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A falência da política

A vitória ou derrota de Trump pode definir futuro do Partido Republicano

Lourival Sant'anna, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2016 | 05h00

Muito se tem discutido sobre o futuro do Partido Republicano, quer Donald Trump vença ou não as eleições de 8 de novembro. Isso porque o empresário, em sua primeira disputa de um cargo público, derrotou importantes líderes republicanos nas primárias atropelando dogmas que fazem parte da identidade do partido, como a crença no livre comércio. 

Em uma videoconferência promovida na quarta-feira na Faap pelo consulado americano e pelo Irice, David Kramer, dirigente republicano de Nebraska, considerou “muito exagerada a suposição de que essa eleição será a morte do Partido Republicano”, usando o seguinte argumento: “Mais pessoas votaram nas primárias republicanas este ano do que em toda a história”. 

Além disso, defendeu Kramer, ficou demonstrado que, “pelo menos no Partido Republicano, não são os dirigentes que decidem quem será o candidato a presidente, mas o povo, quer os dirigentes gostem ou não”. Em contraste, continuou o republicano, ficou claro que Hillary Clinton venceu as primárias com o apoio dos “superdelegados”, dirigentes partidários que não precisam seguir o voto dos filiados e representam 15% dos delegados na convenção. Hillary teria derrotado seu rival Bernie Sanders, senador por Vermont, mesmo sem esse apoio, mas é aceitável o argumento de que a certeza de que ela o receberia criou desde o início um ambiente mais favorável a ela.

A segunda parte do argumento é forte, porque sugere o império da democracia no Partido Republicano. Já a primeira parte tem sérias implicações. Significa que a grande participação de filiados nas primárias – provavelmente parte deles novos filiados, atraídos pelo fenômeno Trump – compensa o abandono de posições do partido. Por essa visão, os partidos se reduzem a uma máquina destinada a vencer disputas políticas, independentemente da plataforma de governo defendida. Ou seja, o poder é um fim em si mesmo.

Essa não é a única visão no partido. Em um seminário no dia 14 na Fundação FHC, a estrategista republicana Kori Schake reconheceu que “Trump não compartilha nenhum valor republicano e, se eleito, vai dizimar o partido”. Se perder por pouco, avaliou ela, “isso vai validar suas políticas, e levará à destruição do partido no atacado”. Finalmente, “o mais positivo seria ele perder por muito” – o que parece improvável. 

Schake, que foi assessora da campanha presidencial do senador John McCain em 2008 e de política externa do ex-presidente George W. Bush, declarou que votará em Hillary. Ela ressalvou, no entanto: “Temos de nos apropriar do fato de que esses são os nossos eleitores”.

Rival. Hillary também mudou de posições em relação aos acordos comerciais e ao sistema público de saúde, admitiu a estrategista democrata Penny Lee, que também participou da videoconferência. Essas foram duas plataformas centrais tanto do governo de Bill Clinton quanto do de Barack Obama, com o envolvimento de Hillary. Como primeira-dama, ela foi encarregada de tentar aprovar no Congresso a reforma do sistema de saúde no governo Clinton, e depois foi secretária de Estado no primeiro mandato de Obama. 

Como Kramer assinalou, não é só o seu partido que precisará ser repensado depois dessas eleições: o Democrata também. Afinal, Sanders era um senador independente antes de se lançar à disputa com Hillary nas primárias. E obteve 43,1% dos votos dos filiados, contra 55,2% para Hillary. 

“Normalmente, ter experiência conta a favor, em uma entrevista de emprego”, observou Lee. “Nesse caso, o fato de ter experiência prejudicou Hillary”, continuou a democrata, referindo-se às altas taxas de rejeição à candidata de seu partido, que em algumas pesquisas se aproximam de 50%. “Hillary precisa entender de onde vem essa raiva.”

A rejeição a ideologias partidárias e a políticos experientes não ocorre apenas nos EUA, mas, também, na Europa, onde novos partidos de direita e de esquerda vêm crescendo na Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha e Grécia. E no Brasil, onde as eleições municipais deram vitória a candidatos sem experiência política, como no caso de São Paulo, e a partidos pequenos, como no caso do Rio, em que PRB e PSOL passaram para o segundo turno. 

O Brasil está um pouco à frente nesse processo, se é que se pode dizer assim, já que tem 28 partidos com cadeiras no Congresso. Obviamente, não representam 28 propostas do que fazer com o Brasil, mas, sim, 28 oportunidades de negócios – se não mais, considerando facções internas. A proibição das doações por empresas – que é moralizadora, no caso do Brasil – introduziu uma nova vantagem competitiva: candidatos com fortunas pessoais. 

Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin foi quem conseguiu a alquimia perfeita entre as velhas e as novas normas eleitorais. Atraiu o apoio do maior número de partidos, para ter mais tempo no horário eleitoral, e escolheu um candidato com dinheiro para bancar a própria campanha e sem passado político para ser cobrado. Bingo: João Doria obteve 53,3%, mesmo enfrentando rivais altamente competitivos.

O sucesso de Trump e de Doria tem a ver com a dissociação entre política e gestão: muitos políticos se mostram tão maus gestores, e colocam tanto o interesse político-partidário na frente do público, que o eleitor vai buscar alguém com êxito na iniciativa privada. Tudo somado, estamos diante da falência da ideologia, dos partidos e da própria política, tais como os conhecíamos. 

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