AP Photo/Charles Rex Arbogast
AP Photo/Charles Rex Arbogast

A fúria na era Trump

Lendo-se 'Fogo e Fúria', fica parecendo que a vida política dos EUA atrai apenas mediocridades irrecuperáveis, pessoas cegas ao idealismo e a toda intenção altruísta, sem ideias, princípios e valores, ávidas por dinheiro e poder

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 05h00

Como se fabrica um best seller? Assim: a editora Henry Holt comunica que publicará o livro Fire and Fury, do jornalista Michael Wolff, revelando segredos sobre Donald Trump na Casa Branca, e dá exemplos escandalosos. O presidente reage e seus advogados anunciam que vão aos tribunais para evitar a publicação, que é adiantada pela editora. 

Eu estava em Miami e tratei de comprá-lo no mesmo dia. O livro se esgotou em três horas em todas as livrarias da cidade. A editora anuncia que a milionária segunda edição de Fogo e Fúria sairia em poucos dias. Assim, Trump e seus advogados conseguiram que um livro sem nenhum mérito – é apenas mais um sobre o novo ocupante da Casa Branca – seja vendido como pão quente no mundo todo.

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Há muito tempo não lia algo tão deprimente como a coleção de fuxicos, revelações, intrigas, rancores, vilanias e estupidez reunida por Wolff, com o testemunho de umas 300 pessoas vinculadas ao novo regime. A se acreditar no autor, o atual governo é composto de politiqueiros ignorantes e intrigantes que se unem, se estranham e se apunhalam numa luta frenética para ganhar posições e defender as que já conseguiram graças ao deus supremo Donald Trump. 

Este, claro, é o pior de todos, um personagem que, pelo que se sabe, nunca leu um livro na vida – nem sequer aquele que escreveram para que publicasse em seu nome relatando seus êxitos empresariais. Sua cultura vem exclusivamente da televisão. Sua energia é inesgotável e sua dieta diária, composta de vários X-búrgueres e 12 Coca-Colas light. Seu asseio e seu sentido de ordem deixam muito a desejar. Por exemplo, teve um chilique quando uma arrumadeira pegou uma de suas camisas do chão acreditando que estivesse suja. Premissas importantes como essa ocupam muitas das 322 páginas do livro.

Segundo Wolff, ninguém, a começar o próprio Trump, esperava que ele ganhasse a eleição. A equipe de campanha não havia se preparado para uma vitória. Daí o caos vertiginoso no qual entrou a Casa Branca. 

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Não só não havia um programa de governo: tampouco havia pessoas capazes de materializá-lo. As nomeações foram feitas às pressas, e os únicos critérios para a escolha eram o beneplácito e o faro de Trump. As lutas internas paralisavam toda ação. 

Isso tinha efeitos catastróficos na política internacional, na qual os rompantes cotidianos do presidente ofendiam aliados, violentavam tratados e levavam-no a tratar com luvas de pelica tradicionais adversários do país, como a Rússia de Putin, frente à qual Trump parece ter uma debilidade quase tão grande quanto os preconceitos contra mexicanos, haitianos, salvadorenhos e, no geral, todos os imigrantes procedentes “desses países de merda”. 

Lendo-se Fogo e Fúria, fica parecendo que a vida política dos EUA atrai apenas mediocridades irrecuperáveis, pessoas cegas ao idealismo e a toda intenção altruísta, sem ideias, princípios e valores, ávidas por dinheiro e poder. Os bilionários têm papel fundamental nessa trama e, das sombras, controlam os fios que põem em ação parlamentares, ministros, juízes e burocratas.

 

Um personagem central do livro é Steve Bannon, o último chefe de campanha de Trump e, acredita-se, o arquiteto de sua vitória. Bannon é algo assim como “o teórico” do movimento. Católico praticante, oficial da Marinha por sete anos, colaborador e jornalista de publicações de extrema direita como Breitbart News, ele se autodefine como “nacionalista populista”. 

Bannon pensava mal, mas, pelo menos pensava. De sua cabeça saíram alguns cavalos de batalha de Trump: o muro para isolar os mexicanos, o fim da ampliação da saúde pública aprovada por Obama (o Obamacare), a obrigação das fábricas que saíram dos EUA de regressar ao solo americano, a redução drástica da imigração e de impostos para as empresas e o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. Para desgraça de Bannon, a revista Time afirmou que ele era o presidente nas sombras. Trump teve um acesso de raiva e começou a marginalizá-lo. 

Expulso o “ideólogo” do paraíso, as ideias desapareceram da administração e do entorno de Trump. A política ficou reduzida exclusivamente ao pragmatismo – em outras palavras, a acompanhar as decisões caprichosas e os movimentos táteis e retráteis do presidente. Pobre país!

Embora eu acredite que a descrição de Wolff seja exagerada e caricatural, e ler seu livro uma perda de tempo, por desgraça existe algo de tudo aquilo na presidência de Trump. É provável que nunca em sua história os EUA tenham se empobrecido tanto, política e intelectualmente, como nesta administração. Isso é grave para o país, mas ainda mais grave para o Ocidente democrático e liberal, cujo líder vai deixando de sê-lo a cada dia, com as consequências previsíveis: China e Rússia ocupam as posições que os EUA abandonam, adquirindo uma influência política e econômica crescente, talvez impossível de se deter, em todo o Terceiro Mundo e em alguns países do Leste Europeu. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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