A França refém de Sarkozy

Presidente francês age como um César encolerizado, força a reforma previdenciária e criminaliza seus opositores

Ullrich Fichtner / DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2010 | 00h00

Os franceses não estão protestando apenas para impedir que a idade da aposentadoria seja aumentada. Trata-se de um combate também para salvar a França da corrupção e da destruição da democracia.

Nos últimos dias, lixeiros entraram em greve em Marselha, enquanto alunos da escola secundária desfilaram pelas ruas de Nanterre. Ônibus e trens não funcionaram em Nice, e o transporte público ficou praticamente paralisado durante um dia inteiro. Em 24 cidades universitárias, incluindo Rennes, Caen, Montpellier e Grenoble, os estudantes abandonaram as salas de aula para se tornar uma ameaça à segurança pública nas ruas dos centros das cidades. Os correios não funcionaram em Poitiers e os jornais não circularam em Paris.

Como os manifestantes bloquearam o acesso às refinarias e depósitos de combustível, mais de 3 mil postos de gasolina em todo o país não trabalharam. O tráfego nos aeroportos de Paris e de outras cidades ficou seriamente prejudicado, muitos trens que fazem longos percursos foram cancelados e os caminhoneiros provocaram congestionamentos nas estradas. As imagens desses fatos, incluindo alguns incêndios provocados por arruaceiros, rapidamente deram volta ao mundo.

Aqueles que têm prestado menos atenção aos fatos, lendo apenas algumas breves notícias sobre as agitações, concluirão que os franceses, irracionalmente, lutam ferozmente para manter a idade da aposentadoria aos 60 anos, e não aos 62 como quer o governo. Se fosse verdade, seríamos obrigados a concluir que os franceses são péssimos e a França teria de ser descartada como uma parceira séria dentro da Europa. Mas, felizmente, a verdade é um pouco diferente.

Sim, os franceses estão protestando contra uma reforma previdenciária injusta e mal feita, mas sua cólera vai além do que está sendo promovido como mudanças ridiculamente sem importância.

Na verdade, a França vive hoje uma verdadeira revolta popular contra um governo que tem sido abalado por escândalos e já está à beira do abismo depois de apenas metade do mandato. O alvo real da ira do manifestantes é Nicolas Sarkozy, o mais impopular presidente da França dos últimos 30 anos.

A sequencia de erros, grandes e pequenos, e de escândalos do último verão (europeu) indica de onde vem toda essa cólera que tomou conta do país, e do grau de decepção dos cidadãos franceses com seus políticos. Na era Sarkozy, juízes e promotores examinam cuidadosamente que processos devem aceitar, e o Parlamento também se tornou uma instituição ineficaz. Sob o governo de Sarkozy, os franceses viram a deterioração generalizada de uma república antes orgulhosa dos seus valores, Nos anos anteriores a Sarkozy era impensável que um líder francês pudesse fazer um discurso inflamado sobre "insegurança" nacional, como ele fez neste verão. E seria inconcebível adotar uma política de expulsão de estrangeiros como a adotada contra os ciganos.

A lista de erros do governo é longa e suas consequências políticas são cada vez mais palpáveis a cada nova pesquisa de opinião. Numa sondagem realizada recentemente, apenas 6% dos questionados disseram achar que Sarkozy está fazendo um trabalho "muito bom", enquanto 69% o consideram um presidente "ruim" ou "péssimo". Em outras pesquisas, dois terços dos indagados aprovavam as greves e os protestos contra a reforma da previdência. Mas, no final, Sarkozy é responsabilizado por isso

Edwy Plenel, que dirige um site de notícias chamado Mediapart, chama Sarkozy de "hiperpresidente no estilo de César", um homem que faz o que quer "a qualquer preço, o mais rápido possível e, se necessário, à força".

A verdade incômoda na França é a de que todo mundo está constantemente prevendo novas explosões de cólera, e Sarkozy jamais conseguirá encontrar uma palavra conciliadora. Ele nem mesmo tenta acalmar a situação. Em vez disso, consegue tornar as coisas ainda piores. E cada nova explosão de violência é usada depois como munição contra os manifestantes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR E JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.