A França se supera

A França é um país criativo. Sempre quer ser melhor do que os outros e frequentemente o consegue. Por exemplo, em termos de ridículo.

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h06

O que vem ocorrendo há alguns dias dentro do partido de direita (UMP) que colocou Sarkozy em órbita para a eleição presidencial, não tem precedente. E é também muito bizarro.

Em resumo: Sarkozy foi derrotado na última eleição presidencial e substituído pelo socialista François Hollande. À direita, a frustração foi grande. Mas veio a reação. E o partido se recompôs rapidamente.

Para começar, afirmou que os socialistas são um bando de idiotas. Mas quando isso é repetido durante meses, o público fica cansado. Então, ela implantou seu "plano B"; para a chefia do partido decidiu eleger um homem forte, incontestável, um gênio, um vencedor.

Essa eleição teve lugar no domingo passado. Havia somente dois candidatos, as duas vedetes da direita: François Fillon, que foi primeiro-ministro de Sarkozy durante cinco anos - uma personalidade do interior, melancólico, sério, democrata, sem bravatas e muito honesto.

Seu concorrente foi Jean-François Copé, ex-secretário da UMP que pretende se candidatar a presidente. Um perfil bem diferente: ele representa a direita radical. Não gosta dos muçulmanos. Brilhante, burlão, cruel, sem escrúpulos, arrogante. Uma máquina de guerra, estilo Sarkozy.

A eleição foi um desastre. Como no Zimbábue ou na Transcaucásia, manipulação das urnas, fraudes, trapaças. Copé diz que venceu no voto. Fillon diz que foi ele o vencedor. Os votos foram recontados. A "comissão de verificação" deu seu veredicto: Copé foi o vitorioso.

Então o calmo e distinto François Fillon explodiu como uma velha granada da guerra de 40. Não é possível. Todos os seus amigos se reuniram em seu apoio. Os amigos de Copé se rebelaram. O grande partido da direita francesa se decompõe. A França hesita entre o pânico e o riso.

Na manhã de terça-feira, Fillon, o mau perdedor, surgiu com um trunfo surpreendente: ele se deu conta que, na contagem dos votos, foram esquecidos três territórios franceses localizados no fim do mundo: Mayotte, no Oceano Índico, Nova Zelândia, no Pacífico, e também Wallis-et-Futuna, um arquipélago isolado com 12 mil habitantes. E se levados em conta os três esquecidos, Fillon venceria a eleição por 28 votos a mais. Fillon diz que ele venceu a eleição. Copé responde "não, fui eu".

Como explicar esse grotesco combate? Os dois homens se odeiam. Fillon diz que Copé é um "rufião". Que considera Fillon uma "nulidade". Mas há principalmente uma divisão ideológica. Copé dirige uma "direita desinibida, cínica, brutal, quase militar, tentada pela xenofobia".

Fillon lustra uma direita mais educada, que flerta com o centro, os moderados, os conservadores, o século 19, a fadiga...

E agora? O grande partido da direita vai se romper? Estamos à procura de um "sábio" para resolver. Como Alain Juppé, mas Juppé não gosta de Fillon, tampouco de Copé.

Surge então uma pergunta: por que não pedir a Nicolas Sarkozy que, quando presidente, tinha os dois homens a seu serviço, para intervir. Ele seria a pessoa certa para colocar os doidivanas no seu lugar e acalmá-los. Infelizmente, Sarkozy não quer se envolver na política, no momento.

Além disso, nesta semana ele foi interrogado durante longas horas por um juiz que suspeita que ele teria usado dinheiro da velha bilionária Liliane Bettencourt para financiar ilegalmente a campanha eleitoral que o levou à presidência da república em 2007.

A internet está zunindo. Essa mensagem por exemplo: "Sarkozy diante do juiz. Copé e Fillon pegos com a mão no vidro de geleia. E dizer que confiamos as chaves para esses três tipos..."

Os socialistas estão discretos. É verdade que, do seu lado, não estão dando um espetáculo maravilhoso. Então, quem está contente? Marine Le Pen, chefe do partido xenófobo, a Frente Nacional. Desde quinta-feira ela parece um urso marrom que encontrou o seu vidro de geleia. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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