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A França dos falcões

PARIS - Será que os americanos enlouqueceram? O que houve com eles? Agora, eles elogiam a França, sua prudência política e diplomática, enquanto, em geral, Paris desaba sob os sarcasmos e o menosprezo de todos os EUA. Esse amor louco e tardio dos americanos pelos franceses explica-se pelo que acaba de ocorrer em Genebra: enquanto o presidente Barack Obama e o Irã tentavam concluir um enésimo acordo sobre a questão nuclear, a França não hesitou em dizer que o pacto do Irã com os P5+1 (os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha) era algo indecente. Paris o vetou. De repente, em vez de assinar um acordo histórico após dez anos de negociações duras e perigosas, todos os chanceleres, furiosos, entraram em seus aviões e se foram. Voltarão a se reunir no dia 20.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2013 | 02h06

Tal foi a nota diplomática destoante que granjeou à França ovações dos EUA. Não dos EUA como um todo, entretanto. Os que hoje aclamam Paris são os americanos que comumente odeiam Paris: os republicanos, a direita agressiva, os neoconservadores. Um dos falcões mais violentos, o senador Lindsey Graham, disse admirar a França porque ela fez fracassar o acordo com o Irã. "Deus seja louvado pela França", gritou. "Ela deverá se tornar uma excelente líder no Oriente Médio."

O republicano John McCain, candidato derrotado à Casa Branca, não ficou atrás. "A França teve a coragem de impedir um péssimo acordo com o Irã. Vive la France!" E Rick Grenell, que combatera a França na ONU na época da estúpida guerra de George W. Bush contra o Iraque, exultou: "Hoje à noite, vou comer french fries ("batatas fritas", em inglês)".

Mas por que, quando o acordo com o Irã foi aprovado por todos, dos EUA à Grã-Bretanha, até a China e mesmo a Rússia, a França, sozinha, derrubou dez anos de paciência e de negociações? Uma das explicações seria que o presidente francês, François Hollande, cuja popularidade está caindo nas sondagens, quis mostrar que tem estatura internacional e agarrou a ocasião.

Indubitavelmente, a França não gostou do comportamento de Obama na crise síria. Depois que o presidente sírio, Bashar Assad, usou as armas químicas, Hollande foi favorável a uma intervenção na Síria. De início, Obama mostrou seguir a mesma linha. Hollande, sentindo-se respaldado pelos poderosos EUA, fez estardalhaço, bancou o valentão, bateu no peito com seus pequenos punhos.

Mas, enquanto o francês soprava em seu clarim, Obama mudou o programa e desistiu de obrigar Assad a ceder. Pior ainda, negociou secretamente com o russo Vladimir Putin, e os dois encontraram uma solução na questão de Assad e das armas químicas, sem avisar Hollande. E ele, sozinho, continua soprando seu clarim.

A humilhação de Hollande foi completa e a França começou a se dar conta de que, para Obama, Paris (e quem sabe até a Europa em geral) não é grande coisa. Será que o líder francês quis retribuir com a mesma moeda derrubando o acordo nuclear com o Irã que deveria ser sua obra-prima diplomática?

Não acredito. Essas mesquinharias são indignas. Além disso, estou convencido de que Hollande é um homem de grande elevação intelectual e moral, que jamais concordaria com esse tipo de pequenas baixezas. Aliás, a França, depois de disparar o torpedo contra o tratado iraniano, recebeu as felicitações de outra personalidade inesperada, um falcão de outra procedência - o israelense Binyamin Netanyahu. E por que não?

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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