A frágil revolução venezuelana

Modelo estatal com base no petróleo é caro para ser mantido; queda na produção deixou governo sem caixa

Juan Nagel / Foreign Policy - O Estado de S. Paulo,

22 de janeiro de 2014 | 23h41

No início de dezembro, os venezuelanos foram às urnas para eleger prefeitos e vereadores. Após uma disputada eleição presidencial e meses de dificuldades econômicas, muitos previam que a oposição conquistaria o voto popular. Mas foram as forças do governo que venceram, consolidando o poder do presidente Nicolás Maduro.

Mas se o domínio de Maduro é sólido, por que a agência de classificação de crédito Moody's está rebaixando os bônus da Venezuela?

A resposta é simples: o regime de Maduro, como vidro, parece sólido, mas também é quebradiço e cada vez mais vulnerável aos prováveis choques em razão da situação política complicada e de uma economia enfraquecida.

A verdade sobre a Venezuela é que ela continua sendo um país muito dividido. Os eleitores de classe média, que moram nas cidades, aparentemente decidiram abandonar a revolução, mas eleitores mais pobres, que moram no campo, mantêm uma firme lealdade ao chavismo.

Quando Hugo Chávez morreu, em março, as multidões em seu funeral foram algo inédito no país. Após essa exibição maciça e indescritível de emoção, as pessoas achavam que Maduro conseguiria uma vitória esmagadora. Mas não foi o que aconteceu e ele derrotou seu adversário, Henrique Capriles, por apenas 1,2 ponto porcentual - e as coisas não melhoraram para Maduro nos meses seguintes.

A vulnerabilidade da economia venezuelana não é acidental. É uma característica do modelo econômico petro-estatal de Chávez. Na essência, o aumento nos preços das commodities foi usado para criar um sistema de subsídios, controles de preços e outras distorções que é caro para ser mantido.

O paradoxo do chavismo é que ele prega comunismo e consumo ao mesmo tempo. O problema dessa abordagem é que ela requer muito financiamento. Se os preços do petróleo aumentarem, a Venezuela poderá continuar neste rumo. Mas se os preços estagnarem ou caírem, decisões duras serão inevitáveis.

Uma revolução em que os principais atores retêm todas as cartas, mas necessitam de financiamento estrangeiro, em que a economia e a viabilidade do sistema político dependem do preço volátil de uma única commodity, não é uma aposta segura. Os mercados sabem disto. Eles sabem que se os preços do petróleo sofrerem uma queda prolongada, as apostas na estabilidade da Venezuela darão prejuízo. Em suma, a revolução de vidro da Venezuela é mais vulnerável do que parece.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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