A Europa varre questões para baixo do tapete

Em vez de estudar o estrago da colisão entre as civilizações Ocidental e islâmica e reverter o quadro, a estratégia europeia é a de negar os problemas resultantes da imigração muçulmana

JOHN VINOCUR, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2011 | 00h00

De todos os grandes males que afligem atualmente a Europa, aquele que é remediado de maneira mais incerta é a falta de integração de suas comunidades muçulmanas, cada vez maiores e mais alienadas.

O vacilante euro, a incerteza que ronda o destino da União Europeia enquanto força econômica unificada e participante do jogo político mundial, sua dívida, seu crescimento e o nível de seus déficits são temas que recebem diariamente prescrições e conselhos de milhares de especialistas e espectadores. Os mercados publicam boletins médicos acompanhando a febre a cada minuto.

Mas, em termos de infortúnio estimado, a extensão exata do estrago provocado pela colisão entre as civilizações Ocidental e islâmica na Europa é difícil de ser medida.

Em vez disso, sua métrica habitual é a negação: a bomba não explodiu ali, nossa seleção nacional de futebol está cheia de jogadores muçulmanos e não elegemos nenhum partido anti-imigração para o Parlamento, ou, se o fizemos, o grupo pode ser contido sem maiores problemas. Quanto menos tocarmos neste assunto, melhor.

Então algo ocorre. Um conflito entra no foco e, para além de suas particularidades, é levantada a questão da incompatibilidade inevitável entre as comunidades islâmicas e o ambiente Ocidental. Um tema que é confortavelmente mantido em termos vagos subitamente exige que a Europa - neste caso, a Holanda - estabeleça limites claros.

Mas onde se situam tais limites? O fato novo foi o conselho oferecido por Frits Bolkestein, ex-líder do Partido Liberal, atualmente no comando do governo holandês. Nas palavras dele, os "judeus ortodoxos e os mais fáceis de serem reconhecidos" deveriam convencer seus filhos a imigrar para Israel ou para os EUA. "Não vejo futuro para eles aqui por causa do antissemitismo, principalmente entre os holandeses marroquinos, cujo número não para de crescer." O comentário, feito no mês passado, chocou duplamente a Holanda.

Havia a declaração em si, ressoando no contexto de uma história nacional na qual quase a totalidade da comunidade judaica de 150 mil pessoas existente antes da 2.ª Guerra foi exterminada pelos nazistas. Além disso, havia a opinião de Bolkestein, segundo a qual o Estado holandês dificilmente seria capaz de lidar com sucesso com o problema e também sua incerteza de que o povo holandês exigiria uma solução.

Posteriormente ele me disse que estas questões refletem sua profunda e abrangente preocupação com a influência das populações islâmicas em toda a sociedade europeia no longo prazo.

Esta visão sombria tem um impacto especialmente duro aqui por causa da reputação de Bolkestein entre muitos dos holandeses, que o consideram uma espécie de profeta da imigração muçulmana. Quando ele sugeriu num discurso feito em 1991 que a integração teria de significar concessões dos recém-chegados em relação às suas identidades, ele foi chamado de preconceituoso. Nos 20 anos seguintes, grande parte do espectro político holandês - e também do europeu - evoluiu para uma posição (mais próxima da dele) que considera o respeito à lei e às tradições do país como aquilo que é mais necessário para a acomodação de uma comunidade muçulmana cada vez maior dentro das fronteiras europeias.

Com relação ao assédio aos judeus ortodoxos em locais públicos, Bolkestein, que não é judeu, chama o fenômeno de "trágico" e "revoltante" e diz enxergar circunstâncias semelhantes na França e na Suécia.

O primeiro-ministro Mark Rutte, liberal, respondeu a Bolkestein reconhecendo que o problema tem "grande impacto simbólico". Sobre os antissemitas na Holanda, ele disse: "Lutaremos lado a lado contra esses babacas. Queremos retomar a sociedade e afastar dela os canalhas."

Isso soa como se os mais altos escalões reconhecessem que a sociedade holandesa foi deslocada ou obrigada a se retirar para uma posição que não deseja ocupar. Mas o pessimismo de Bolkestein vai além. Ao longo dos anos, ele apontou tendências na população do país que, segundo ele, ditam o rumo da interface entre holandeses e muçulmanos.

Atualmente, com base nos números do censo de 2006, o Instituto Demográfico Interdisciplinar da Holanda estima que os muçulmanos, essencialmente marroquinos e turcos, representem cerca de 6% da população do país (sendo que a criminalidade entre os jovens marroquinos é cinco vezes mais alta do que entre seus equivalentes holandeses). O instituto acredita que a parcela muçulmana da população corresponderá a 7,6% em 2050 - ou 11%, no caso de um aumento na natalidade.

Um crescimento populacional mais acelerado do que o verificado entre a população anfitriã, complôs assassinos elaborados por extremistas, um belicoso descontentamento entre a terceira geração de jovens muçulmanos em relação ao país que os adotou, e sociedades nas quais grandes segmentos da maioria étnica dizem se sentir cada vez menos em sua terra natal - o que deve fazer a Holanda e, por extensão, a Europa? Voltar a uma espécie de multiculturalismo, que a chanceler alemã, Angela Merkel, declarou morto? Na verdade, a Escola do Consentimento e da Negação tem seus seguidores. Jurgen Habermas, que foi por décadas uma das principais figuras intelectuais da Alemanha, escreveu, "Tínhamos, e aparentemente ainda temos, de superar a visão segundo a qual os imigrantes devem assimilar os "valores" da cultura da maioria e adotar seus "costumes"".

Conflitos imaginários. Andre Glucksmann, que ocupa uma posição semelhante na estratosfera cultural francesa, refere-se atualmente aos "conflitos imaginários" que envolvem a sociedade francesa e os muçulmanos da França.

Na Holanda, o líder do Partido Trabalhista e ex-prefeito de Amsterdã, Job Cohen, derrotado por Rutte nas eleições nacionais de junho, chega até a apontar na direção do sofrimento muçulmano e de sua exclusão da sociedade europeia. Questionado por um repórter holandês se as circunstâncias atuais que afetam os muçulmanos se assemelham às exclusões da década de 30, uma referência óbvia às leis raciais nazistas que jogaram os judeus numa posição insustentável dentro da sociedade alemã, Cohen respondeu afirmativamente.

Ele explicou: "Isso ocorre de duas formas. Eles são responsabilizados pelo extremismo islâmico. E levam a culpa quando algum jovem marroquino faz besteira." Frits Bolkestein, cujo pai foi internado no campo de Buchenwald, descreveu a visão da realidade exposta por Cohen como "masoquismo cultural".

Não é difícil identificar quem é beneficiado por este conflito de avaliação e propostas entre os democratas.

Na França, Marine Le Pen, da Frente Nacional - que tenta substituir o pai, Jean-Marie Le Pen, fundador e líder do grupo extremista de direita que chamou as câmaras de gás dos nazistas de mero "detalhe" da história da 2.ª Guerra - obteve sucesso na tentativa de transformar esta história numa caracterização tão difícil de proferir quanto fácil de ser estampada nas manchetes: ela comparou à ocupação da França pelos alemães as ruas que às vezes são fechadas em Paris para que os muçulmanos - na ausência de uma mesquita - possam orar.

A desintegração da União Europeia e de sua moeda comum pode muito bem ser direcionada para um desfecho mais racional e viável. Mas, para o confronto entre a Europa e seus imigrantes muçulmanos, cada vez mais intenso e mutuamente prejudicial, não há solução à vista, apenas mais infelicidade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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