A facção do bloqueio

Conservadores ameaçam reforma da imigração nos EUA

FAREED , ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2014 | 02h04

Às vezes, sou chamado de centrista. E, espontaneamente, admito acreditar que nenhum dos lados do espectro político tem o monopólio da sensatez ou da virtude. Mas, às vezes, a realidade aponta para uma direção. Observando as maquinações em Washington nas últimas duas semanas, é impossível dizer até onde ambos os partidos são responsáveis pela paralisação dos EUA.

Analisemos o que ocorreu com o assunto da imigração, uma questão que está no momento oportuno para ser solucionada. A grande maioria dos americanos apoia a concessão de cidadania a imigrantes ilegais que preencherem certos requisitos - 81%, segundo mais recente pesquisa da CNN - como também reforçar o controle nas fronteiras. Líderes do Partido Republicano na Câmara e no Senado propuseram um amplo pacote de reformas que criaria um tempo de espera muito longo para a obtenção da cidadania - 13 anos, ao lado de um controle mais rigoroso. Muitos democratas mostraram-se dispostos a aceitar esse compromisso.

No entanto, os republicanos percebeu que mesmo isso seria inaceitável para muitos conservadores do Tea Party. Assim, em 30 de janeiro, líderes do partido divulgaram uma nova proposta abolindo qualquer perspectiva de um trâmite especial para os imigrantes ilegais, independentemente do tempo de espera.

Impasse. Os interessados, em vez disso, receberiam apenas documentos para trabalhar e pagar impostos. Tratou-se de uma enorme concessão ao Tea Party e é improvável que a proposta avance. Os democratas estão vigorosamente contra a noção de um estatuto de segunda classe permanente para imigrantes ilegais. E grande parte da sociedade também se opõe a isso.

Há alguns dias, o presidente Barack Obama disse, em entrevista à CNN, que se sentiu "animado" pela proposta. "Realmente acredito que o presidente da Câmara, John Boehner, e diversos deputados republicanos, como Paul Ryan, desejam que uma reforma da imigração séria vire lei. Não vou prejulgar o que está na minha mesa", disse, deixando claro que não estava descartando a proposta.

Todos os democratas com quem conversei detestaram a ideia, por razões morais e políticas. Muitos ficaram surpresos com essa concessão de Obama. Então, o que ocorreu? Alguns dias depois, Boehner, falando com jornalistas, explicou que mesmo seu novo projeto não tinha possibilidade de êxito e a reforma da imigração estava morta.

Para ele, ninguém acreditava que Obama sancionaria a lei. Mas, na verdade, o governo aprovou leis de imigração ferozmente. Deportou mais de 400 mil pessoas em 2012, número duas vezes e meia maior do que os deportados em 2002.

Em 2002, a cada duas pessoas expulsas, 13 obtiveram autorização de residência. Em 2012, a cada duas expulsas, cinco se tornaram residentes legais. Por essa razão, como também a recessão, o número de imigrantes ilegais não aumentou em vários anos.

É possível que o mais recente circo envolvendo o teto da dívida mudará a situação.

No entanto, Theda Skocpol, de Harvard, ressalta que os analistas vêm proclamando o declínio do Tea Party há vários anos, mas que a facção continua a exercer uma forte influência sobre o Partido Republicano. O Tea Party tem dois elementos a seu favor: uma imensa energia das bases e o colapso da autoridade dentro do Congresso americano.

Theda diz que nas centenas de entrevistas que realizou para um livro sobre o Tea Party, com Vanessa Williamson, observou que "o conservadorismo fiscal, com frequência, é considerado a prioridade máxima das bases do Tea Party, mas Vanessa e eu concluímos que não é verdade".

"A repressão aos imigrantes, a oposição feroz aos democratas e os cortes nas despesas para jovens eram propostas de prioridade máxima defendidas por membros voluntários do partido que, com frequência, recebem benefícios da sociais."

Conservadores. Isso tudo sugere um futuro sombrio para que alguma coisa seja acertada em Washington. A imigração estaria no momento propício para uma reforma criteriosa. A sociedade é a favor de uma solução de compromisso, analistas já propuseram maneiras para fazer com que ela funcione, a Câmara de Comércio também apoia essa reforma, as grandes empresas de tecnologia vêm clamando por ela, democratas e republicanos veteranos também a defendem. No entanto, não conseguimos superar um problema crucial em Washington nos dias atuais - a facção radical e obstrucionista dos republicanos.

Da próxima vez que alguém acusar "ambos os lados" pela paralisia em Washington ou fizer um apelo insípido por "líderes" que tirem os EUA do impasse, lembre-se do problema da imigração. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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