A força da juventude

A rua egípcia gritou sua cólera contra Hosni Mubarak, na saída da oração semanal nas mesquitas. Será o caso de ver isso como um eco, uma resposta à queda de outro tirano na vizinha Tunísia? Ou, ao contrário, deve-se avaliar que a violência no Cairo é específica do Egito? A relação com os tumultos na Tunísia são os próprios egípcios que proclamam. Os jovens do Cairo retomaram o slogan lacônico que os tunisianos gritaram para expulsar Ben Ali: "Fora!" Tanto no Cairo quanto na Tunísia, as ações são conduzidas por jovens e o fundamentalismo islâmico se mantém discreto. Enfim, tanto num lugar quanto no outro são pessoas não famintas, mas em risco de se tornar, e muito pobres que fazem soar o sino de finados dos tiranos.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Mas as diferenças são numerosas. A Tunísia pretendia-se moderna, tolerante e laica. O ditador Ben Ali não conseguiu destruir essa base. A Tunísia ignora a "sharia", a terrível justiça islâmica. A educação é notável e os jovens tunisianos são muito cultos. Enfim, a economia, embora continue pobre, é séria, bem orientada e não lembra em nada o caos monumental que é a economia egípcia. Outra diferença: a segurança. Nos dois casos, ela é opressiva. Mas, na Tunísia, ela estava nas mãos da polícia, não do Exército. E no Egito? Há a polícia, que conta 1,3 milhão de homens, pobres, analfabetos. O Exército, que é devotado a seu presidente, bem formado, tem 500 mil soldados.

Na Tunísia, são os jovens universitários desempregados que estão na origem dos tumultos. No Egito, quase não se veem estudantes. Eles estão lá, mas na espera. A rua do Cairo está entregue aos pobres, aos proletários. Por quê? A verdadeira razão é que as universidades egípcias são o reservatório do islamismo radical. O objetivo era, portanto, sair do confronto deletério: poder contra fundamentalismo islâmico. E fazer do movimento uma força bruta e revolucionária.

Toca-se aí num ponto essencial: o papel e o lugar do fundamentalismo islâmico nesses tumultos. Não esqueçamos que se o Ocidente sustentou por tanto tempo o tunisiano Ben Ali, foi justamente por causa do fundamentalismo islâmico.

Hoje, na Tunísia, talvez amanhã no Egito, a grande questão é justamente esta: ninguém duvida que os primeiros meses de um governo democrático serão dolorosos. Os tunisianos vão descobrir que os democratas não podem fazer milagres. É nesse período de instabilidade que os fundamentalistas islâmicos podem confiscar o destino da Tunísia.

Esses perigos não são fatais, mas também não são imaginários. Mesmo na Tunísia tão laica, tão inteligente, notam-se derivas obscuras. Há alguns meses, viu-se multiplicar o número de mulheres veladas nesse país modelo de emancipação feminina. O Egito também tem seus fundamentalistas islâmicos. Não esqueçamos que o detonador do fundamentalismo islâmico mundial encontra-se na figura da Irmandade Muçulmana.

Sobre esse ponto ainda, o Ocidente está condenado à sutileza: como encorajar os levantes pela liberdade sem abrir caminho para o fundamentalismo islâmico? O problema é que nesses assuntos, desde George W. Bush, o Ocidente raramente deu provas de sutileza. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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