmente observou: "Eu não poderia ser nenhuma madre Teresa" (ele posteriormente se tornou premiê de Kosovo, renunciou quando foi indiciado por crimes de guerra em Haia, mas foi inocentado duas vezes). Depois, voltei à Europa Ocidental para encontrar pessoas discutindo qual sigla "manteve a paz" na Europa. Foi a UE, a Otan, ou, talvez, a OCDE (isto é, a interdependência econômica), a OSCE (isto é, as estruturas de segurança pan-europeias) ou mesmo a ONU? As premissas eram falsas na época e o são ainda mais agora. Há guerra na Europa e ao redor de suas bordas conturbadas.

Guardadas todas as diferenças, as guerrinhas sujas de 2014 têm uma importante conexão com a pavorosa "grande" que começou em 1914. Muitas envolvem lutas por definição e controle sobre a colcha de retalhos territorial deixada pelos impérios multiétnicos que se chocaram há 100 anos e seus Estados sucessores. Assim, por exemplo, a batalha pelo leste da Ucrânia tem a ver com as fronteiras do império russo. Alguns russos, da própria Rússia, que agora lideram o movimento armado pró-russo na Ucrânia oriental, se caracterizaram como "nacionalistas imperiais". Do seu ponto de vista, não são "separatistas", são unionistas.

Durante as guerras nos Bálcãs dos anos 90, peças de quebra-cabeça dos impérios Austro-Húngaro e Otomano foram disputadas e depois remontadas em novos quebra-cabeças menores, como Bósnia, Kosovo e Macedônia. Muitas fronteiras do mapa atual do Oriente Médio remontam ao acordo pós-1.ª Guerra, quando potências coloniais do Ocidente rejuntaram partes díspares do Império Otomano em novos protetorados: Iraque, Síria, Palestina. A grande exceção é, com certeza, Israel, mas esse também pode ser remontado a uma linhagem da mortal sobrevida de impérios europeus. Isso porque a Alemanha nazista, que tentou exterminar os judeus, foi a última e odiosa tentativa de imperialismo racial e territorial alemão.

Então, o que a Europa vai fazer agora sobre suas próprias consequências de longo prazo? A primeira coisa é simplesmente despertar para o fato de que vive numa vizinhança perigosa. Ser uma Grande Suíça não é uma opção moral, nem prática: não é moral porque os europeus jamais deveriam silenciar enquanto crimes de guerra estão sendo cometidos; não é prático porque não pode se isolar de seus efeitos. Os combatentes de hoje na Síria serão os terroristas de amanhã na Europa. Os despossuídos serão os imigrantes ilegais. Deixe essas guerrinhas arderem e seremos abatidos em pleno voo da Holanda à Malásia. Ninguém estará seguro.

Enquanto no passado o sinal de alarme irresistível era uma anexação de território, a maioria dos europeus ocidentais dormiu durante o Anschluss da Crimeia, de Putin. Como ressaltaram Stephen Holmes e Ivan Krastev na Foreign Affairs, a derrubada do avião da Malaysia Airlines em 17 de julho foi o ponto de virada. Sem esse acontecimento transformador, é improvável que a chanceler Angela Merkel tivesse persuadido a opinião pública e o empresariado de seu país da necessidade de sanções mais duras contra a Rússia.

Mas de que vale o poder econômico brando - e lento - da UE contra o poder duro e rápido do Kremlin? Ou, aliás, contra os poderes duros e rápidos do Oriente Médio? De que vale manteiga contra canhões? A resposta é: mais do que vocês poderiam imaginar.

A Europa sozinha não pode acabar com a guerra no Oriente Médio. Só trabalhando com os EUA e com mais alguma cooperação - de todos os lugares - da Rússia, ela poderá trazer paz a Síria ou Gaza. Mas a Europa tem o poder de punir a Rússia por fazer sua artilharia bombardear o Exército regular ucraniano a partir de solo russo e persuadir as autoridades ucranianas a fazer um acordo interno mais generoso possível.

Mesmo as sanções menores que a Europa havia implementado vinham roendo as bordas do regime de Putin. As sanções maiores da Europa, com o tempo, terão maior impacto. As democracias liberais são geralmente mais lentas para agir do que as ditaduras e uma comunidade voluntária de 28 dessas democracias tende a ser mais lenta ainda. Medidas econômicas tomam mais tempo para morder do que as militares, mas podem ser mais eficazes.

Cem anos atrás, tivemos "os canhões de agosto", na expressão de Barbara Tuchman. Agora temos a manteiga de agosto. Notem o papel diferente desempenhado pela Alemanha naquela época e agora. Lentamente, passo a passo, o governo de Berlim está fazendo a coisa certa. A Alemanha está fazendo valer o peso especial de sua relação econômica com a Rússia, enquanto insiste muito razoavelmente para o fardo ser compartilhado com França, Grã-Bretanha e Itália. Algumas coisas mudam. Algumas até melhoram. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE DE OXFORD E BOLSISTA SÊNIOR NA UNIVERSIDADE STANFORD

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