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Gilles Lapouge
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A França refém de Obama

A coalizão ocidental, quando vai à guerra, não é perfeita. E também não é perfeita a posição da França. Ela está muito isolada. Há duas semanas, o presidente François Hollande sopra sua pequena corneta para convencer subordinados e países amigos de que o horror químico lançado por Bashar Assad merece punição exemplar.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2013 | 02h06

Num primeiro momento, a maior parte do Ocidente compartilha da cólera justa de Hollande e o mundo inteiro espera que Assad seja castigado. Navios de guerra são enviados para a região. Os cinturões são afivelados. As espadas, desembainhadas. De repente, os dois principais aliados da França "mudam de opinião". O premiê britânico, David Cameron, voltou para o armário e o presidente Barack Obama desculpou-se porque a guerra vai atrasar um pouco.

Assim, Hollande ficou abandonado. Ele saiu da trincheira sem medo, granadas nas mãos e percebeu que os outros soldados, americanos e britânicos, continuaram entrincheirados. Estão pensando em outra coisa.

Como explicar a deserção de seus amigos? Primeira razão: o público não gosta de expedições armadas e lembra-se dos desastres como Vietnã, Iraque e Afeganistão. Sobretudo os britânicos, que jamais perdoaram Tony Blair por ter acompanhado idiotamente George W. Bush na estúpida guerra iraquiana.

Resultado: quando David Cameron, como Hollande, um partidário da guerra, solicitou o aval do Parlamento britânico, recebeu uma bofetada que repercutiu nos EUA. Obama mudou o tom e, no sábado, anunciou que também pedirá sinal verde do Congresso americano. A França ficou irritada. Prosseguirá na sua pequena epopeia sozinha e continuará soprando sua corneta?

Impensável. Se o Congresso americano não autorizar a guerra, Hollande deverá recolher às pressas os seus soldados, pensando que "a grande política internacional" é muito difícil. O presidente francês, homem pacífico por natureza, já havia contrariado a sua índole, partindo para a guerra no Mali para expulsar terroristas islamistas. Foi um grande sucesso. Mas, na sua segunda tentativa de ser "comandante-chefe", deu com os burros n'água.

Precisamos reconhecer que Hollande não é o único culpado: todos os líderes ocidentais, salvo a alemã Angela Merkel, reuniram suas nulidades para transformar esse caso em fracasso. E Obama arruinou uma imagem que já estava bem prejudicada.

Obama decidiu consultar o Congresso, que está em férias até segunda-feira, dia 9 - uma eternidade. Nesse ponto, observamos uma das grandes fraquezas da coalizão ocidental: ela não domina o tempo. Seus inimigos, como Assad e Putin, são mais vivos. O Ocidente e a democracia sempre estão atrasados.

No entanto, Homero, o primeiro poeta grego antigo, já havia nos prevenido. A Ilíada narra a expedição lançada pelos gregos contra Troia. No papel, os gregos são muito mais fortes: a Grécia, a mais evoluída nação na época, com um Exército flexível, poderoso, heroico e bem equipado, deveria fazer uma carnificina na cidade asiática.

E o que ocorreu? A Grécia é uma democracia. O corpo expedicionário grego era composto de contingentes de diferentes cidades ou regiões e possuía muitos chefes, todos inteligentes e valorosos. Mas, cada vez que deveria ser tomada uma decisão, havia um debate: os chefes discutiam, confrontavam-se, pediam tempo para pensar, às vezes entravam em choque aberto. Aquiles queria uma coisa, mas Ajax propunha outra. Ulisses permanecia no seu canto, descontente. Agamenon tentava estabelecer a ordem e uma maneira de se chegar a uma decisão comum.

Em Troia, ao contrário, a população estava subjugada pelo poder de um rei absoluto, Príamo, que não debatia com seus comandantes. Ele dava ordens. Do lado grego, a inteligência, o humanismo, a democracia, o debate, a lentidão. Do lado de Troia, a palavra fulgurante do rei tirano.

O Exército grego, apesar da superioridade, do valor dos seus chefes, sofreu para vencer o troiano. Com o passar dos anos, felizmente, as deficiências da democracia grega transformaram-se em virtudes e venceram os persas graças ao ardil do Cavalo de Troia, mas foram necessários dez anos de combate e muitos mortos, ao passo que, com sua técnica e capacidade, os gregos deveriam vencer a guerra em poucas semanas.

Dessa fábula, a mais antiga da literatura ocidental, alguns chegam à conclusão de que a tirania é mais eficaz do que a democracia. Mas, claro, não é essa a lição que extraio. Desejo apenas alertar para os excessos da democracia, suas delongas, suas disputas. No decorrer dos anos, a democracia grega venceu. Em 1940, a guerra relâmpago de Hitler subjugou a Europa em poucos dias. Mas, ao longo do tempo, a união das democracias destruiu o tirano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO  *É CORRESPONDENTE EM PARIS

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