A força dos EUA e os imigrantes

Americanos precisam de mais gente de fora para manter diversificação e continuar sendo a maior potência do mundo

É PROFESSOR DE HARVARD, AUTOR DO , LIVRO THE FUTURE OF POWER, JOSEPH, NYE, PROJECT SYNDICATE, É PROFESSOR DE HARVARD, AUTOR DO , LIVRO THE FUTURE OF POWER, JOSEPH, NYE, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 02h02

Os EUA são um país de imigrantes. Exceto por um pequeno número de americanos nativos, todos vêm de fora e, mesmo imigrantes recentes, podem obter papéis econômicos e políticos dominantes. Nos últimos anos, porém, a política americana adquiriu um forte viés anti-imigrante e a questão teve um importante papel na luta pela indicação presidencial do Partido Republicano em 2012. No entanto, a reeleição de Barack Obama demonstrou o poder dos latinos, que rejeitaram o candidato republicano Mitt Romney numa proporção de 3 para 1, como fizeram também os americanos de origem asiática.

Por isso, vários republicanos proeminentes agora pressionam seu partido para reconsiderar suas políticas de intolerância aos imigrantes e os planos para uma reforma da imigração estarão na agenda no segundo mandato de Obama. O sucesso dessa reforma será um passo importante para evitar o declínio do poder americano.

Os temores sobre o impacto da imigração nos valores nacionais e sobre um sentido coerente de identidade americana não são novos. O movimento "Know Nothing", no século 19, foi construído em oposição à imigração, particularmente de irlandeses. Os chineses foram excluídos a partir de 1882 e, com leis mais restritivas, após 1924, a imigração se desacelerou nas décadas seguintes.

Durante o século 20, os EUA registraram a mais alta porcentagem de moradores nascidos no exterior em 1910 (14,7%). Um século depois, segundo o censo de 2012, 13% da população americana nasceu no exterior. Mas, apesar de ser uma nação de imigrantes, há mais americanos céticos com respeito à imigração do que simpáticos a ela. Várias sondagens mostram uma pluralidade ou uma maioria favorável ao corte da imigração. A recessão exacerbou essas opiniões: em 2009, metade dos americano defendia reduzir o número de imigrantes.

Tanto o número de imigrantes como sua origem causaram preocupações sobre os efeitos da imigração na cultura americana. Os demógrafos retratam um país, em 2050, em que os brancos não hispânicos serão maioria estreita. Os hispânicos formarão 25% da população e negros e asiático serão, respectivamente, 14% e 8%.

As comunicações de massa e as forças do mercado, porém, dão incentivos poderosos para o domínio do idioma inglês e para a aceitação de um certo grau de assimilação. A mídia moderna ajuda os novos imigrantes a aprenderem mais sobre seu novo país do que os imigrantes de um século atrás. Aliás, a maioria das evidências sugere que os imigrantes mais recentes assimilam pelo menos tão rapidamente quanto seus antecessores.

Apesar de uma taxa de imigração excessivamente rápida poder causar problemas sociais, no longo prazo, a imigração fortalece o poder americano.

Estima-se que pelo menos 82 países e territórios tenham hoje taxas de fertilidade abaixo do nível necessário para manter sua população constante. Apesar de a maioria dos países desenvolvidos estar fadada a experimentar uma escassez de pessoas à medida que o século avança, os EUA são um dos poucos que podem evitar o declínio demográfico e manter sua proporção da população mundial.

Por exemplo, para manter o tamanho atual de sua população, o Japão teria de aceitar 350 mil imigrantes anualmente nos próximos 50 anos, o que é difícil para uma cultura que tem sido historicamente hostil à imigração. Em contraste, o Escritório do Censo dos EUA projeta que a população americana crescerá 49% nas próximas quatro décadas.

Hoje, os EUA são o terceiro país mais populoso do mundo. Dentro de 50 anos, será o terceiro (depois de China e Índia). Isso é relevante para o poder econômico: enquanto quase todos os outros países desenvolvidos enfrentarão o ônus crescente de prover a geração mais velha, a imigração poderá ajudar a atenuar o problema nos EUA.

Além disso, embora estudos sugiram que os benefícios de curto prazo da imigração são relativamente pequenos, que os trabalhadores não especializados poderão sofrer com a concorrência, os imigrantes habilidosos podem ser importantes para determinados setores - há uma forte correlação entre o número de vistos para solicitantes talentosos e patentes depositadas nos EUA. No início do século 21, engenheiros de origem chinesa e indiana tocavam um quarto das empresas de tecnologia do Vale do Silício, que somaram vendas de US$ 17,8 bilhões. Em 2005, imigrantes haviam ajudado a começar um quarto de todas as novas empresas de tecnologia americanas na década anterior.

Imigrantes e filhos de imigrantes fundaram aproximadamente 40% das empresas integrantes da lista de 500 maiores empresas da revista Fortune de 2010. Igualmente importantes são os benefícios da imigração para o poder brando dos EUA. O fato de que pessoas querem vir para o país fortalece seu apelo. A mobilidade social do imigrante é um fator de atração para pessoas de outros países.

Os EUA são um ímã e muitas pessoas se imaginam americanas, em parte, porque muitos americanos bem-sucedidos se parecem com elas. Além disso, a conexão entre imigrantes e suas famílias e amigos em seus países de origem ajuda a transmitir informações precisas e positivas sobre os EUA.

Da mesma forma que a presença de muitas culturas cria vias de conexão com outros países, ela ajuda a ampliar atitudes e visões americanas com relação ao mundo numa era de globalização. Em vez de diluir os poderes duro e brando, a imigração fortalece ambos.

Lee Kwan Yew, ex-dirigente de Cingapura, argumenta que a China não superará os EUA como potência dominante do século 21 precisamente porque os americanos atraem os melhores e mais brilhantes do restante do mundo e os integra numa cultura de criatividade diversificada. A China tem uma população maior para ser recrutada, mas sua cultura autocentrada a tornará menos criativa do que os EUA. Essa é uma opinião que os americanos deveriam considerar, Se Obama conseguir aprovar a reforma da imigração, terá dado um grande passo para cumprir sua promessa de manter a força dos EUA. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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