A falta do poder brando chinês

Por mais que se esforce, Pequim continua colocando medo em seus vizinhos asiáticos

O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2012 | 03h03

O presidente da China, Hu Jintao, saudou 2012 com um importante ensaio, advertindo que a China está sendo agredida pela cultura ocidental. "Precisamos perceber claramente que forças hostis internacionais estão intensificando a conspiração estratégica de ocidentalização e divisão da China, que os campos ideológico e cultural são as áreas focais de sua infiltração no longo prazo", escreveu Hu, acrescentando que "a cultura internacional do Ocidente é forte enquanto nós somos fracos".

Basicamente, Hu disse que a China está sendo atacada pelo poder brando do Ocidente - a capacidade de produzir resultados mediante persuasão e atração, em vez de coerção ou de pagamento - e precisava revidar. Na última década, o poderio econômico e militar da China cresceu significativamente e isso assustou seus vizinhos, fazendo-os procurar aliados para equilibrar o crescente poder duro de Pequim.

No entanto, se um país puder aumentar também seu poder brando, seus vizinhos sentirão menos necessidade de buscar alianças compensadoras. Por exemplo, Canadá e México não buscam alianças com a China para servir de contrapeso ao poder americano da maneira como os países asiáticos buscam uma presença dos EUA para contrabalançar a China.

Já em 2007, Hu disse ao 17º Congresso do Partido Comunista Chinês que o país precisava investir mais em seus recursos de poder brando. Assim, a China está gastando bilhões de dólares em uma ofensiva de charme.

O estilo chinês enfatiza os gestos grandiosos, como a reconstrução da sede do Parlamento cambojano ou do Ministério das Relações Exteriores de Moçambique. Os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, cuidadosamente organizados, melhoraram a reputação da China e a Expo Xangai 2010 atraiu mais de 70 milhões de visitantes. O Fórum Boao para a Ásia, na ilha de Hainan, atrai quase 2 mil políticos e líderes empresariais da Ásia ao que chamam de "Davos Asiático". E os programas de ajuda chineses à África e à América Latina não são constrangidos pelas preocupações institucionais ou com direitos humanos que limitam a ajuda ocidental.

Poder de atração. A China sempre teve uma cultura tradicional atraente. Agora, ela estabeleceu várias centenas de institutos Confúcio em todo o mundo para ensinar sua língua e sua cultura. A matrícula de estudantes estrangeiros na China aumentou: de 36 mil, há uma década, para 240 mil, em 2010. Enquanto a Voz da América reduzia suas transmissões em chinês, a China Radio International aumentava suas transmissões em inglês para 24 horas por dia.

Em 2009, Pequim anunciou planos para gastar bilhões de dólares para desenvolver gigantes de mídia globais para competir com Bloomberg, Time Warner e Viacom. A China investiu US$ 8,9 bilhões em trabalhos de publicidade externa, incluindo um canal de noticias a cabo Xinhua, 24 horas, para imitar a Al-Jazira.

Pequim também levantou defesas. O país limitou os filmes estrangeiros a apenas 20 por ano, subsidiou companhias chinesas que criam produtos culturais e restringiu os programas de televisão chineses que são imitações de programas de entretenimento ocidentais.

No entanto, apesar de todos seus esforços, a China teve um retorno apenas limitado de seu investimento. Uma recente pesquisa da BBC mostra que as opiniões sobre a influência da China são positivas em boa parte da África e da América Latina, mas predominantemente negativas nos EUA e na Europa, assim como na Índia, no Japão e na Coreia do Sul. Uma sondagem realizada na Ásia após a Olimpíada de Pequim revelou que a ofensiva de charme da China não foi eficaz.

O que a China parece não entender é que usar cultura e narrativa para criar poder brando não é fácil quando elas são inconsistentes com as realidades domésticas. Os Jogos Olímpicos de 2008 foram um sucesso, mas, pouco tempo depois, a repressão doméstica da China a ativistas de direitos humanos, no Tibete e em Xinjiang, solapou seus avanços no poder brando.

A Expo Xangai também alcançou um grande sucesso, mas foi seguida pela prisão do prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo e do artista Ai Weiwei. E, apesar de todos os esforços para transformar a agência Nova China e a Televisão Central da China em concorrentes de CNN e BBC, há pouca audiência internacional para uma propaganda tosca.

Restrições. Agora, na esteira das revoluções no Oriente Médio, a China vem aumentando a repressão na internet e prendendo defensores dos direitos humanos, de novo torpedeando sua campanha de poder brando. Como disse Han Han, um romancista e blogueiro popular, em dezembro, "a restrição às atividades culturais torna impossível a China influenciar a literatura e o cinema numa base global ou nós do meio cultural levantarmos com orgulho nossas cabeças".

O desenvolvimento do poder brando não precisa ser um jogo de soma zero. Todos os países podem ganhar encontrando atrativos nas culturas alheias. Entretanto, para a China obter sucesso, terá de liberar os talentos de sua sociedade civil. Infelizmente, isso não parece perto de ocorrer tão cedo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.