A força de trabalho ociosa nos EUA

O país tem de trazer de volta ao mercado e usar os dons desse um quinto de pessoas que estão na lista de incapazes

David Brooks, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2011 | 00h00

Em 1910, Henry Van Dyke escreveu um livro chamado The Spirit of America que abre com esta frase: "O espírito da América é mais bem conhecido na Europa por uma de suas qualidades - energia." Isso sempre foi verdade. Os americanos têm se destacado por seu indestrutível dinamismo. Alguns condenaram essa ambição como uma busca desprezível por dinheiro, Outros a viam em termos mais amenos. Mas a energia sempre foi a característica salvadora dos EUA.

Por isso, os americanos deveriam ficar especialmente alertas aos sinais de que o país está se tornando menos vital e industrioso. Um desses sinais nos chegou do mercado de trabalho. Como assinalou recentemente meu colega David Leonhardt, em 1954 cerca de 96% dos homens americanos entre 25 e 54 anos trabalhavam. Hoje, essa proporção gira em torno de 80%. Um quinto de todos os homens em idade de trabalhar não está trabalhando.

Segundo números da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE), os Estados Unidos têm uma participação menor da população em idade de trabalhar na força de trabalho do que qualquer outro país do G-7. O número de americanos nas listas de incapacidade permanente tem crescido sistematicamente. Dez anos atrás, 5 milhões de americanos recebiam pensão federal por incapacidade. Agora já são 8,2 milhões. Isso custa US$ 115 bilhões anuais aos contribuintes, ou cerca de US$ 1.500 por família. Os estatísticos do governo preveem que o fundo mútuo que paga esses benefícios ficará sem caixa dentro de sete anos.

Parte do problema tem a ver com o capital humano. Mais homens americanos não têm as habilidades emocionais e profissionais que precisariam ter para contribuir.

Segundo dados do Departamento de Estatísticas do Trabalho, 35% dos trabalhadores sem diploma de segundo grau estão fora da força de trabalho, ante menos de 10% dos que possuem um diploma universitário.

Parte do problema tem a ver com mudanças estruturais na economia.

Setores como governo, saúde e lazer têm crescido, criando empregos para os que saem da universidade. Setores como produção manufatureira, agricultura e energia estão ficando mais produtivos, mas não têm criado mais empregos. Em vez disso, as companhias estão usando máquinas ou trabalhadores estrangeiros.

Estrutura. O resultado é o seguinte: há provavelmente mais homens ociosos agora do que em qualquer outro período desde a Grande Depressão, e desta vez o problema é sobretudo estrutural, e não cíclico. Esses homens terão dificuldade de atrair cônjuges. Muitos adquirirão hábitos que têm uma influência cultural corrosiva nos que os cercam. O país não se beneficiará de suas capacidades potenciais.

Esse é um grande problema. Ele não pode ser enfrentado pelo tipo de estímulo keynesiano de curto prazo com que ainda sonham alguns da esquerda. Ele não pode ser resolvido pela simples redução do tamanho do governo, como alguns da direita imaginam.

Ele provavelmente requererá um amplo menu de políticas atacando o problema de uma vez por todas: expandir as faculdades comunitárias e o aprendizado online; mudar o código fiscal corporativo e as regras do mercado de trabalho para estimular o investimento; adotar práticas de mercado de trabalho ao estilo alemão como programas de aprendizado, subsídios salariais e programas que concedem benefícios aos desempregados por seis meses quando eles começam pequenas empresas.

Revigorar esse um quinto ausente - trazê-lo de volta ao mercado de trabalho e usar suas capacidades - certamente requererá dinheiro. Se os EUA fossem um país pequeno, estaríamos debatendo como desviar dinheiro de programas que proporcionam conforto para programas que incentivam o revigoramento.

Mas, é claro, não é isso que está havendo. Os gastos discricionários, que poderiam ser usados para incentivar o dinamismo, estão diminuindo.

Os gastos com assistência médica, que proporcionam conforto principalmente a pessoas que já passaram da idade economicamente ativa, estão aumentando. As tentativas de desviar dinheiro da saúde para outros usos estão sendo esmagadas.

Saúde. Há basicamente duas maneiras de cortar os gastos públicos com saúde.

No topo, um corpo de especialistas pode ser encarregado de tomar decisões de racionamento. Essa abordagem é defendida pelo presidente Barack Obama e está em uso em muitos países do mundo. Ou, na base, os custos podem ser desviados para beneficiários de auxílio para pagar prêmios de seguro para ajudá-los a arcar com o ônus. Versões diferentes dessa abordagem estão embutidas no sistema holandês, no benefício de remédios controlados e no orçamento do representante Paul Ryan.

Provavelmente precisaremos de uma combinação dessas abordagens para ver qual funciona. Mas os republicanos condenam o modelo tecnocrático de racionamento como "conselhos da morte". Os democratas enveredaram por uma jogada demagógica chamando as ideias de "ajuda ao pagamento de prêmios" de "privatização" ou "o fim do Medicare".

Sejamos claros sobre o efeito dessa falsidade: estamos encerrando a saúde do país no programa Medicare e fechando qualquer possibilidade de podermos fazer alguma coisa significativa para revigorar o quinto ausente.

Da próxima vez que o leitor vir um político defendendo demagogicamente o Medicare, pergunte o seguinte: deveríamos estar usando nossos recursos à maneira de um país em declínio ou de um ainda comprometido em estimular a energia de seu povo e continuar sua ascensão? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

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