Chris Jackson/Pool via AP
Chris Jackson/Pool via AP

A festa realmente acabou para Boris Johnson?

Premiê britânico enfrentou um dos mais duros interrogatórios do Parlamento esta semana

Adam Taylor, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2022 | 15h00

LONDRES - Quando Boris Johnson era menino, ele disse certa vez que queria ser rei do mundo. Evidentemente, isso não faz sentido, então ele teve de se contentar com o cargo de primeiro-ministro britânico. E se os atuais escândalos se desenvolverem da maneira que muitos de seus críticos agora acreditam, seu mandato não durará uma vida, mas apenas três anos. 

Johnson enfrentou um dos mais duros interrogatórios do Parlamento britânico esta semana, desculpou-se e tentou explicar de maneira satisfatória seu comportamento recente. Como noticiaram William Booth e Karla Adam, do Post de Londres, ele o fez “em meio a berros da oposição chamando-o de mentiroso e pedindo sua renúncia”. Keir Starmer, principal rival de Johnson e líder do Partido Trabalhista, perguntou “se ele finalmente fará a coisa correta e renunciará?”.

O preocupante neste momento para o primeiro-ministro é que os pedidos para que ele deixe o cargo não se restringem aos seus oponentes. Alguns parlamentares conservadores estão verbalizando abertamente seu desgosto, enquanto Douglas Ross, líder do partido na Escócia, afirmou, na quarta-feira, que é hora de ele entregar o cargo. “Eu não queria estar na posição dele, mas minha posição neste momento é que não acho que ele possa continuar líder dos conservadores”, afirmou Ross em entrevista a meios de comunicação britânicos. 

Não está claro se os dias de Johnson no número 10 da Downing Street acabaram, evidentemente. Conhecido anteriormente por sua exuberante vida privada e aparições autodepreciativas em talk shows, Johnson foi consistentemente subestimado por toda sua carreira política. De um jornalista que quebrava as regras, ele abriu caminho para tornar-se o prefeito conservador da liberal metrópole londrina e virar o primeiro-ministro defensor do Brexit que venceu eleições de lavada em 2019.   

“Boris Johnson sabe exatamente o que está fazendo”, afirmou o título de um artigo da Atlantic publicado apenas um ano e meio atrás. 

Mas a atual situação levanta uma questão: Será que ele sabe mesmo? Nos meses finais de 2021, em meio à luta para livrar o Reino Unido de uma pandemia que testemunhou erros que custaram milhares de vidas, Johnson se viu submerso em escândalo atrás de escândalo. Houve o colega forçado a deixar o cargo por “desonestidade”, uma reforma financiada por doadores na residência do primeiro-ministro e alegações de que ele autorizou auxílio do governo para retirar de avião aproximadamente 200 cães e gatos do Afeganistão.  

Contudo, o maior problema parece ser as festas — o que é irônico para um líder conhecido por sua joie de vivre. Esta semana, um e-mail vazado revelou detalhes a respeito do comparecimento de Johnson a uma festa de jardim no estilo “traga sua própria bebida” organizada no número 10 da Downing Street, em 20 de maio de 2020. Foi pelo menos a terceira vez — apesar de alguns meios de comunicação noticiarem um número maior — que o governo britânico foi flagrado quebrando suas próprias regras de distanciamento social. 

Enquanto muita gente enfrentava grandes agruras no Reino Unido em meio à pandemia de coronavírus, festas do governo tornaram-se um foco de concentração de ultraje. No momento em que aconteceu a festa de 20 de maio, os britânicos tinham permissão para encontrar-se com apenas uma pessoa com a qual não compartilhasse residência por vez — e fazer isso isso em lugares públicos e sob restrições. 

No mesmo dia que Johnson compareceu à festa de jardim, outras pessoas tiveram de permanecer distantes de pessoas amadas. Para alguns, os momentos perdidos foram trágicos. Naquela mesma noite, Donna Speed encontrou sua mãe morta, sozinha em casa, contou ela à minha colega Jennifer Hassan esta semana, em um depoimento emocionado. “Ela não tinha atendido nossos telefonemas”, disse Speed ao Post. “Achei que pudesse estar dormindo.” 

No mês passado, Johnson desviou da culpa pelas festas, e um assessor que fez piada a respeito de uma festa de Natal diferente em Downing Street acabou se demitindo, em vez disso. Mesmo agora, ele está se esquivando e cambaleando, disse ao Parlamento na quarta-feira que permaneceu na festa de jardim em 20 de maio “apenas 25 minutos”, para agradecer a equipe. “Acreditei implicitamente que se tratava de um evento de trabalho”, afirmou ele. 

O veredicto de grande parte do público britânico — assim como de diversos parlamentares conservadores — é que isso não é verdade.  E, de maneira crucial, Johnson enfrentou uma crítica ressequida de alguns de seus mais entusiasmados apoiadores na imprensa britânica de direita. Até mesmo o Telegraph — o jornal britânico que não apenas deu emprego a Johnson mas também dialoga com grande parte de seu público-alvo — esquentou a chapa. 

Johnson é agora alvo de disparos de todos os lados. Sue Gray, uma alta funcionária do serviço público britânico, está investigando as festas no número 10 da Downing Street. Se for constatado que Johnson mentiu para o Parlamento sobre quebrar as regras, isso poderá representar uma violação ao código ministerial britânico — um delito capaz de tirá-lo do cargo. Pressionado por Starmer na quarta-feira se irá renunciar caso seja constatado que ele violou o código, Johnson afirmou que “certamente responderei de acordo”. 

Mesmo se Johnson sobreviver a isso, o Reino Unido tem eleições locais marcadas para maio. Apesar de o carisma de Johnson levá-lo há muito tempo a transitar entre escândalos e vitórias eleitorais, em dezembro os conservadores perderam eleições para um assento anteriormente garantido. Pesquisas nacionais mostram que a confiança em Johnson baixou acentuadamente desde o último verão, e colocam o Partido Trabalhista vários pontos à frente dos conservadores em pesquisas de intenção de voto.

Mujtaba Rahman, diretor-gerente do Eurasia Group na Europa e minucioso observador da política britânica, afirmou no Twitter suspeitar que Johnson poderá ser substituído após essas eleições. “Não há mais conserto para Johnson, mas é melhor que ele absorva as críticas sobre” preocupações com a economia e resultados de eleições, acrescentou Rahman. De acordo com uma pesquisa YouGov, quase a metade dos membros do Partido Conservador pensa que o chanceler Rishi Sunak seria um líder melhor do que Johnson — um elemento-chave anteriormente à eleição geral de 2024. 

Tudo isso faz bastante sentido, é claro. Mas até agora, muito pouco na carreira política de Johnson tem sido guiado pelo bom senso ou feito algum sentido — e pode ser cedo demais para descartá-lo do jogo. /TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.