A glasnost dos conservadores americanos

Republicanos deverão se entender com Barack Obama

É COLUNISTA , DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA , DAVID, BROOKS, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h03

O senador americano Marco Rubio ganhou no começo da semana o Prêmio de Liderança da Fundação Jack Kemp. No discurso em que aceitou a premiação, ele esboçou sua visão republicana. Algumas das políticas que mencionou eram bastante convencionais para alguém de seu partido: limitar as regulamentações, aprovar o oleoduto Keystone XL. Algumas eram menos convencionais, ao menos diante da maneira como o Partido Republicano recentemente as definiu: criar mais centros de saúde comunitários, investir em mais formação de professores e adotar as bolsas Pell para estudantes universitários.

Mas o discurso realmente ficou bom mais perto do fim. Rubio fez críticas oblíquas de algumas gafes republicanas durante a campanha: "Alguns dizem que nosso problema é que o povo americano mudou. Que há pessoas demais querendo coisas do governo. Mas eu estou convencido de que a maioria esmagadora de nosso povo simplesmente quer o que meus pais tiveram: uma chance".

Depois, ele recordou um episódio: "Eu ia fazer um discurso num hotel elegante em Nova York. Quando cheguei ao salão do banquete, fui abordado por um grupo de três funcionários uniformizados do departamento de alimentação do hotel. Eles tinham visto meu discurso na Convenção Republicana, onde contei a história de meu pai, bartender de banquete. E tinham um presente para mim. Eles me presentearam com essa chapa de identificação que diz, 'Rubio Bartender de Banquete'." Enquanto contava essa história, Rubio fez um gesto para alguns membros do serviço no jantar da fundação. Eles pararam para ouvi-lo.

"Tudo começa com nosso povo", continuou Rubio. "Nas cozinhas de nossos hotéis, nas equipes de paisagismo que trabalham em nossos bairros, nos turnos de faxina que limpam nossos escritórios altas horas da noite. Ali vocês encontrarão os sonhos sobre as quais a América foi construída. Ali vocês encontrarão a promessa de amanhã. Sua jornada é o destino de nossa nação. E se eles puderem dar aos seus filhos o que nossos pais nos deram, a América do século 21 será a maior nação que o homem já conheceu." As pessoas presentes ao jantar dizem que houve um silêncio profundo por um segundo enquanto Rubio concluía com essa frase. Depois, uma ovação estrondosa encheu o salão.

Caminho. O Partido Republicano tem um longo caminho a percorrer para renascer como um partido majoritário. Mas esse discurso significa um momento desse renascimento. E eu diria que o mês passado marcou um momento.

No mês passado, o Partido Republicano mudou bem mais do que eu esperava. Primeiro, as pessoas nos extremos ideológicos do partido começaram a se autoisolar. O movimento Tea Party atraiu muitas pessoas propensas a certezas preto no branco e a uma unidade absoluta. Pessoas assim têm uma tendência a migrar da política dominante, que é inevitavelmente confusa e impura, para oásis de pureza ainda mais marginais.

Jim DeMint, por exemplo, está trocando o Senado pela Heritage Foundation. Está abandonando o centro da ação, onde imigração, impostos e outras reformas serão construídas, por uma organização de advocacia política mais conhecida pela pureza ideológica e pelas proezas de arrecadação de fundos do que por criatividade, curiosidade ou inovação intelectual.

Segundo, a política está sendo refeita. Por algum tempo, candidatos republicanos como Richard Mourdock, de Indiana, orgulhosamente declararam que não acreditavam em acordos. Os ativistas políticos gastaram mais tempo expurgando "desviacionistas" do que tentando atrair novos conversos.

Mas essa mania passou. Há sinais crescentes de que os republicanos da Câmara querem cerrar fileira com o presidente da casa, John Boehner, para ele costurar um acordo e evitar o "abismo fiscal". Tem havido uma epidemia de mentalidade aberta na medida em que republicanos procuram ganhar votos minoritários e criar uma versão de seu partido que possa ser competitiva em Estados como Connecticut e Califórnia.

Finalmente, tem havido até algumas mudanças de valores econômicos ou, ao menos, na maneira como o partido apresenta esses valores. O outro orador no jantar do prêmio Kemp foi o deputado Paul Ryan, que falou sobre como aliviar a pobreza. Ele não abandonou suas crenças fundamentais, mas emoldurou essas crenças de uma maneira mais palatável e abriu espaço para o crescimento e novas ideias.

As obrigações para combater a pobreza, disse Ryan, estavam fora de questão. "O verdadeiro debate é sobre a melhor maneira para fazermos isso. Se elas serão mais bem alcançadas por grupos privados ou pelo governo - por ação voluntária ou por ação do governo. A verdade é que precisa haver um equilíbrio. O governo precisa agir para o bem comum, deixando os grupos privados livres para fazer o trabalho que somente eles podem fazer." Como Rubio, Ryan projetou uma visão mais equilibrada e atraente. Ele falou com paixão sobre os que almejam ascender.

Os republicanos ainda podem estragar tudo. Se o presidente Barack Obama for flexível e eles não se entenderem em certa medida com ele, os republicanos contribuiriam para uma recessão que os desacreditaria por uma década. Mas eles estão seguindo na direção certa e velozmente.

Esses foram primeiros passos. E foram encorajadores. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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