A experiência israelense total

Corrente pacifista, que era liderada por Yitzhak Rabin, perdeu espaço para os falcões ideológicos, comandados por Netanyahu

É COLUNISTA, THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, THOMAS, FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2012 | 02h08

Estas foram as principais manchetes do jornal Jerusalem Post na quarta-feira: "Comando da Frente Doméstica simula ataque de mísseis durante treinamento". Sobre o Egito: "Morsi opta por segurança enquanto polícia reprime manifestantes". Sobre a Síria: "Combates respingam no Líbano" e "Escuridão ao meio-dia para moradores assustados de Damasco". Sobre a Tunísia: "Islamistas e esquerdistas tunisianos se chocam após protestos trabalhistas". E ainda: "Otan adverte Síria a não usar armas químicas". E a minha preferida: "Voltem e tragam muita gente com vocês: Ministério do Turismo oferece a operadoras a experiência israelense total". Isto mesmo, "a experiência israelense total".

A experiência israelense total hoje é um experimento de ciência política ao vivo. Como um país deve lidar com autoridades públicas falidas ou em falência em quatro de suas fronteiras - Gaza, sul do Líbano, Síria e Deserto do Sinai, no Egito. Cada um deles, hoje, repleto de agentes não estatais aninhados entre civis e armados com foguetes.

Como Israel e seus amigos deveriam pensar essa "experiência israelense" e associá-la à sempre presente questão da paz árabe-israelense? Para começar, se você quiser disputar o poder em Israel ou ser levado a sério por aqui, seja como jornalista ou como diplomata, há uma pergunta não enunciada no pensamento de quase todo israelense que precisa ser respondida corretamente: "Você compreende em que vizinhança estou vivendo?" Se os israelenses farejarem que você não compreende, eles cerrarão seus ouvidos para você. Essa é a razão pela qual os europeus, em geral, e a esquerda europeia, em particular, têm tão pouca influência aqui.

A divisão política central existente em Israel é sobre a sequência dessa pergunta: se você aceita que Israel viva numa vizinhança onde não há misericórdia com o fraco, como devemos esperar que Israel aja? Há duas escolas principais de pensamento aqui. Uma é liderada pelo primeiro-ministro Binyamin "Bibi" Netanyahu e abarca os falcões ideológicos que, à pergunta "Você compreende em que vizinhança estou vivendo?" dizem aos israelenses e ao mundo: "É muito pior do que você pensa".

Aproximação. Netanyahu chega a ressaltar cada ameaça possível ao país e defende, basicamente, que nada que Israel fez ou fará mudou ou poderá mudar o imutável ódio árabe ao Estado judeu ou o caráter hobbesiano da vizinhança. Não faltam evidências para corroborar o que ele pensa. Israel se retira do sul do Líbano e de Gaza, mas continua sendo castigado por foguetes.

No entanto, esse grupo é chamado de falcões ideológicos porque a maioria deles também defende que Israel conserve o controle permanente da Cisjordânia e de Jerusalém por razões religiosas e nacionalistas. Assim, é impossível saber onde termina sua lógica estratégica para reter territórios e onde começam seus sonhos religiosos e nacionalistas - e isto torna sua proposta confusa para o mundo.

A outra escola de pensamento importante aqui pode ser chamada de "Escola Yitzhak Rabin". Ela foi mais bem descrita pelo escritor Leon Wieseltier como os "bastardos pela paz". Rabin, o ex-premiê e herói de guerra israelense, começou exatamente como Bibi: esta é uma vizinhança perigosa e um Estado judeu não é bem-vindo aqui.

No entanto, Rabin não parou por aí. Ele também acreditava que Israel era muito poderoso e, portanto, deveria usar judiciosamente sua força para tentar evitar de se tornar um Estado guarnição, condenado a governar para sempre muitos milhões de palestinos.

Os "bastardos pela paz" de Israel acreditam que cabe a cada líder israelense testar, testar e testar novamente - usando cada grama de criatividade - para ver se Israel consegue encontrar um parceiro palestino para uma paz segura e, assim, não ficar travando eternamente uma guerra interna e uma guerra externa.

Na melhor das hipóteses, os palestinos poderiam surpreendê-los. Na pior. Israel teria a justificativa moral para uma guerra permanente. Hoje, infelizmente, não só o campo da paz israelense está morto, como o mais atuante "bastardo pela paz" israelense, o ministro da Defesa Ehud Barak, está se aposentando.

Conselhos. Quando me reuni com Barak, dia desses em seu escritório, ele me confidenciou seu conselho de partida para o próximo e seguramente direitista governo de Israel. "Forças políticas imensas, com raízes profundas, estão hoje em ação em torno de Israel, em particular, a ascensão do Islã político", disse Barak. "Precisamos aprender a aceitá-lo, a ver ambos os seus lados e tentar melhorá-lo. Estou preocupado com nossa tendência a adotar uma percepção fatalista e pessimista da história. Isto porque, se adotada, ela livrará os dirigentes da responsabilidade de ver os melhores aspectos e aproveitar as oportunidades quando elas surgirem."

"Se Israel simplesmente supor que é só uma questão de tempo para os líderes palestinos moderados na Cisjordânia caírem e o Hamas assumir, por que tentar algum a coisa?", acrescentou Barak. "E, portanto, perde-se de vista as oportunidades e o desejo de aproveitar as oportunidades. Sei que não se pode dizer que quando os líderes levantam esse tipo de pessimismo é tudo inventado. Não é tudo inventado e seria estupidez não se observar isto de olhos abertos."

Contudo, há um grande risco de não notarmos que nos tornamos escravos desse pessimismo de uma maneira que nos paralisa e impede a compreensão de que podemos alterar essa situação. "O mundo é cheio de riscos, mas isto não significa que não tenhamos a responsabilidade de fazer algo a esse respeito - dentro de nossos limites e dos limites do realismo - e evitar as profecias que alimentam a própria concretização, que são extremamente perigosas aqui", concluiu Barak. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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