A gênese de um presidente imperial

Barack Obama traiu a si mesmo e acabou se tornando um Cheney do liberalismo, um eleito sem limites

ROSS, DOUTHAT, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2014 | 02h03

Permitam-me ser claro, como ele mesmo gosta de dizer: eu acredito que o presidente Barack Obama foi absolutamente sincero quando concorreu à presidência como um crítico feroz do Executivo imperial. Acredito que ele foi honesto quando disse a seus militantes, em 2008, que os "maiores problemas" dos EUA envolviam "George W. Bush tentar aumentar cada vez mais o poder do Executivo e não recorrer absolutamente ao Congresso". Acredito que ele falou sério quando se classificou como um libertário de princípios em assuntos civis, quando se comprometeu a aceitar a posição do Congresso sobre poderes de guerra, quando prometeu renunciar a privilégios que Bush havia se arrogado.

Acredito também que ele foi sincero quando disse a várias plateias que uma medida unilateral radical como a que acaba de ser tomada sobre a imigração trairia as normas do governo constitucional. Então, como chegamos de uma coisa a outra? Como o homem que supostamente domaria a presidência imperial tornou-se, de certa maneira, mais imperial que seu antecessor?

O alcance das medidas de Obama pode ser debatido, mas a realidade básica é clara. Apesar de ter mantido boa parte da arquitetura de segurança da era Bush, o presidente tem se mostrado mais disposto a lançar operações militares sem aprovação do Congresso; mais disposto a negociar assassinatos e ordenar a morte até mesmo de cidadãos americanos; e mais agressivo em sua guerra a vazadores de informações e jornalistas.

Ao mesmo tempo, ele tem sido muito mais agressivo do que Bush no uso que faz do Poder Executivo para perseguir seus objetivos políticos domésticos - em educação, mudança climática, saúde e agora, mais radicalmente, imigração. Três forças - duas externas, uma interna - poderiam ajudar a explicar como ocorreu essa transformação.

Primeiro, expectativas do público. Durante todo o século passado, os poderes da presidência aumentaram em simbiose com a mudança das expectativas do público sobre o cargo. Como o Congresso é assexuado, frustrante e difícil de acompanhar, a democracia de massa parece pedir uma figura única icônica na qual despejar seus desejos, aspirações e ódios. O presidente moderno, como escreveu Gene Healy, do Cato Institute, é visto cada vez mais como "um nutridor da alma, um distribuidor de esperança, um talismã vivo contra furacões, terrorismo, crises econômicas e mal-estar espiritual".

E a pressão para esse talismã agir, mesmo que violando leis e normas ou tradições burkeanas, é cada vez maior e mais intensa. Quando presidentes não são vistos "fazendo alguma coisa", eles são castigados como "lame duck" (pato manco, gíria para autoridades eleitas mas sem capacidade de agir em fim de mandato).

Quando empreendem ações unilaterais, como se viu na semana passada, elas subitamente parecem recuperar sua rotina. E isso é algo que mesmo um crítico do Poder Executivo com princípios deve achar difícil de abstrair.

Segundo, abdicação congressional. Este é o ponto que os liberais levantam em defesa do presidente Obama. Não é apenas o fato de ele vir lidando com um partido de oposição que pendeu para a direita. É que essa oposição não sabe o que quer, coletivamente ou, às vezes, até individualmente. Por isso, ele tem dificuldade de barganhar ou de legislar efetivamente.

Essa realidade dificultou importantes acordos bipartidários, tornou mais difícil o presidente contar votos sobre política externa. Tudo isso cria mais incentivos para o unilateralismo presidencial. Em alguns casos, parece necessário para manter as rodas girando. Em outros, pode ser justificado como a única maneira de fazer as coisas grandes.

O que nos traz ao terceiro fator na transformação do presidente: suas próprias ambições. Quando concorria à presidência, Obama elogiou Ronald Reagan por mudar "a trajetória da América" de uma maneira que a triangulação de Bill Clinton não conseguira. E é sua autoimagem como o Reagan liberal, eu suspeito, que tornou psicologicamente impossível para ele aceitar os limites que seus dois antecessores acabaram aceitando de sua própria capacidade de fazer política.

Essa autoimagem transformadora moldou sua presidência desde o começo. Obama nunca cuidou de questões domésticas em que pudesse estar disposto a fazer uma versão de alguma coisa que o outro partido queria - como Bush fez com os gastos em educação e o Medicare e Clinton com a reforma do sistema previdenciário (ele tem uma disposição autocomplacente para incorporar ideias conservadoras em propostas essencialmente liberais, mas isso não é a mesma coisa).

A ideia do Reagan liberal moldou ainda mais as suas escolhas quando ficou claro que algumas prioridades liberais - uma grande lei sobre mudança climática e uma anistia abrangente - estavam tão fora do alcance legislativo quanto uma reforma da saúde se mostrou para Clinton e uma reforma da seguridade social estava para Bush.

Diante dessas realidades, Clinton deu uma guinada e Bush desistiu. Obama, porém, não pode aceitar nenhuma dessas opções, porque ambas parecem traições a sua promessa, seu destino, à imagem que ele tem de si mesmo. Assim, ele escolheu trair a si mesmo de uma maneira diferente, tornando-se a mesma coisa contra a qual fez campanha: um César eleito, um Cheney do liberalismo, um presidente sem limites. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É COLUNISTA

Mais conteúdo sobre:
visão global

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.