Imagem Mac Margolis
Colunista
Mac Margolis
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A filha de Chávez

A diplomacia não é para principiantes. É de praxe que as nações escalem seus mais ilustres quadros para as representações além-fronteiras, onde uma só voz fala por milhões. A América Latina já teve seus gigantes, como o brasileiro Ruy Barbosa, a "Águia de Haia", e o laureado poeta chileno Pablo Neruda. Não é diferente na Venezuela, que enviou às Nações Unidas Andrés Aguilar, que chegou à Corte Internacional de Justiça, em Haia.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h03

O que dizer então de María Gabriela Chávez? Até bem pouco tempo, ela tinha fama apenas por ser a filha preferida do ex-presidente Hugo Chávez, com uma queda por mordomias e uma tendência a se envolver em encrencas. Na semana passada, no entanto, o presidente Nicolás Maduro indicou-a para o cargo de embaixadora assistente na ONU. Foi um espanto, até para os padrões venezuelanos, uma nação que já não se espanta com mais nada.

Recentemente, um ano e meio depois da morte do pai, a filha de Chávez, de 33 anos, aceitou desocupar a residência oficial da presidência. Enquanto María Gabriela e sua irmã, Rosa, flanavam pelos aposentos luxuosos de La Casona, como se fosse sua herança, o presidente Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, refugiam-se em La Viñeta, moradia destinada ao vice-presidente e chefes de Estados visitantes.

Vá que ela se afeiçoa aos caprichos do pai, que, divorciado, passou a circular pelo país e mundo afora com María Gabriela a tiracolo, um hábito que lhe mereceu a fama de primeira-dama de facto.

Os venezuelanos a conhecem por outro honorífico: a "Rainha do Arroz". Batizaram-na assim após seu envolvimento, no início do ano, na barroca compra de trigo e arroz da Argentina, supostamente superfaturadas em mais de 30% acima do preço de mercado.

Com esse currículo, o que explicaria seu súbito upgrade? De preparo formal, a jovem Chávez carece. Ostenta, porém, o DNA paterno, o inventor do socialismo do século 21 e, por isso, um telefone vermelho para Havana.

Ganhou a confiança cubana em diversas viagens, quando o pai batalhava contra o câncer em um hospital da ilha. E já que a cúpula bolivariana se confunde com o comando cubano, María Gabriela, hoje, tem passe livre na Pérola das Antilhas, com passagem agora garantida para Nova York.

O que o regime castrista imagina ganhar com a presença da infanta diplomata, como é chamada pela imprensa venezuelana, no vetusto condomínio das nações, não se sabe. Diego Arria, que representou a Venezuela na ONU, lembra que Caracas pleiteia um assento rotativo no mais importante organismo da ONU, o Conselho de Segurança. A decisão será em outubro e, se a Venezuela entrar, e se o embaixador titular estiver ausente, quem falará pelo país é María Gabriela.

De acordo com Maduro, a missão da embaixadora é clara. "Que os povos da África, da Ásia, do Oriente Médio, da nossa América e do resto do mundo continuem a ouvir a voz solidária do comandante Chávez", disse o presidente.

Na ausência do comandante, entra a voz de Havana. No entanto, mesmo que os roteiristas cubanos passem a teleguiá-la, com discursos encomendados a dedo e ponto no ouvido, convém especular sobre o que será quando chegar a vez da embaixadora no microfone. Haja diplomacia.

É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO

PORTAL DE NOTÍCIAS 'VOCATIV'

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.