Brendan Smialowski/AFP
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A ex-primeira-dama Melania Trump deixa sua marca na Casa Branca

Parte do legado de uma primeira-dama vem do trabalho de preservação e decoração que ela realiza na Casa Branca, um museu vivo da história do país

Jura Koncius, The Washington Post

03 de março de 2021 | 15h00

WASHINGTON - Parte do legado de uma primeira-dama vem do trabalho de preservação e decoração que ela realiza na Casa Branca, um museu vivo da história do país.

Toda família presidencial de saída deixa algo de si na mansão de 132 cômodos em que viveu. E mesmo que Melania Trump não tenha colocado como prioridade reformular os espaços, adições significativas e melhorias ocorreram sob seu mandato. Elas incluíram uma estátua de bronze de Isamu Noguchi, uma reforma na Sala Leste e novos tecidos para substituir o revestimento de estofados e paredes da Sala Vermelha. Também foram realizados projetos práticos, como a modernização da sala de armazenamento curatorial no subsolo e a restauração de portas históricas de madeira danificadas há décadas pelos cães presidenciais.

“Do Pavilhão de Tênis ao Jardim de Rosas, a sra. Trump trabalhou em uma variedade de projetos de renovação durante seu período como primeira-dama”, afirmou a assessoria de Melania Trump em um comunicado a respeito das melhorias que ela fez na Casa Branca. “Ela é apaixonada pela preservação histórica da Casa Branca e seu entorno, garantindo que sua história e beleza sejam preservadas para gerações futuras.”

Em razão da pandemia de covid-19, das relações tensas de Melania com a imprensa e de seu perfil discreto, porém, os projetos dela não apareceram muito nas manchetes.

“Melania se espelhou em Jackie Kennedy”, afirma Kate Andersen Brower, historiadora especializada na presidência dos Estados Unidos que escreveu cinco livros a respeito da Casa Branca, incluindo "First Women” (Primeiras-damas). “Mas acho que, com seu histórico de modelo e envolvimento na indústria da moda em Nova York, ela esteve mais preocupada com a própria aparência do que em abrir sua casa.”

A renovação do icônico Jardim de Rosas causou certa apreensão entre tradicionalistas, que não ficaram felizes com a retirada das macieiras silvestres que estavam no projeto original da jardineira e paisagista Bunny Mellon. Também se falou a respeito das reluzentes novas bolas de boliche da pista de boliche reformada, nas quais foi estampada a frase "The President's House” (A casa do presidente). E tivemos o caso das gravações que revelaram o desgosto de Melania por ter de planejar a decoração anual de Natal.

Enquanto as primeiras-damas Laura Bush e Michelle Obama exibiram suas decorações interiores da Casa Branca na capa da revista Architectural Digest antes de seus maridos deixarem a presidência, a AD não fez matéria com Melania Trump.

A designer novaiorquina contratada pelos Trumps, Tham Kannalikham, que trabalhou para Ralph Lauren, recusou repetidamente pedidos de entrevista a respeito de seu trabalho nas áreas privadas da Casa Branca e em outros lugares. “Ficarei encantada em falar com você futuramente a respeito do meu período trabalhando nos interiores da Casa Branca com a primeira-dama Melania Trump. Neste momento, porém, eu gostaria de um tempo para refletir a respeito da incrível jornada da qual tive tanta sorte de participar”, escreveu Tham em um e-mail.

O livro de memórias "Melania and Me" [Melania e eu], lançado em 2020 por Stephanie Winston Wolkoff, revelou uns poucos detalhes da decoração, incluindo a paixão de Melania pela tinta em tom rosa Middleton, da Farrow & Ball, que ela usou em seu escritório, e sua insistência em substituir torneiras e afins. A CNN noticiou que Melania Trump estaria “brincando com a ideia de fazer um livro de mesa com fotografias a respeito da história da hospitalidade na Casa Branca ou talvez uma obra centrada nos projetos de design que realizou como primeira-dama” e que, pouco antes de os Trumps se mudarem da Casa Branca, fotos profissionais de tapetes e outros objetos decorativos estavam sendo produzidas.

Uma fonte a par dos projetos de renovação fez o seguinte comentário a respeito do possível livro, “A sra. Trump tem muitas ideias diferentes e vai levar um tempo para colocá-las em ordem. Independentemente da decisão dela, o resultado será produto de qualidade e paixão”.

Alterações nos ambientes públicos da Casa Branca são realizadas mediante consulta com o curador e porteiro-chefe da Casa Branca e com um grupo de especialistas, a Comissão para a Preservação da Casa Branca. O órgão tem a função de manter a característica museológica dos recintos e acrescentar peças decorativas e obras de arte. A primeira-dama atua tradicionalmente como presidente de honra da comissão.

A maior parte do trabalho de conservação, preservação e aquisição de novos itens é financiada pela Associação Histórica da Casa Branca, uma entidade educacional, privada e sem fins lucrativos, fundada em 1961 por Jacqueline Kennedy para garantir os cuidados de preservação exigidos pela Casa Branca. O financiamento para gastos gerais de manutenção vem de outras fontes, incluindo de verbas do Congresso, da Administração de Serviços Gerais e do Serviço Nacional de Parques.

