Alejandro Pagni/AFP
Alejandro Pagni/AFP

A Evita da Broadway, distante da Evita real

Militantes, musical e filme criaram mitos sobre a 'Mãe dos pobres'

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

25 de julho de 2012 | 15h39

BUENOS AIRES - Ao longo da vida de Evita Perón - e especialmente após sua morte - surgiram uma série de lendas sobre a "Porta-estandarte dos humildes". Além dos próprios militantes, os principais mitos foram divulgados por intermédio do musical de Andrew Lloyd Weber e Tim Rice, sucesso na Broadway a partir de 1976 que transformou-se em filme de Hollywood.

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Entre as principais falhas históricas está a de mostrar Evita como uma menina de uma família que vivia na miséria. Ao contrário, a mãe de Eva tinha um pensionato na cidade de Junín e eram integrantes de uma austera classe média.

Aos 15 anos Evita partiu dali rumo à cidade grande, Buenos Aires. Mas, ao contrário do filme, não foi casada com o cantor Agustín Magaldi e transformou-se em sua amante. Magaldi, que era solteiro, nunca havia visto Evita. A jovem foi à capital com sua mãe e foi morar com seu irmão mais velho, Juan.

Evita era filha extramatrimonial de Juan Duarte. Mas, quando morreu em 1926, não foi expulsa do velório do pai por sua viúva oficial, Estela Grisolía, já que a mulher havia morrido em 1922. Segundo o historiador Pablo Vázquez, chefe do Arquivo do Museu Evita, as duas famílias - a oficial e a paralela - "se davam bastante bem. Não houve expulsão alguma do velório".

Outra falha do musical e do filme é mostrar Evita como a pessoa que liderou os trabalhadores para liberar seu namorado - e posterior marido - Juan Domigo Perón. Ao contrário, Evita saiu de Buenos Aires e foi pra casa da mãe, em Junín. Só depois da liberação de Perón é que ela voltou à capital. Ela não tinha protagonismo político na época. Só com a posse de Perón como presidente no ano seguinte, ela começou a ter uma acelerada atividade política, transformando-se no no braço-direito do marido.

Outro erro é o de colocar Ernesto "Che" Guevara como narrador da História. Che Guevara, na época em que Evita chegou ao poder tinha 18 anos e estava iniciando seus estudos de Medicina. E o Che - que jamais encontrou-se com Eva ou com Perón - considerava Evita e seu marido uns "representantes do fascismo".

Vázquez também disse ao Estado que as famosas pichações com os dizeres "Viva o câncer", supostamente escritas nas paredes de Buenos Aires pelos inimigos políticos de Evita quando ela agonizava com um devastador câncer de útero, nunca passaram de uma única parede no bairro da Recoleta com a frase. "Seria quase impossível fazer uma pichação do gênero nas redondezas da residência presidencial, com toda a segurança da época", explica. 

Veja trecho do filme Evita:

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