A geografia de valores da UE

Europa deveria ter uma compreensão melhor do que representam os seus próprios ideais

DOMINIQUE, MOISI, PROJECT SYNDICATE , O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2014 | 02h03

Confrontada com a reafirmação da Rússia de sua tradição imperial e dos métodos e reflexos enganosos do passado soviético, como a Europa deveria reagir? Deveria dar prioridade ao "valor da geografia" ou à "geografia de valores"? Os que optam pela primeira o fazem em nome do "realismo energético" de curto prazo, argumentando que ele é vital para chegar a um acordo com a Rússia porque a Europa não dispõe do gás e de petróleo dos EUA. Segundo esse raciocínio, os americanos poderiam viver sem a Rússia, mas a Europa não.

Além disso, para os realistas, o comportamento desafiador dos EUA diante de seus antigos e mais fiéis aliados - refletido nos recentes escândalos de vigilância que implicam a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) - desacreditou a própria ideia de uma "comunidade de valores". Se os EUA não respeitam mais os valores que professam, por que a União Europeia deveria perder a boa vontade do Kremlin em nome de defendê-los?

Esses realistas alegam também que, ao alinhar as posições da UE com as da Otan, a Europa escolheu precipitadamente humilhar a Rússia - um curso de ação inútil e perigoso. Chegou o momento, segundo eles, de uma política que concilie senso comum histórico e geográfico com necessidade de energia. O futuro da Europa está inexoravelmente ligado ao da Rússia, enquanto os EUA viraram as costas para a Europa por desinteresse, se não por desilusão.

A comemoração de um passado glorioso - o 70.º aniversário do Dia D - não pode ocultar o presente diminuído: embora a Europa possa tentar diversificar seus recursos energéticos, ela não pode prescindir da Rússia no futuro previsível.

Por que, questionam os realistas, deveríamos morrer por ucranianos que são ainda mais corruptos e muito menos civilizados do que os próprios russos? A Ucrânia teve sua chance como Estado independente e fracassou, vítima da venalidade de suas elites políticas. É hora de fechar esse parêntese infeliz.

Essa visão não é teórica. Ela pode ser encontrada, sob vários disfarces, em toda a UE, na direita e na esquerda, e em todas as profissões. A percepção de relativo declínio americano e da crescente perda de confiança da Europa em seus valores e modelo parecem legitimar uma posição que é construída, em muitos casos, sobre os restos do velho antiamericanismo.

Valores. O outro caminho, que enfatiza a geografia de valores, foi o escolhido pelos fundadores do projeto europeu e da Otan. Segundo essa visão, o não reconhecimento das pretensões imperiais de Vladimir Putin aumentaria o risco de a Europa ficar presa em uma forma não benevolente de dependência.

Para a Europa, ouvir o canto de sereia do Leste - uma melodia de complementaridade entre o poder estratégico da Rússia e o poder econômico da UE - seria o equivalente a pagar proteção à máfia. Como poderia um clube de democracias ser inteiramente dependente, para sua segurança, de uma potência autoritária que abertamente despreza seus sistemas políticos "fracos"?

Não é mera coincidência que esse discurso russo contra democracia, imigrantes e a homossexualidade encontre respaldo entre os partidos mais conservadores, extremistas e nacionalistas da UE. Por contraste, a força e a atratividade do modelo da UE dependem de sua natureza democrática. Os europeus que pararam de sonhar com a Europa, que consideram que a paz, a reconciliação e, sobretudo, a liberdade, estão garantidas, não percebem o que está em jogo.

Adotar uma "raison d'état de energia" que deixa a Europa dependente da Rússia por cerca de um terço de seus recursos energéticos seria suicídio. Existem alternativas. A Europa pode dizer não ao Kremlin e à Gazprom. Basta que tenha vontade para isso.

A única política possível que pode ser ao mesmo tempo realista e digna consiste numa combinação de firmeza e determinação de estabelecer limites para a Rússia de Putin. É precisamente porque os EUA não são mais o que eram (tendo feito demais com George W. Bush e de menos com Barack Obama) que a aliança com base em valores da Europa é mais indispensável do que nunca.

Prioridade. São esses valores que levaram à queda do Muro de Berlim e motivaram os manifestantes em Kiev a enfrentar o brutal inverno ucraniano na Praça Maidan. Da Ásia à África, as pessoas parecem ter uma compreensão muito melhor que os europeus do significado dos valores europeus. Basta ouvi-las exaltando a paz, a reconciliação e mesmo a relativa igualdade do continente (em comparação com os EUA). Para a UE, a escolha nunca foi mais clara. Se quiser sobreviver e prosperar, ela terá de colocar a geografia de valores em primeiro lugar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CONSULTOR DO INSTITUTO FRANCÊS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS (IFRI) E

PROFESSOR DO INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS DE PARIS (SCIENCES PO)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.