A fantasia dos moderados no Oriente Médio

No contexto da guerra sectária que domina a região, vozes menos extremistas tendem a se radicalizar ou ser eliminadas

Fareed Zakaria/The Washington Post, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2014 | 02h02

Hillary Clinton, enquanto explicava o que é hoje a nova convicção geral em Washington, sugeriu, em sua entrevista a Jeffrey Goldberg da revista The Atlantic, que os "moderados" poderiam ter impedido o surgimento do grupo extremista sunita Estado Islâmico (EI). E de fato, os Estados Unidos forneceram um ajuda vultosa e persistente aos moderados daquela região.

O EI surgiu no Iraque e se expandiu em razão da dinâmica interna do país. Nos últimos dez anos, os EUA ajudaram a organizar os "moderados" do Iraque - o governo dominado pelos xiitas - e deu-lhes dezenas de bilhões de dólares, além de equipar e treinar seu Exército. Mas, no fim, constatou-se que os moderados não eram tão moderados e, à medida que se tornaram autoritários e sectários, os movimentos de oposição sunitas foram crescendo e os grupos de oposição favoráveis à Jihad, como o EI, ganharam um apoio tácito ou ativo. Este processo é conhecido em toda a região.

Durante décadas, a política externa americana no Oriente Médio foi de apoio aos "moderados". O problema é que, na realidade, eles são muito poucos. O mundo árabe vive uma luta sectária encarniçada que está "arrastando o mundo islâmico de volta à idade das trevas", segundo o presidente turco Abdullah Gul. Em tais circunstâncias, os moderados se radicalizam ou são derrotados nas lutas pelo poder. É o caso de Iraque, Síria, Egito, Líbia e territórios palestinos.

Labirinto. O Oriente Médio ficou aprisionado por dezenas de anos entre ditaduras repressivas e grupos de oposição reacionários - de Hosni Mubarak à Al-Qaeda - com pouco espaço entre um e outro. Os ditadores tentam neutralizar todos os movimentos de oposição e os que sobrevivem são vingativos, religiosos e violentos. Houve uma abertura para os moderados depois da Primavera Árabe de 2011 e 2012, mas ela se fechou rapidamente.

No Egito, a Irmandade Muçulmana teve a chance de governar abrindo espaço para todos, mas recusou. Sem esperar uma validação nas urnas, a antiga ditadura do Egito se rebelou, banindo e prendendo os integrantes da Irmandade e outras forças da oposição.

No Bahrein, a antiga classe dirigente segue o exemplo do regime egípcio - enquanto a monarquia saudita financia o retorno à repressão em toda a região. Tudo isto alimenta uma oposição subterrânea e violenta.

"Em razão de uma cultura de impunidade (por parte do governo), surge uma nova cultura da vingança nas ruas", explicou ao Al-Monitor, um site de notícias e análise, Said Yousuf al-Muhafda, diretor de documentação do Centro dos Direitos Humanos do Bahrein.

Nos territórios palestinos, Mahmoud Abbas, que preside a Autoridade Palestina na Cisjordânia, é de fato um moderado. Mas é preciso notar que a AP e o Ocidente continuam adiando as eleições na Cisjordânia ano após ano - porque sabem perfeitamente quem venceria.

Os moderados não toleram viver numa atmosfera de desespero e de guerra. O maior exagero é concluir que os moderados tenham a possibilidade de vencer na Síria.

Talvez seja possível acreditar que os moderados conseguiriam se organizar com sucesso, defender sua posição e ir às urnas. Entretanto, o regime de Bashar Assad apontou suas armas para a oposição desde o começo. Nessas circunstâncias, ganharão o poder os grupos que revidarem com zelo e intensidade. É o caso do novo líder da oposição síria que tem o apoio do Ocidente, Hadi Bahra, que agora pede mais apoio para os moderados como ele.

Empresário de sucesso, homem de grande probidade e sinceridade, ele deixou a Síria em 1983 - há mais de 30 anos! Até que ponto pessoas como ele conseguiriam substituir no campo de batalha os que, neste momento, lutam e morrem?

Quem são essas pessoas? Depois do início da guerra na Síria, a agência Associated Press noticiou que a oposição ao regime de Assad poderia ser caracterizada como "pobre, piedosa e rural". Ao descrever essas pessoas em Alepo, a agência escreveu: "Elas enquadram a luta num contexto religioso e falam de martírio como algo pelo qual anseiam". O acadêmico Joshua Landis, da Universidade de Oklahoma destaca que, das quatro forças rebeldes mais fortes e mais eficientes na Síria, nenhuma defende a democracia.

Num excelente ensaio para o Washington Post, Marc Lynch, professor da Universidade George Washington, cita cuidadosos estudos históricos demonstrando que numa guerra civil violenta e caótica como a da Síria - com muitos contribuintes externos que financiam seus grupos preferidos - a intervenção americana teria um efeito limitado, além de ampliar e exacerbar o conflito.

"Se o plano de armar os rebeldes tivesse sido adotado em 2012", escreve Lynch, "o mais provável é que a guerra continuasse enfurecida e muito semelhante ao que vemos hoje, com a exceção de que os Estados Unidos estariam muito mais envolvidos e mais profundamente".

Afirmar que os moderados na Síria poderão vencer não é uma linguagem diplomática consistente, é uma fantasia ingênua de consequências perigosas". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Fareed Zakaria é colunista.

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