EFE/Centro de Informação de Alepo
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A fé de nossos pais

Temendo o extremismo e a falta de integração de muçulmanos, vários governos europeus querem que os imãs das mesquitas do continente sejam formados nas universidades de seus países

The Economist , O Estado de S. Paulo

21 Agosto 2016 | 05h00

Para se ter uma ideia de como os europeus – muçulmanos e não muçulmanos – fazem para aprender sobre o Islã, uma opção é visitar a mesquita Centrum, perto da estação ferroviária de Hamburgo. O prédio, antes ocupado por um balneário público, é um dos 60 locais de oração frequentados pelos 200 mil muçulmanos da cidade. 

As origens dessa comunidade remontam a um movimento islamista chamado Milli Gorus (Visão Nacional), que floresceu entre os turcos alemães antes de ajudar a eleger na Turquia, em 1996, um governo de forte inspiração religiosa – que se manteve no poder por apenas 12 conturbados meses. Durante a semana, a mesquita fervilha com pessoas que buscam consolo espiritual ou material de leitura em alemão, árabe ou turco. Aos sábados, são oferecidas aulas corânicas para crianças.

Centenas de alemães adultos não muçulmanos também frequentam o edifício, que já viu dias melhores: são professores que fazem cursos sobre o Islã. Ozlem Nas, porta-voz da Schura, maior federação de mesquitas de Hamburgo, explica: “Eles não sabem que atitude tomar quando, por exemplo, um aluno sírio acusa um colega checheno de mau muçulmano”.

Para se ter outra imagem de como se dá a aprendizagem islâmica em solo europeu, pode-se circular pelas ruas de Nottingham, na região inglesa das East Midlands. O centro religioso e cultural Karimia reúne religiosidade e erudição. Diariamente, após o horário letivo normal, quase 1,5 mil crianças frequentam seus cursos corânicos. Essas madrassas são respeitadas, mas em outros pontos da Inglaterra há algumas em que o ambiente não é nada amistoso; e o governo britânico se comprometeu a reformar o setor, que até agora funcionava sem nenhuma regulamentação. 

Além de três mesquitas, o Karimia tem uma escola de educação infantil e outra compreendendo as primeiras séries do ensino fundamental, onde, nas palavras do fundador do instituto, Musharraf Hussain, as crianças entram em contato com uma “cultura britânica islâmica”. O uniforme é tradicional (as meninas têm de usar um jilbab, que cobre o corpo inteiro), mas a ênfase recai na preservação de boas relações ecumênicas e na obediência às leis do país. Os eventos da realeza britânica são comemorados com entusiasmo, mas os vínculos humanos com o Paquistão se mantêm, graças à TV por satélite e a cursos online.

Os governos europeus veem com apreensão essa combinação de influências locais e importadas, que se expande em ritmo acelerado. Com tantos professores e clérigos islâmicos cujas raízes e atitudes pouco têm a ver com o etos da Europa Ocidental, as autoridades temem pela coesão social – quando não enxergam aí terreno fértil para o terrorismo, mesmo que a internet provavelmente ajude a criar mais extremistas do que qualquer mesquita ou escola. 

Por isso, querem criar um Islã de traços próprios, que seja menos dependente dos países de origem dos imigrantes e conviva bem com a democracia, além de ter em sua liderança professores e administradores formados em universidades europeias. Por trás desse desejo, há a preocupação com a Arábia Saudita, país de onde saem poucos migrantes e imãs, mas de onde vêm volume substancial de financiamento e obras doutrinárias que refletem o puritanismo da visão salafista do Islã. Às vezes, ainda que nem sempre, esse é um caminho para o extremismo.

Um dos problemas desse objetivo de “europeização” é que ele não conduzirá, necessariamente, a um Islã mais moderado. 

Ao mesmo tempo em que lidam com a questão da educação islâmica, os países europeus se defrontam com suas histórias particulares e as soluções que cada um deles deu para a relação do Estado com o cristianismo e o judaísmo. A Bélgica, por exemplo, surgiu como um reino católico; o Estado belga subsidia o culto e o ensino dessas religiões. Agora o Islã também se beneficia disso: mais de metade dos imãs é remunerada pelo governo. Nas escolas públicas de Bruxelas, a maioria das crianças estuda a religião de suas famílias; metade opta por aulas de Islã. 

Na Holanda, a educação religiosa é moldada por um antigo pacto entre protestantes e católicos, que permite a pequenos grupos criar escolas confessionais. Isso facilitou a criação de mais de 40 escolas muçulmanas de ensino fundamental do primeiro ciclo. A procura é grande, diz Haci Karacaer, veterano do movimento Milli Gorus que administra uma dessas instituições. O problema é a dificuldade em encontrar professores muçulmanos capazes de dar aulas em holandês. Também são poucos os imãs que pregam em holandês. A pressão do governo pelo uso da língua oficial tem sido contraprodutiva, lamenta Karacaer. Isso indica uma preocupante desarticulação entre governo, academia, clérigos e jovens cuja língua é o holandês.

