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A semente de Le Pen

Em debate, candidata jogou fora a máscara de civilidade que seu partido passou a usar

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2017 | 05h00

No domingo à noite conheceremos o novo presidente da república francesa. Poderá ser Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional, de extrema direita, ou Emmanuel Macron, recém-chegado à política, nem de direita, nem de esquerda. Será Emmanuel Macron. Marine será vencida, segundo a opinião dominante.

Se Le Pen vencesse, ela ressurgiria do fundo do abismo no qual ela mesma se precipitou. Essa espécie de “suicídio direto” se produziu há dois dias, no debate entre os dois pretendentes transmitido pela televisão.

Naquela noite, a França, estupefata e um pouco nauseada, viu se agitar na tela, em lugar de Le Pen, uma matrona, uma megera, que insultava e envolvia suas baboseiras fascistas com um sorriso obsceno, quase odioso. Incompreensível! Nos dez anos em que conduziu o partido criado outrora por seu pai, o fascista, quase nazista e brilhante Jean-Marie Le Pen, ela se empenhou em “desdemonizar” a Frente Nacional, a fazer desse grupelho de agitadores vulgares uma máquina bem azeitada, palatável. Basta de grosserias. Basta de vociferações contra os judeus, os árabes e a esquerda.

Essa “plástica” foi conduzida com mão de mestre por Marine Le Pen. Ela conseguiu. Prova disso é que chegou ao segundo turno contra Macron. Com mais um passo, ela entraria no Palácio do Eliseu. Mas ela não deu esse passo. Em uma hora e meia de transmissão da TV, ela desconstruiu tudo que havia pacientemente construído. Jogou no lixo a máscara civilizada e sedutora que havia colocado sobre o rosto da Frente Nacional. E em poucos minutos, diante de nossa tela, vimos ressurgir o rosto odioso e hostil que ela parecia ter deixado de lado.

Como explicar a mudança? Uma vertigem no momento de receber a medalha de ouro? Ou talvez ela soubesse, por sondagens secretas, que seu rival Macron venceria por um fio. Então, ela já teria se projetado no pós-eleição: como a tomada do poder pelo charme e a inteligência havia gorado, ela se tornaria a chefe da oposição e, para melhor apavorar seus inimigos (Macron etc.), havia tirado da naftalina os velhos apetrechos rudes e mafiosos que eram a antiga a marca da Frente Nacional.

Essa hipótese tem o mérito de lembrar o público que, apesar de Le Pen ter estragado sua eleição, ela continua à frente de um partido poderoso, cuja sedução sobre uma vasta parcela do povo é irresistível. A Frente Nacional, longe de se dissipar como uma nuvem aziaga, permanecerá viva, ameaçadora, trágica, indelével, pronta para a luta, para realizar a conquista que ela esteve perto de conseguir.

A França sentiu passar o sopro da bala. Não deveria esquecê-lo. Felizmente, os países estrangeiros – os da Europa, sobretudo – esquecem menos rapidamente que a frívola França. Alemanha, Itália, Bélgica e Áustria sabem muito bem que a besta continua rondando os bosques que cercam o Eliseu. Le Pen e a Frente Nacional estão sempre prontas a saltar ao primeiro passo em falso dos dirigentes. Elas são hábeis em colocar sal em todas as feridas e estão sempre prontas a lançar suas milícias sobre a presa que desejam atacar.

Há cerca de dez dias, quando a vitória de Le Pen parecia possível ou provável, houve até um verdadeiro pânico nas capitais europeias. Via-se a chegada de Le Pen como uma calamidade, como a dos hunos sobre a Europa no fim do Império Romano. A razão era econômica.

Considerando o programa de Le Pen – fim da globalização, restabelecimento das fronteiras, desmantelamento da União Europeia, controle cambial, guerra às plutocracias monetárias – ministros, empresários, bolsas de valores e bancos esperavam um tornado. O franco ia ressurgir e explodir, o euro desapareceria, os bancos iam morrer, em suma, uma crise mortífera atingiria a Europa, Wall Street, Hong Kong, Buenos Aires, Toronto. A França de Le Pen, ferozmente xenófoba, fecharia suas fronteiras aos milhões de imigrantes que batem à porta da Europa. Caos à vista.

Vitrine. Os terrores da Europa eram tão maiores porque a França não é um caso excepcional. Todo continente (com a possível exceção da Espanha) está sendo assediado pelo câncer do populismo. Estava claro que se Le Pen entrasse no Eliseu, a saída da França da União Europeia daria um golpe letal no bloco e na zona do euro.

E isso não é tudo. As ideias de Marine circulam por todo o espaço europeu: o horror à globalização e o ódio aos estrangeiros. Uma vitória dos populistas em um país tão importante como a França ameaçaria levar ao paroxismo as tentações fascistas que já eletrizam todo o Leste Europeu (Varsóvia, Budapeste, Sófia).

Seria o fim, portanto, da Europa humanista, civilizada, pacífica e doce que conhecemos há 70 anos. Outra Europa a substituiria. Uma Europa que ronda como uma sombra escura e vemos passar para o outro lado da cortina – e a cortina então se rasgaria para deixar entrever o continente envolto em sangue e medo.

O perigo é grande. Ele não circula apenas pela via da política. É a fibra moral, os valores da França, da Europa, do mundo livre que a beberagem mefítica ataca. Também nesse âmbito a França desempenha um papel de laboratório ou observatório. Há 20 anos, as ideias da Frente Nacional (do tempo de Jean-Marie Le Pen) – o racismo, o niilismo, o desprezo, o antissemitismo – todos esses venenos – eram rejeitados naturalmente pela sociedade. Havia um “cordão sanitário” ao redor deles.

Depois, a mudança foi considerável. As ideias xenófobas e populistas romperam o “cordão sanitário”. A Frente Nacional, mesmo para os que a combatem, tornou-se um convívio admitido à mesa dos convidados. Ao nível consciente, essas ideias são rejeitadas, é claro, mas elas já estavam alojadas no aconchego do inconsciente.

Durante as eleições presidenciais francesas precedentes, a Igreja da França havia pedido, sem ambiguidade, que seus fiéis rejeitassem o partido do ódio, do desprezo. Neste ano, os bispos reuniram-se e não tiveram a coragem de dizer aos cristãos que os fascismos, o racismo, a xenofobia são condutas violentamente contrárias à palavra de Cristo. Covardia dos bispos! Perigosas prudências! / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

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