A Europa precisa salvar a Grécia

Mesmo que não tenhamos simpatia pelos gregos, se nos preocupamos com a Europa, devemos estender a mão para Atenas

TIMOTHY GARTON ASH- ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2015 | 03h00

A s consequências da permanência da Grécia na zona do euro seriam ruins, mas as de sua saída seriam ainda piores. Duas semanas atrás, estive na Grécia e me dei conta da situação a cada momento, do alto da Pnyx, a colina onde a assembleia se reunia na Antiguidade, o berço da democracia, ou conversando com líderes da comunidade de negócios, com jornalistas e acadêmicos, muitos dos quais criticaram o atual governo do Syriza. 

No entanto, depois, voltei à Europa, à Grã-Bretanha, à Bélgica, à Polônia e me deparei não apenas com uma relativa indiferença (frequentemente, a Grécia é mais motivo de piadas do que de preocupação), mas também com duas perigosas ilusões. Em primeiro lugar, existe ainda um pressuposto comum de que essa queda de braço entre Grécia e Alemanha acabará, de algum modo, com um clássico compromisso incompreensível, na última hora, no estilo de Bruxelas. 

Em segundo lugar, existe a opinião de que o “Grexit” (a saída da Grécia da zona do euro) é importante. A Grécia representa menos de 2% da produção econômica dos outros países da Europa meridional e, atualmente, a zona do euro dispõe de mecanismos de proteção para impedir que as chamas se espalhem para outros países da região. Por que pessoas que trabalham com afinco, da Irlanda à Letônia, que arcam com a dolorosa reforma estrutural e com a austeridade, continuam pagando para os que não fizeram nada disso? 

Talvez, o “Grexit” fosse mesmo a melhor solução para todos os interessados. Francesco Giavazzi, um professor de economia da Universidade Bocconi, de Milão, na Itália, escreveu: “Deveríamos nos perguntar se é realmente tão importante manter a Grécia na UE”. Vamos analisar essas duas ilusões. 

Primeiramente, isto poderia acontecer amanhã. Os depósitos dos bancos gregos estão se esvaindo como água de um vaso trincado: mais de 500 milhões de euros apenas em um só dia, sexta-feira, 5 de junho, depois que o país abortou um pagamento previsto ao FMI. Os ricos já despacharam grande parte do seu dinheiro para fora do país e os pobres o estão guardando debaixo do colchão. 

Mais uma onda de pânico, uma corrida aos bancos, e serão instituídos controles de capital e o governo falido emitirá obrigações para poder pagar salários e aposentadorias. Sabe Zeus o que viria a seguir. Talvez a Grécia ainda pudesse ser salva com uma espécie de moratória negociada na zona do euro, mas somente o mais irresponsável playboy, defensor da teoria do jogo, contaria com isto. 

O “Grexit” poderá acontecer por “Graccident”. E por que seria tão importante se acontecesse? Para começar, os mercados se dariam conta de que pertencer à zona do euro não é algo irreversível. O contágio para os títulos do governo da próxima nação igualmente fraca e devedora da zona do euro, provavelmente, não se daria de imediato, mas uma nova crise numa economia frágil poderia desencadear uma agressiva especulação. 

Depois, é preciso levar em conta os custos econômicos e, portanto, humanos na Grécia. Inútil, a esta altura, comentar todos os erros do passado: haveria o bastante para lotar todos os confessionários de todas as igrejas da grande cidade de Wroclaw (de onde escrevo estas linhas), e posso afirmar que há muitas esperando examinar os pecados alheios. Desnecessário dizer, a Grécia nunca deveria ter se tornado membro de uma zona do euro que jamais deveria ter sido criada com um plano tão falho. 

