A europeia indispensável

Angela Merkel enfrenta o mais sério desafio de sua carreira política. Mas a Europa precisa dela mais do que nunca

The Economist, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2015 | 03h00

Quando se corre os olhos pela Europa, uma liderança sobressai às demais: Angela Merkel. Na França, François Hollande desistiu de fazer de conta que seu país lidera o continente. David Cameron, triunfalmente reeleito, está transformando a Grã-Bretanha numa pequena Inglaterra. A preocupação de Matteo Renzi é o estado comatoso em que se encontra a economia italiana.

Já Merkel, depois de dez anos no comando da Alemanha, vê sua estatura política aumentar a cada turbulência que passa. Na crise da dívida, a chanceler alemã inicialmente se mostrou titubeante, mas depois tratou de preservar a integridade da zona do euro. Na questão da Ucrânia, conclamou os europeus a impor sanções à Rússia (cujo presidente, Vladimir Putin, vê nela a única liderança europeia com quem vale a pena conversar). No tocante à migração, ela defendeu de forma corajosa os valores europeus, praticamente se isolando em seu compromisso com o acolhimento dos refugiados.

Está na moda ver nisso o abandono do recurso à prudência e à autoridade, que sempre caracterizaram as ações de Merkel, em favor de iniciativas precipitadas e calamitosas. Os críticos afirmam que, com a decisão de receber os migrantes em busca de asilo, a chanceler abriu as portas para uma avalanche que devastará a Europa e, bem antes disso, acarretará sua própria ruína política. 

As duas avaliações são equivocadas e profundamente injustas. A chanceler alemã é uma liderança mais formidável do que muitos supõem. E isso é providencial: tendo em vista os diversos desafios com que a União Europeia (UE) se depara, ela é, mais do que nunca, a europeia indispensável.

Por que ela faz diferença. A autoridade de Angela Merkel é, em parte, reflexo da importância da Alemanha. Maior economia da UE e seu principal exportador, o país tem as contas públicas em ordem e uma taxa de desemprego em níveis historicamente baixos. Entre os líderes da UE, Merkel também é a que está há mais tempo no poder.

Suas qualidades pessoais contam bastante. A chanceler defende os interesses alemães sem perder de vista os europeus. Arriscou dinheiro do país para salvar o euro, sem com isso alienar os céticos alemães, e conquistou o respeito de seus colegas europeus, mesmo depois de ter desentendimentos ácidos com eles. 

O mais impressionante (e caso único entre os líderes europeus de centro-direita) é que ela fez isso sem condescender com os populistas anti-UE e anti-imigrantes. Apesar de todos os defeitos da UE, Merkel não faz dela um saco de pancadas, tratando-a antes como um pilar de paz e prosperidade.

A chanceler alemã está longe de ser perfeita. Não é dada a fabulosas peças de oratória ou a visões grandiosas. Se às vezes age como um camaleão político, capaz de adotar bandeiras políticas de esquerda para ocupar o centro do espectro ideológico, em outras ocasiões se comporta como um escorpião que elimina, sem fazer alarde, seus possíveis rivais. A índole cautelosa de Merkel deu origem a um neologismo alemão: merkeln (algo como “merkelar”, ou seja, adiar decisões importantes). A tibieza com que enfrentou os problemas do euro aprofundou desnecessariamente a crise – e ela rejeitou o compartilhamento de riscos de que a área da moeda única tanto precisa para prosperar.

Ironicamente, foi a ousadia, não a tibieza, que expôs Merkel a esse que é seu maior desafio desde que chegou ao poder. Sua firme recusa em estabelecer um limite máximo para o número de refugiados que a Alemanha é capaz de absorver vem causando consternação crescente no interior do país e suscita críticas no exterior: as autoridades municipais alemãs a criticam, os aliados a censuram e países do Leste Europeu a acusam de praticar um “imperialismo moral”. Com a “Willkommenskultur” perdendo força, fala-se até na possibilidade de ela deixar o governo.

As dúvidas são exageradas. Os críticos se equivocam ao imaginar que Merkel está prestes a ser substituída. Resmungos à parte, ela continua a ser a figura dominante em seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU). Levantamento recente revelou que 82% dos filiados aprovam sua liderança e 81% deseja que ela concorra a um quarto mandato como chanceler nas eleições de 2017. 

A matemática eleitoral respalda a noção de que o próximo governo também ficará sob a liderança da CDU. A menos que prefira deixar o cargo, é pouco provável que Merkel seja apeada do poder.

Os críticos também se equivocam ao dizer que ela perdeu o pé na questão da migração. Pelo contrário. Em meio à crise, a filha do pastor luterano encontrou uma vigorosa missão política e moral. Merkel não é responsável pelo aluvião de migrantes, como afirmam seus críticos. Os migrantes viriam de qualquer maneira. O que ela fez foi agir para evitar um desastre humanitário. 

As cercas não vão conter a enxurrada. Não está ao alcance de Merkel acabar com as guerras que fazem com que as pessoas fujam de seus países. Tampouco compete a ela estabelecer as políticas dos países pelos quais essas pessoas passam ao fugir. Os críticos da chanceler não oferecem alternativas plausíveis. A menos que estejam dispostos a violar as leis internacionais e europeias e ver refugiados morrendo afogados ou de frio, os países da UE têm de processar os pedidos de asilo. A questão é: isso vai ser feito de forma ordenada ou caótica?

Sob o comando de Merkel, vem tomando forma uma política quadripartite: absorver sem pestanejar os refugiados que chegam à Alemanha; dividir a responsabilidade com o restante da Europa e com países de outros continentes; fortalecer os controles e o processamento dos pedidos de asilo nas fronteiras externas da Europa e negociar com os países por onde passam os fluxos de migração.

Além de moralmente correta, a abordagem é, no longo prazo, a única que tem como dar certo. Claro que vem acompanhada de problemas e riscos. É provável que envolva acordos – não tão defensáveis moralmente –, em especial com a Turquia. Será preciso, entre outras concessões, fechar os olhos para a erosão das liberdades civis e para a perturbadora vitória eleitoral do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), do presidente Recep Tayyip Erdogan, na esperança de que o presidente turco se disponha a atuar como porteiro da Europa.

E não há como negar que a chegada em massa de refugiados vem agravando muitos dos problemas que assomam no horizonte europeu: prejudica as relações entre a Alemanha e os países do Leste europeu num momento em que a solidariedade entre eles é vital para conter a agressão russa; agrava as dificuldades financeiras da Grécia, já destroçada por anos de austeridade e sem poder afastar de vez o risco de ter de abandonar o euro; torna mais factível que a Grã-Bretanha abandone a UE, oferecendo mais motivos para que os eleitores britânicos optem por essa alternativa no referendo prometido por Cameron e atiça o populismo por toda parte.

Tempos conturbados. Essa é a pior crise vivida pela Europa em uma geração. Se a certa altura a integração europeia parecia inexorável, agora a questão mais premente é como impedir seu desmantelamento. Essa realidade sombria não foi produzida por Merkel, mas é na chanceler alemã que repousam as melhores esperanças de que o continente consiga lidar com ela. É do maior interesse para a Europa auxiliar a chanceler em vez de deixar que enfrente a crise sozinha. 

Depois de uma década no poder, políticos geralmente se aposentam, perdem contato com a realidade ou sofrem derrotas que os levam a deixar os cargos. Mas, sem Merkel, é difícil ver como a Europa fará para dominar suas forças destrutivas. TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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