A flor da primavera latina

Como revolucionária, Camila Vallejo decepciona. Com olhos verdes, um piercing no nariz e 220 mil amigos no Facebook, a universitária chilena está mais para vedete do que para as barricadas. Mas é justamente essa líder estudantil de 23 anos a personagem mais célebre do movimento político que revirou o Chile e colocou à prova o governo do presidente Sebastián Piñera.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

A flor da primavera latina, a bela e a fera. Não faltam metáforas para descrever a militante do Partido Comunista e sua cruzada para mudar o sistema educacional do Chile. Antes, ninguém sabia quem era a aluna de geografia da Universidade do Chile. Hoje, ela é ídolo nacional.

Os protestos que liderou provocaram uma crise no comando da policia chilena, em apuros após a morte de um manifestante e a demissão de uma secretária do Ministério da Cultura, cujo desabafo infeliz soou como uma ameaça: "Mata-se a cadela e acaba-se a ninhada." Ela também forçou o governo a reescrever seu plano para reforma do ensino.

Quando sai às ruas, como fez em Brasília esta semana, se vê cercada de tietes, paparazzi, pedidos de autógrafos, uma penca de jornalistas e políticos. Difícil não se empolgar com a energia do movimento que lidera.

No seu grito de luta, porém, há exageros que descaracterizam a política chilena e mesclam a justificada reivindicação para reformas educacionais com flâmulas partidárias e desvios ideológicos.

Por mais importante que seja, a estação de protestos chilena não é a primavera árabe. Enquanto os dissidentes de Líbia e Síria arriscam a vida para derrubar ditaduras sanguinárias, os estudantes estão nas ruas por causa da democracia. São filhos de primaveras passadas, herdeiros da estabilidade e prosperidade construída ao longo das últimas décadas.

Camila tem toda a razão em reclamar das distorções do sistema educacional. Nos anos 70, o Chile tinha poucas universidades públicas e muitas privadas, todas dependentes de recursos públicos. O diploma era para poucos.

O governo Pinochet cortou subsídios e incentivou empresas privadas a investir em faculdades. Em duas décadas, o número de alunos nas universidades passou de 200 mil para 1,2 milhão. As dívidas dos alunos também aumentaram.

Pressionado, Piñera cedeu, propondo abaixar os juros para alunos, aumentar as bolsas de estudo e injetar mais US$ 4 bilhões no ensino. Os estudantes, porém, não querem ajustes. Querem a mudança do "modelo": o ensino gratuito e "para todos."

Para Camila, a educação não se vende, é um bem público e deve ser pago pelo Estado, sem atravessadores ou lucros. A batalha do ensino tornou-se uma aula de ideologia caduca. A bandeira da estatização já empolgou mais. Na última eleição, os radicais tiveram menos de 7% dos votos.

O levante estudantil atrai apoios de grupos que querem ganhar no tapetão o que não conseguem conquistar pelo voto. Confundir Piñera com Pinochet e bradar contra a "educação da ditadura" pode soar bem nos protestos, mas desfoca a pauta da educação de qualidade. Pode ser que os ânimos chilenos esfriem, mas, sem equilíbrio, a primavera chilena também arrepia.

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.