A fúria de Gibraltar

Que ideia maravilhosa foi a criação da União Europeia. Graças a ela, partes da Europa que passaram 2 mil anos se detestando aprenderam a amar. Mas o passado resiste. Alguns pequenos espaços teimam em detestar outros espaços. É o caso de Gibraltar, rochedo no sul da Espanha, pelo qual Madri e Londres seguem se atormentando.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2012 | 07h02

Vale lembrar o status de Gibraltar: trata-se de um pequeno fragmento de 6 quilômetros quadrados, localizado ao sul do território espanhol, um simples penhasco, mas que guarda a passagem do Mar Mediterrâneo para o Oceano Atlântico. É o segundo estreito mais concorrido do mundo.

A Grã-Bretanha reina sobre esse ínfimo rochedo. Por que? Há três séculos, em 1713, a Guerra da Sucessão Espanhola acabava com o Tratado de Utrecht. Por esse tratado, a Espanha, vencida, cedeu aos britânicos a cidade, o castelo e o Porto de Gibraltar. Durante 300 anos, o acordo jamais foi contestado.

Este ano, no jubileu de diamante da rainha Elizabeth II, é novamente aberta, entre Espanha e Grã-Bretanha, a velha ferida infectada. O pretexto: o príncipe Andrew, filho mais novo da rainha, em razão do jubileu, deve ir a Gibraltar no dia 11. Furor na Espanha. Madri deu a conhecer "sua contrariedade e desconforto". E reagiu. A rainha Sofia, da Espanha, anulou a visita que faria à sua prima, a rainha Elizabeth, no castelo de Windsor. E a imprensa espanhola criticou a "indelicadeza" britânica, da rainha e dos príncipes.

O incidente vem se somar às tensões que persistem entre as duas grandes nações em razão desse rochedo. Por exemplo, Gibraltar proibiu que os pescadores espanhóis naveguem em seu entorno. À afronta, Madri respondeu vigorosamente, ordenando que a Guarda Civil espanhola escoltasse os pescadores. E a Espanha proclamou que "o tempo das humilhações acabou".

Às vezes, o conflito se intensifica. Em vez de ficar restritos aos insultos, os dois países chegam às vias de fato. Na sexta-feira, um grupo de espanhóis feriu levemente um policial de Gibraltar e atirou pedras contra seu carro. As autoridades britânicas estremeceram e instalaram uma segunda cerca para melhor separar o rochedo do continente.

A União Europeia tem tido muito trabalho. Pobres diplomatas de Bruxelas. Não só devem impedir a Grécia de morrer, mas também devem convencer os espanhóis a não atirarem pedras contra os carros de policiais britânicos. Será que Angela Merkel terá de cuidar do caso?

Os cientistas políticos estão inquietos e perguntam-se por quanto tempo a guerra se prolongará. As opiniões são divergentes. Os pessimistas não veem solução antes de dois ou três milênios. Outros, mais políticos, confiantes nos poderosos instrumentos diplomáticos da UE, acreditam que tudo se resolve em alguns séculos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É CORRESPONDENTE ME PARIS

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