A fantasia retrógrada do califado

Árabes querem, na verdade, paz, estabilidade, dignidade, prosperidade e democracia

O Estado de S.Paulo

06 Julho 2014 | 02h01

O grupo insurgente jihadista Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), ou, como prefere ser chamado agora, Estado Islâmico, parece a caminho de alcançar seu objetivo: a restauração do califado.

Esse conceito, que significa um Estado islâmico presidido por um líder com autoridade política e religiosa, remonta aos diversos impérios muçulmanos que se sucederam após o Profeta Maomé.

O problema quanto a esse novo califado, criado sob a liderança de Abu Bakr al-Bagdadi, líder militante islâmico desde os dias iniciais da ocupação americana do Iraque, é que ele não tem nenhuma relação com a história.

O califado Abássida, por exemplo, que reinou de 750 a 1258, foi um império impressionantemente dinâmico e diversificado. Tendo seu centro em Bagdá, um pouco abaixo da região do Iraque onde o Isil ocupa grandes áreas, o califado Abássida estava séculos à frente dos retrógrados comparsas de Bagdadi.

Durante seu auge, a sociedade abássida floresceu no campo do multiculturalismo, das ciências, educação e cultura, um forte contraste com o violento puritanismo do Isil. Com seu centro no Bayt al-Hikma, a "Casa da Sabedoria" de Bagdá, o califado Abássida foi responsável por avanços notáveis.

Com tal proliferação de intelectuais, o Islã também foi submetido a críticas. O estudioso sírio Abu'l Ala Al-Ma'arri, no século 11, foi um precursor de Richard Dawkins em seus comentários mordazes sobre a religião. "Os livros sagrados são apenas um conjunto de histórias fúteis que qualquer época poderia produzir, e na verdade produziu", declarou.

É essa tolerância com o pensamento livre, sem mencionar a suposta decadência da corte do califa, que leva os radicais islamistas a relembrar uma era anterior, a de Maomé, e seus primeiros "sucessores".

Mas mesmo os primeiros califas Rashidun (os "corretamente guiados") têm pouco a ver com a mitologia jihadista. Maomé, o mais "corretamente guiado", redigiu um documento surpreendentemente secular na Constituição de Medina, onde foi estabelecido que muçulmanos, judeus, cristãos e mesmo pagãos tinham direitos políticos e culturais iguais - diferente da atitude punitiva do Isil.

Como essa falácia ideológica do califado islâmico surgiu? No fim do século 19, os nacionalistas árabes eram grandes admiradores das sociedades ocidentais e insistiam junto a seus camaradas muçulmanos, nas palavras do reformador egípcio Rifa al-Tahtawi, para "compreenderem o que é o mundo moderno". Muitos não só admiravam a Europa e os EUA, mas também acreditavam nas promessas de apoio à sua independência do Império Otomano.

O primeiro confronto com a realidade foi quando Grã-Bretanha e França dividiram o Oriente Médio após a 1.ª Guerra. Após a 2.ª Guerra, os americanos adotaram o mesmo comportamento dos predecessores imperiais. Impediram a criação de governos eleitos diretamente pelo povo e apoiaram uma série de autocratas impopulares.

Houve também um fator interno. O fracasso do pan-arabismo revolucionário em realizar seu sonho utópico de renascença, unidade e liberdade, levou a uma desilusão com a política secular. Ao mesmo tempo, com a corrupção e a subserviência para com o Ocidente por monarcas conservadores de nações ricas em petróleo, muitos árabes reagiram contra o tradicional modelo de submissão do Islã.

Desses fracassos, surgiu um fundamentalismo niilista, que afirmava que a sociedade árabe contemporânea devia retornar ao "Jahiliyyah" (idade da ignorância). A única maneira de corrigir os erros era declarar a jihad não só contra os "infiéis" estrangeiros, mas contra a própria sociedade árabe para criar um Estado islâmico puro - que só existe na imaginação dos extremistas islâmicos modernos.

A destruição em massa da infraestrutura econômica, social e política do Iraque provocada pela invasão americana criou um vazio de poder ocupado por grupos extremistas.

Mas mais do que um califado de líderes arbitrariamente indicados, sujeito a uma rígida interpretação da sharia (lei islâmica), milhões de árabes lutam pela paz, estabilidade, dignidade, prosperidade e democracia. As pessoas ainda abrigam o modesto sonho de um dia ter sua parcela justa de "pão, liberdade e justiça social", slogan da Praça Tahrir, no Cairo. / KHALEB DIAB, DO NEW YORK TIMES

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