Desnecessário dizer que os governos clientelistas gregos, capazes de tomar dinheiro emprestado a juros alemães, tornaram uma situação, que já era ruim, em uma crise nos primeiros anos do euro, em conluio com seus oligarcas. O remédio prescrito pela Alemanha e pelo FMI estava fadado a agravar a doença de um paciente tão enfermo. O paciente só quis tomar parte daquele remédio e assim nos encontramos hoje. No entanto, este não é o momento de discutir a respeito do que já pertence à história. 

Dividam a culpa como quiserem, resta o fato de que muitos gregos sofreram terrivelmente. Em números simples, os gastos reais da economia grega diminuíram aproximadamente 33% em sete anos, com cerca de um em cada dois jovens desempregado. Um dado mais frio ainda mostra que, desde 2010, o número de suicídios aumentou em mais de 35%. 

Não consigo tirar da cabeça a história de Theodoros Giannaros, diretor geral do Hospital Elpis, de Atenas, esgotado, fumando sem parar, trabalhando 20 horas por dia com recursos drasticamente reduzidos. Enquanto Giannaros trabalhava para salvar vidas, recebeu a notícia de que sei filho de 26 anos se matara jogando-se na frente de um trem do metrô. 

Se a Grécia sair da zona do euro, ninguém sabe exatamente o que acontecerá, mas o economista e prêmio Nobel de Economia, Christopher Pissarides, reconhece que o resultado poderá ser a queda mais dramática do padrão de vida de toda a história econômica recente. E todo grego se revoltará. “Para que deveríamos arcar com todo esse sofrimento?” 

Consequências. Como o país ainda tem o sistema político inventado na Atenas da Antiguidade, e o praticou no Pnyx, a mescla de fúria e desespero se expressaria nas urnas. Se não ocorrer algum milagre, isto acabaria resultando, com certeza, em um governo nacionalista mais radical, populista, de esquerda ou de direita. As consequências para toda a União Europeia e para o seu lugar no mundo seriam graves. 

Se, segundo a rigorosa teoria jurídica, uma saída da zona do euro acarretar a saída da UE, na prática, outros países membros tentarão mantê-la- e, no pior dos casos, os efeitos práticos de uma saída levariam anos para se manifestar. 

Ao mesmo tempo, um governo grego radical pós-Grexit poderia, por exemplo, começar vetando uma nova extensão das sanções impostas à Rússia em razão da Ucrânia. Embora, na realidade, Moscou não tivesse de injetar muito dinheiro, ficaria mais do que feliz por jogar a cartada política da solidariedade entre duas grandes nações de religião ortodoxa. 

Quanto aos milhares de refugiados do Oriente Médio e da África que já estão se aproximando no Mediterrâneo, Atenas teria todo incentivo para transferi-los diretamente aos europeus mais ricos que (na opinião da maioria grega) deixaram que a Grécia se arranjasse sozinha. 

Perguntei a um ex-ministro turco qual seria a reação da Turquia. Bem, ele respondeu, com o nova dracma desvalorizado, a Grécia proporcionaria à nossa indústria do turismo mais competição em termos de preços, mas, em termos geopolíticos, o ‘Grexit’ reduziria ainda mais o atrativo da participação na UE. Em vez disso, a Turquia pareceria uma potência regional com pleno direito. 

Enquanto isso, a China já é dona do porto de contêineres do Pireu, em Atenas, e o considera oficialmente um ponto final de sua estratégia extremamente ambiciosa, , conhecida como “nova rota da seda”. 

Pequim, com suas imensas reservas de divisas, ficaria mais do que feliz de ficar com algumas partes - e ganhar também mais influência na própria UE. O país que outrora foi o berço da Europa e da democracia agora seria apenas a ponta da cauda do dragão chinês. E quanto mais cedo melhor, aquela ponta teria um ferrão. 

Portanto, mesmo que não alimentemos a menor simpatia pelos gregos, nem mesmo pelo dr. Giannaros e o filho morto, se temos algum cérebro na nossa cabeça e nos preocupamos com o futuro da Europa, compreenderemos por que devemos salvar a Grécia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS DA UNIVERSIDADE DE OXFORD

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