No outro extremo está a França, onde o regime laico instituído em 1905 exclui a religião da educação pública. Mas, no mês passado, depois do assassinato de um padre católico, o premiê Manuel Valls propôs algumas mudanças. A França, escreveu ele, precisa se tornar um centro de excelência em teologia islâmica; e é fundamental achar maneiras de substituir o financiamento externo às mesquitas por fontes nacionais.

Em razão do regime laico, as universidades públicas não podem ter faculdades de teologia em sua estrutura, ainda que possam oferecer cursos sobre cultura árabe ou sociologia da religião, por exemplo. É o que fazem as universidades de Paris e Aix-en Provence. E, em Estrasburgo (em que não vigora o regime laico, pois a cidade não fazia parte da França em 1905), a teologia não foi banida da academia. Havendo vontade de conferir ao Islã um lugar prestigioso no ensino superior francês, as coisas certamente poderão se ajeitar.

Mas isso não solucionará os problemas enfrentados por muitas comunidades muçulmanas que vivem em condições financeiras precárias e não dispõem de recursos para remunerar seus imãs, quanto mais pagar o salário de um clérigo com diploma universitário. Suas mesquitas precisam de soluções práticas, que vêm sob a forma de financiamento externo ou de clérigos pouco sofisticados, provenientes de seus países de origem e se contentam com remunerações modestas.

 

Ao menos 70% dos mais de 2 mil imãs em atividade na França são estrangeiros. Cerca de dois terços deles não recebem salários regulares. Do restante, 150 são remunerados pelo governo turco, 120 pelo argelino e 30 pelo marroquino. A França ampliou a cooperação com esses países. Imãs formados na França agora vão para o Marrocos frequentar um novo seminário islâmico. Um acordo recente determina que os imãs argelinos que pretendem atuar na França realizarão estudos nos dois países.

Na Alemanha, a principal fonte de imãs é a Turquia, cujo governo remunera 1 mil clérigos muçulmanos que desenvolvem atividades em um terço das mesquitas do país. Graças a um acordo firmado entre o governo alemão e o Ditib, braço externo do departamento de assuntos religiosos do governo turco, seus vistos lhes garantem cinco anos de permanência. Mas parte dos muçulmanos alemães, alguns dos quais de origem turca, defendem o rompimento com o Ditib, acusando o órgão de ser um instrumento de Recep Tayyp Erdogan, o presidente da Turquia. Desde a tentativa fracassada de golpe do mês passado, o Ditib tem feito eco às acusações de Erdogan, que atribui o golpe a uma iniciativa de Fethullah Gulen, um clérigo que vive nos EUA. Uma série de escolas, centros culturais e jornais ligados a Gulen dizem se sentir ameaçados pelo Ditib.

Em nenhum momento a política alemã do pós-guerra imaginou que teria de acomodar o Islã em sua estrutura. Agora os Estados alemães, que são os responsáveis pela educação, tentam encaixar o Islã no sistema. As estratégias variam. Em Berlim, não há ensino regular de religião nas escolas, mas, depois de entrar na Justiça, um grupo próximo ao Milli Gorus conquistou o direito de oferecer educação islâmica quando os pais assim quiserem. 

Nas últimas semanas, vários outros Estados puseram o Ditib na geladeira. Três deles reduziram a colaboração com o órgão. A reação corre o risco de criar um vácuo, diz Jonathan Laurence, acadêmico americano especializado no Islã europeu. Em sua opinião, as autoridades deveriam pressionar o escritório alemão do Ditib a afrouxar seus laços com Ancara.

A partida do Ditib deixaria um vazio. O órgão apoia outro projeto alemão: fomentar a teologia islâmica no ensino superior. Será que a Alemanha conseguirá colher a desejada safra de acadêmicos islâmicos formados internamente? Mohamed Taha Sabri, um imã nascido na Tunísia que atua em Berlim, diz que as comunidades muçulmanas talvez não aceitem pessoas que estudaram o Islã em lugares liberais, sob a orientação de não muçulmanos. 

Imaginar as grandes universidades europeias, algumas delas surgidas como seminários cristãos, ajudando a destilar e a domesticar o Islã tem seu apelo. Mas será um processo lento, e no dia a dia as coisas andam rápido. Cursos intensivos de treinamento para qualquer indivíduo que lide com crianças, assim como o monitoramento de professores e clérigos estrangeiros, talvez constituíssem um enfoque mais apropriado. As autoridades europeias não têm como controlar a fé, mas podem regulamentá-la melhor. /TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM. 

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