A França e o conflito sírio

A França decidiu atacar o Estado Islâmico (EI) na Síria. Seu plano é lançar algumas bombas sobre os jihadistas. Na realidade, ela já bombardeou posições do EI no país vizinho, o Iraque, mas os aviões franceses não tinham o direito de ultrapassar a fronteira entre Iraque e Síria e, portanto, de agir na parte síria do EI. Esta norma poderia parecer absurda. De fato, o EI fundou sua ação, sua ideologia, sua identidade e sua barbárie sobre a negação da fronteira entre Síria e Iraque. Respeitar uma fronteira que o inimigo não respeita equivalia a continuar dando tiros n’água.

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2015 | 03h00

Portanto, a decisão de François Hollande é política: de fato, se os aviões franceses não tinham o direito de bombardear o EI na Síria, era para não prestar indiretamente ajuda ao presidente sírio, Bashar Assad, ele próprio sob ataque dos soldados do EI. Por conseguinte, pela lógica, a nova estratégia de Paris anunciaria a alteração: o inimigo principal, que ainda ontem era o tirano Assad, teria mudado. Agora, é o EI.

Hollande tomou o cuidado de ressaltar que, apesar das aparências, a França continua hostil a Assad, assassino do seu povo. Hoje, ele tem dois inimigos principais, Bashar e o adversário de Bashar, o EI. Deste malabarismo diplomático, alguns concluem que, na realidade, se Assad continua o inimigo principal, é um pouco menos principal em relação a ontem. Agora, no plano militar, os ataques da aviação francesa conseguirão aniquilar o EI? Já imaginamos o sarcasmo dos assassinos do EI. Os americanos realizaram 6.500 bombardeios. O EI mal os percebeu. Então, se o mosquito francês entrar na dança, com 10 ou 17 ou 39 bombas, dá para imaginar?

É, portanto, claro que o gesto de Hollande tem, antes de mais nada, um sentido diplomático. Não apenas em relação à Síria, mas também em relação à Rússia. Moscou não está ausente na Síria. Vladimir Putin é o fiel aliado de Assad. Foi ele que convenceu Barack Obama, há dois anos, a não bombardear a Síria.

Todos os estrategistas concordam num ponto: a coalizão contra o EI precisa se ampliar. Evidentemente, ela conta com as forças legais do Iraque, mas elas estão esgotadas. Ela conta com os curdos, mas a Turquia de Recep Erdogan, que persegue os curdos, não facilita as coisas. Também pode contar com o Irã, poderoso país xiita, que, felizmente foi reintegrado à comunidade internacional graças ao talento de Obama.

Tudo isto é insuficiente contra um inimigo como o EI. Falta a Rússia. Ocorre que a Rússia compartilha dos mesmos temores e dos mesmos anseios do Ocidente: acabar com o EI. Segundo algumas informações, Putin se prepararia para entrar no combate “a fim de levar sua ajuda às minorias cristãs da Síria, protegidas antigamente por Assad, que hoje estão sendo martirizadas pelos açougueiros do EI”. A Rússia socorrendo os cristãos?

Bom senso. No entanto, como engajar a Rússia na ação contra o EI, uma vez que Moscou, depois das crises da Crimeia e da Ucrânia, foi banida da comunidade das nações pelos ocidentais? Sanções, congelamento das relações, vitupérios, contorções, todo o arsenal da Guerra Fria foi recuperado, mergulhando de um só golpe a França numa enorme crise agrícola em razão das sanções contra a Rússia. Além disso, todas estas gesticulações só serviram para consolidar a popularidade de Putin em seu país, porque a Crimeia, imaginam os russos desde sempre, é “russa”.

A França influiu nesta ruptura com a Rússia. Ela anulou a venda de dois navios porta-helicópteros a Moscou, temendo que estas embarcações possam levar Putin a entrar em guerra contra não se sabe quem. Paris se deixou influenciar pelos EUA a ponto de reembolsar a Rússia pela ruptura do contrato uma soma mirabolante (de pelo menos um bilhão de euros).

Hollande, em sua recente coletiva à imprensa, não evitou o problema, sem contudo atacá-lo claramente. Ele disse que, se a situação evoluir no bom sentido na Ucrânia, será “o primeiro a pedir a retirada das sanções contra a Rússia”. Por isso, alguns acreditam que os minúsculos bombardeios franceses na Síria poderão abrir finalmente o caminho para uma volta do bom senso nas relações com a Rússia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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