As primeiras-damas lidam com os projetos de renovação de diferentes maneiras. Pat Nixon adquiriu várias peças de antiguidade, enquanto Rosalynn Carter aumentou a coleção de arte. Hillary Clinton restaurou a Sala Azul, e Laura Bush renovou o Quarto de Lincoln. “Para algumas primeiras-damas, preservação histórica é um interesse pessoal. Outras consideram isso parte de suas funções e responsabilidades tradicionais”, afirma Betty Monkman, ex-curadora da Casa Branca. “A maioria das primeiras-damas é muito solícita e quer preservar a casa e torná-la apresentável para fins de entretenimento do público americano.”

"Melania Trump se concentrou, primeiramente, na preservação histórica e em cuidar da beleza dos espaços e seus elementos históricos”, afirmou Stewart McLaurin, presidente da Associação Histórica da Casa Branca. “Uma coisa que me impressionou desde cedo foi que ela sempre quis saber o que as outras fizeram antes dela, o que era costumeiro e tradicional. Daí ela acrescentava seu charme próprio ou toque pessoal.”

McLaurin afirma que a associação gasta de US$ 1 milhão a US$ 2 milhão na Casa Branca anualmente. A entidade bancou cerca de uma dezena de projetos durante o mandato de Trump, incluindo:

  • Reforma de elevador. O pequeno elevador que leva ao espaço privado da Casa Branca sofreu uma reforma que incluiu novo acabamento, substituição de elementos de madeira e bronze e modernização da iluminação. O custo: US$ 100 mil. “É por lá que o presidente e a primeira-dama trazem chefes de Estado à sua residência. Antes, esse elevador era meio encardido e obscuro. Parecia com os fundos de uma antiga loja de departamentos. Precisava muito de uma reforma”, afirma McLaurin.

 

  • Cadeira antiga. Uma cadeira rara, fabricada em 1817, uma das 24 peças originais projetadas por William King, de Georgetown, e adquirida pelo presidente James Monroe, foi comprada e restaurada. O custo:  US$ 85 mil.

 

  • Tapete da Sala de Recepção Diplomática. Na Sala de Recepção Diplomática, onde dignatários costumam ser recebidos, circula muita gente. O tapete do recinto, que ostentava os selos dos 50 Estados em sua beirada, parecia desgastado. Melania Trump ajudou a desenhar um tapete novo, que foi fabricado pela Stark Carpet, acrescentando as flores dos 50 Estados. O custo: US$ 200 mil.

 

  • Portas. Cerca de 30 portas de madeira receberam novo acabamento profissional, e as maçanetas, novo polimento. O custo: US$ 90 mil. “Não foi um projeto glamuroso”, afirma McLaurin. “Mas foi necessário para manter a casa bonita.”

 

  • Substituição dos tecidos da Sala Vermelha. Anos sob a luz do sol fizeram desbotar o icônico carmesim da seda Scalamandré que revestia as paredes da Sala Vermelha. “Todo o recinto recebeu novo revestimento para restabelecer o esplendor do vermelho original”, afirmou McLaurin. A mobília recebeu nova cobertura de seda vermelha e dourada. O custo: cerca de US$ 300 mil.

 

  • Estofamento e folheamento dos móveis Bellangé. Pierre-Antoine Bellangé fez em Paris 53 peças de mobília, em 1817, para o recinto da Casa Branca que é conhecido hoje como Sala Azul. Em 1860, quase todas as peças foram vendidas em um leilão. Jacqueline Kennedy comprou de volta algumas delas; desde então, outras foram readquiridas e algumas réplicas foram fabricadas. A restauração das atuais 21 peças começou no mandato de Obama e terminou em 2018. O custo: US$ 800 mil.

 

  • Relógio de parede. Um relógio foi pendurado sobre a porta do elevador reformado. Os números e inscrições foram grafados por calígrafos da Casa Branca, e a águia no centro é inspirada no porcelanato de James Monroe. O relógio foi fabricado pela Chelsea Clock Company, fundada em 1897, em Chelsea, Massachusetts. O custo: US$ 10 mil.

 

  • Escultura de Isamu Noguchi. A escultura "Floor Frame”, de Noguchi, foi selecionada por Melania Trump como a primeira obra de um artista asiático-americano adquirida para a coleção da Casa Branca. Ela foi instalada no Jardim de Rosas em novembro de 2020. O custo: US$ 200 mil.

O maior projeto de Melania Trump foi provavelmente a reforma do Jardim de Rosas, que incluiu a substituição de plantas antigas, instalação de novos caminhos de pedra e renovação de sistemas de drenagem. A reforma foi paga com recursos privados. O pavilhão de tênis foi inspirado na arquitetura da Casa Branca. A construção foi realizada em parceria entre o Fundo para o National Mall e o Serviço Nacional de Parques - e financiado por doações particulares. A conta da reforma da pista de boliche foi paga pela Associação de Proprietários de Pistas de Boliche dos Estados Unidos.

Melania Trump recusou-se a comentar qualquer obra no espaço privado da Casa Branca. A fonte a par dos projetos de restauração disse, “A sra. Trump preservou, restaurou e melhorou muitos recintos na residência privada, a Sala de Jantar, a Sala Oval Amarela e o Quarto e Banheiro da Rainha. Todos os projetos foram cuidadosamente pesquisados, e os melhores empreiteiros foram contratados para realizar o trabalho.” / Tradução de Augusto Calil

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