A falsa nostalgia da Turquia

Muitos defendem a herança secular, mas se esquecem que país tem histórico de autoritarismo

É HISTORIADOR, PROFESSOR DA , UNIVERSIDADE DO BÓSFORO, EDHEM, ELDEM, THE NEW YORK TIMES, É HISTORIADOR, PROFESSOR DA , UNIVERSIDADE DO BÓSFORO, EDHEM, ELDEM, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h08

Os manifestantes que têm lotado as ruas de Istambul e outras cidades nas últimas três semanas de protestos queixam-se do comportamento autoritário do premiê Recep Tayyip Erdogan e de seu Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), que ameaça sua liberdade. E também se ressentem da tendência do premiê de interferir na vida pessoal do cidadão, condenando o aborto ou controlando a venda e o consumo de álcool.

Erdogan, porém, não é o primeiro líder turco a flertar com o autoritarismo. E é importante lembrar disso, uma vez que muitos de seus oponentes tendem a relembrar um passado nostálgico bem ilustrado pela profusão de bandeiras e imagens do fundador da república, Mustafá Kemal Ataturk.

Antes de afirmar que as medidas adotadas por Erdogan precisam ser refreadas, com um retorno às bases da república secular, precisamos lembrar que a Turquia só se tornou uma democracia em 1950 e foi governada consecutivamente, de 1923 a 1946, por dois líderes incontestáveis, Ataturk e Ismet Inonu, ambos investidos de poderes ditatoriais.

Sua democracia foi "interrompida" três vezes por intervenções ou golpes militares, em 1960, 1971 e 1980, sem mencionar uma frustrada tentativa de golpe em 1997. Além disso, o secularismo turco com frequência marginalizou e oprimiu aqueles que expõem abertamente sua crença. Mulheres com véus na cabeça foram proibidas de frequentar as universidades e poucas proteções foram asseguradas para as minorias religiosas.

O passado da Turquia tem pouco a oferecer em termos de inspiração democrática. Ironicamente, não existe diferença entre a nostalgia do secularismo da era de Ataturk e a glorificação pelo AKP do passado imperial otomano. Tanto a nostalgia do secularismo quanto a glorificação do passado otomano repousam na reinvenção de uma suposta era de ouro - no primeiro caso com uma ênfase secularista e, no último, uma fixação na identidade islâmica. Em ambos os casos, trata-se de reviver regimes autoritários que são os menos confiáveis como modelos políticos para um presente e um futuro democráticos.

O atual movimento de protesto não tem relação com o passado, mas com o hoje e o amanhã. Teve início porque uma nova geração quer defender o Parque Gezi, um espaço público verde, contra a maneira violenta e abusiva com que o governo a pretende sacrificar em honra aos deuses do neoliberalismo e do neo-otomanismo, projetando uma réplica de um quartel otomano, um shopping e apartamentos.

Contragolpe. O verdadeiro desafio para os manifestantes, porém, é garantir que esse movimento não seja sequestrado por um contragolpe "kemalista" que pretende reduzir os complexos problemas sociais da Turquia a uma dicotomia simplista entre islamismo e secularismo. O que Erdogan está destruindo hoje não é a suposta era de ouro de uma Turquia democrática e secular, que, na verdade, jamais existiu, mas sim uma "lua de mel" que acompanhou a primeira vitória eleitoral do AKP em 2001. Durante cinco ou seis anos, seu partido usou a democracia como sua única defesa contra as maneiras autoritárias da velha guarda - a coalizão formada por partidos políticos seculares e o Exército, por muito tempo considerado a salvaguarda do secularismo.

É preocupante o fato de Erdogan, depois de anos combatendo com sucesso o legado do controle militar, ter agora preferido adotar os mesmos métodos e estratégias que caracterizaram seus predecessores. Ao apostar no poder combinado de religião e nacionalismo num país cuja população é conhecida por seu conservadorismo, em ambos os aspectos, o premiê procura fazer com a ajuda da polícia o que governos anteriores fizeram com a ajuda do Exército.

Quando parecia que os manifestantes haviam vencido e forçado o governo a reconhecer sua legitimidade, uma outra repressão brutal da polícia ocorreu no sábado. Para piorar, Erdogan agora vem incitando e mobilizando seus seguidores a entrar num perigoso jogo de intimidação e escalada do conflito. A menos que os moderados em seu partido abandonem a atitude de submissão incondicional ao premiê e o contradigam, a situação pode piorar mais.

A Turquia chegou ao ponto em que o governo, deixando de lado as tímidas tentativas de conciliação, tenta travar uma guerra total contra qualquer oposição. Uma crise que poderia ter sido administrada por meio de um processo democrático piorou e chegou a um nível assustador de polarização e violência.

Os líderes do AKP precisam compreender que a verdadeira democracia secular é o único caminho viável para garantir os direitos e liberdades de todos os cidadãos, incluindo os muçulmanos. E os oponentes de Erdogan precisam entender que o verdadeiro secularismo, contrário à encarnação "kemalista" anterior, exige que os princípios da democracia sejam aplicados a todos os membros da sociedade. Infelizmente, os novos discursos igualitários que surgiram no Parque Gezi poderão ser sufocados pelo clamor de uma luta política obsoleta. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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