A fala de Churchill 70 anos depois

Discurso do ex-premiê britânico é exibido em meio às cerimônias para lembrar o início da ofensiva contra Hitler

JOHN F. BURNS, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

O s historiadores o definiram como um dos discursos mais importantes pronunciados em língua inglesa, e seguramente um dos mais importantes pronunciados por um inglês em circunstâncias de grande perigo para a nação, sem paralelo nos tempos modernos.

Há 70 anos, em 18 de junho de 1940, Winston Churchill, que ocupava havia apenas seis semanas o cargo de primeiro-ministro da Grã-Bretanha, diante da ameaça de invasão da França ocupada pelos nazistas, foi à Câmara dos Comuns e, em 36 minutos de vibrante oratória, conseguiu entusiasmar seus compatriotas com o histórico pronunciamento que ficou sendo conhecido como seu discurso do "momento mais belo".

O discurso - que se encerrou com as palavras "Vamos encarar nossos deveres e nos compenetrar de que, se o império britânico e sua Commonwealth durarem mil anos, os homens ainda dirão "este foi seu momento mais belo" " - continua repercutindo. De ambos os lados do Atlântico e além dele, foi saudado como o momento em que a Grã-Bretanha encontrou a determinação de continuar lutando depois da queda da França e, finalmente, firmar uma aliança com os exércitos americano e russo para vencer os exércitos alemães que haviam invadido a maior parte da Europa.

O texto datilografado do discurso é conservado atualmente em uma das 2.500 caixas de documentos e objetos que ocupam os andares superiores fortemente policiados dos Arquivos Churchill, do Churchill College da Universidade Cambridge, fundados em 1960, cinco anos antes de sua morte.

O discurso e outros documentos pertinentes estão expostos para a visitação de estudiosos, jornalistas e outras pessoas. O momento escolhido para exibir estes documentos tem a ver, principalmente, com o aniversário do discurso em si, e com uma série ampla de comemorações em todo o país, para marcar o que Churchill, naquela tarde de 1940, descreveu nos Câmara dos Comuns como uma batalha que determinaria "a sobrevivência da civilização cristã".

Duas semanas antes do discurso, navios e uma frota de barcos de pesca e embarcações particulares britânicas haviam concluído a retirada de 338 mil soldados britânicos, franceses e de outros países da Commonwealth que corriam o risco de ser dizimados pelas tropas alemãs nas praias de Dunquerque.

Um mês depois do discurso, como Churchill havia previsto, aviões de combate britânicos entraram em confronto com a Luftwaffe na batalha que ficou conhecida como Batalha da Inglaterra.

A renovada ênfase na liderança exercida por Churchill no tempo da guerra provocou uma ressonância nestes dias, também, pelo fato de a Grã-Bretanha enfrentar novamente uma crise nacional, agora com uma economia que caminha para a recessão e perigosos níveis de endividamento. Mais uma vez, a tarefa de galvanizar o país cabe a um novo primeiro-ministro, David Cameron, conservador como Churchill, há pouco mais de um mês no cargo e, como Churchill, líder de uma coalizão formada em consequência de uma eleição parlamentar, o primeiro governo de coalizão desde o governo de unidade nacional liderado por Churchill desde 1940 até sua derrota nas eleições gerais de 1945.

Se Cameron conseguirá como Churchill conduzir a Grã-Bretanha para "os amplos planaltos banhados pelo sol" destacados pelo ex-premiê em seu discurso como o prêmio pela vitória contra Hitler, é algo que aparentemente muitos relutam a crer, na Grã-Bretanha, talvez com mais razão do que muitos céticos que ouviram o discurso de Churchill em 1940.

Afinal, ele já era um ícone, uma figura controvertida quando assumiu o cargo, e desde então habita o panteão da história. Em uma pesquisa em que foram ouvidos mais de um milhão de telespectadores, em 2002, ele foi eleito a maior personalidade inglesa (superando, entre os dez primeiros, Isaac Newton; a princesa Diana e John Lennon).

O que os documentos do Churchill College revelam é a nova redação que ele deu ao discurso na última hora, acrescentando frases, reescrevendo outras e acrescentando outras de improviso, enquanto se dirigia a seus ouvintes.

Improviso. No último trecho famoso, a frase que ele usou para descrever o mundo no qual a Europa e os EUA mergulhariam se Hitler vencesse - "o abismo de uma nova era obscurantista que uma ciência pervertida tornará mais sinistra e talvez mais prolongada" - foi emendada à mão, talvez instantes antes de se levantar para falar aos Comuns.

Igualmente intrigante é o fato de que a última versão datilografada do discurso foi redigida, pelo menos no trecho final que fala de "seu momento mais belo", em versos brancos, com parágrafos de cinco linhas, uma forma que o diretor do Churchill Archives Center, Allen Packwood, comparou ao Livro dos Salmos do Antigo Testamento, considerado por muitos estudiosos de literatura um dos elementos que mais influíram, assim como Shakespeare, no estilo literário e retórico de Churchill.

Packwood tem uma teoria para a forma em verso: "Como parecesse poesia, ela lhe deu, na minha opinião, o ritmo que deu vida à sua oratória. Este homem elevou a arte da oratória ao ponto mais alto da literatura."

Ele mesmo escrevia seus discursos, mas a correspondência com sua mulher pode ter contribuído para conter os repentes de mau humor que ele tinha muitas vezes, e que comprometia o otimismo e a determinação dos seus textos. Ela escreveu, pouco depois de ele pronunciar o discurso, "espero que você me perdoe por dizer-lhe algo que acredito você deva saber. Um amigo devotado, me disse que você corre o risco de não ser aprovado por seus colegas e subordinados por suas maneiras rudes, sarcásticas e prepotentes". E acrescentou: "Você não conseguirá grandes resultados com a irascibilidade e a rudeza, pois eles poderão antipatizar com você ou adotar uma mentalidade de escravos." / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

VICE-PRESIDENTE DE ESTUDOS DE POLÍTICA EXTERNA E DEFESA NO AMERICAN ENTERPRISE INSTITUTE

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