Farshad Usyan/AFP
Farshad Usyan/AFP

A governadora afegã que pega em armas para resistir ao Taleban

Salima Mazari está no cargo há pouco mais de três anos e, para ela, lutar contra o grupo não é nenhuma novidade; desde julho, no entanto, a situação piorou

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 07h37
Atualizado 12 de agosto de 2021 | 11h47

CHARKINT, Afeganistão - Salima Mazari é apenas uma das três mulheres no comando de um distrito no Afeganistão, um dos cinco piores países do mundo para uma mulher viver, segundo uma pesquisa de 2019 feita pela Fundação Thomson Reuters. Ela é a governadora de Charkint, com 30 mil habitantes, na província de Balkh, no norte do Afeganistão, um remoto distrito montanhoso a 75 km de Mazar-i-Sharif, a grande cidade do norte. 

Ela está no cargo há pouco mais de três anos e, para ela, lutar contra o Taleban não é nenhuma novidade. Desde julho, no entanto, a situação piorou. “Às vezes estou no escritório em Charkint e outras vezes preciso pegar uma arma e entrar na batalha”, diz Mazari, de 40 anos, ao jornal britânico The Guardian. 

Todos os dias, ela se reúne com os comandantes de suas forças de segurança, conforme aumentam os ataques de militantes islâmicos em todo o país. Ela defende sua liderança militar ativa. “Se não lutarmos agora contra as ideologias extremistas e os grupos que nos impõem, perderemos nossa chance de derrotá-los. Eles terão sucesso. Eles farão uma lavagem cerebral na sociedade para que ela aceite sua agenda”, disse ela ao Guardian.

Mazari nasceu no Irã em 1980, depois que sua família fugiu da guerra soviética no Afeganistão. Ela é membro da comunidade xiita hazara, perseguida por muitos anos pelos extremistas sunitas neste país dilacerado por divisões étnicas e religiosas.

Os hazaras têm sido alvo dos taleban e do grupo Estado Islâmico, que os considera hereges. Em maio deste ano, um ataque a bomba em uma escola de Cabul matou mais de 80 pessoas, a maioria estudantes.

Depois de se formar na universidade em Teerã, ela ocupou diferentes cargos em universidades e na Organização Internacional para as Migrações, antes de decidir ir para o país que seus pais deixaram décadas atrás. “O mais doloroso de ser refugiado é a falta de noção de país”, disse ela ao The Guardian. “Nenhum lugar é o seu.”

Em 2018, ela soube que havia uma vaga para o cargo de governadora de distrito de Charkint, sua "pátria ancestral”, como a descreve. Incentivada por colegas e familiares, ela se candidatou ao cargo.

Com sua experiência e qualificações, ela estava entre as principais candidatas. Sua determinação de trabalhar para o povo de seu distrito garantiu que ela fosse nomeada logo. “Inicialmente, fiquei preocupada com a possibilidade de ser discriminada, como governadora, mas as pessoas me surpreenderam”, diz ela. “No dia em que fui oficialmente recebida em Charkint como governadora, fiquei impressionada com o apoio.”

Poucas mulheres saem de casa no Afeganistão sem um hijab completo ou uma burca, ou um homem como guardião. Assumir o papel de governadora de distrito não foi uma façanha simples, e ela logo se viu liderando batalhas que não esperava.

“Não temos instalações básicas, como acesso a cuidados de saúde. Para gerenciar a segurança, devemos ter pelo menos sete carros da polícia, dois Humvees equipados com armamento leve e pesado. No entanto, temos muito menos recursos, embora os tenhamos solicitado várias vezes ao governo central. Meus apelos não foram ouvidos ”, diz ela.

Com base em dados fornecidos pelo escritório de governança do distrito afegão, Charkint já teve uma população de mais de 200 mil pessoas, mas a guerra e a pobreza resultante diminuíram significativamente esse número. Mazari sente que Charkint é considerado um distrito de segundo escalão e sua tarefa se torna mais difícil enquanto ela luta contra a corrupção dentro da burocracia afegã.

Dois anos atrás, Mazari estabeleceu uma comissão de segurança que recruta afegãos nas milícias locais para defender o distrito. “Convido pessoas de todas as partes do distrito ao meu escritório e busco sua opinião sobre como melhorar a situação de Charkint. Isso fez com que os residentes de Charkint se envolvessem mais e restaurou sua fé na autoridade governamental”, diz ela.

Avanço do Taleban no Afeganistão

Seu estilo de liderança tem servido bem para ela, até agora, com a renovada violência do Taleban varrendo o país. “Enfrentamos os ataques do Taleban por mais tempo do que o recente surto de violência e conseguimos mantê-los fora de Charkint”, diz, com evidente orgulho. Mazari posicionou suas tropas nos arredores de Charkint na esperança de que os militantes não consigam violar suas defesas.

Nos últimos três meses, os taleban ocuparam extensas zonas rurais, aproveitando a quase total retirada das forças internacionais presentes há duas décadas no Afeganistão.

Metade do distrito de Charkint já está nas mãos dos insurgentes. E Mazari passa a maior parte do tempo tentando recrutar combatentes para defender áreas ainda sob controle do governo.

Centenas de habitantes, de agricultores e pecuaristas a operários, aderiram à causa, mesmo ao custo de perder tudo.

“Nosso povo não tem armas, mas vendeu suas vacas, seus cordeiros e até suas terras para comprá-las”, conta Mazari. “Eles estão na linha de frente dia e noite, sem receber salário, ou reconhecimento”, acrescenta.

De acordo com o chefe da polícia distrital, Sayed Nazir, os 600 milicianos que Mazari conseguiu recrutar são a única razão pela qual os taleban ainda não controlam todo o distrito. “Nosso sucesso se deve ao apoio do povo”, diz o policial, recentemente ferido na perna em combate.

Charkint é o único distrito do Afeganistão sob a gestão de segurança de uma mulher que nenhum grupo terrorista conseguiu ocupar antes. Mas Mazari está ciente de que a situação está piorando rapidamente e está preocupada com seu povo. Na última semana, o Taleban conquistou uma série de províncias e capitais do norte, e os combates ocorreram na província de Balkh.

No ano passado, Mazari negociou com sucesso a rendição de mais de 100 combatentes do Taleban em sua região. Mas essas negociações nem sempre são um sucesso, diz ela.

“Em várias ocasiões, enviamos um comitê em nome de nosso povo para negociar com o Taleban. Tivemos mais de 10 reuniões para pedir a eles que protegessem as vidas, colheitas e propriedades das pessoas. Nosso povo é fazendeiro e depende de sua colheita para o sustento nos meses de inverno. Mas sempre rejeitaram o pedido das pessoas por um acordo", diz.

A crescente reputação de Mazari como uma mulher forte que enfrenta a brutalidade do Taleban colocou sua vida em risco. Ela sobreviveu a várias emboscadas do Taleban, bem como a minas plantadas pelos militantes para atingi-la. “Mas não tenho medo”, diz ela. “Eu acredito no Estado de Direito no Afeganistão.”

Em Charkint, os moradores têm péssimas lembranças do regime taleban, que impôs sua visão ultraconservadora da lei islâmica entre 1996 e 2001. Mazari sabe que, se voltarem ao poder, não vão tolerar uma mulher como governadora.

Sob o jugo dos taleban, as mulheres não podiam sair de casa sem um companheiro do sexo masculino e eram proibidas de trabalhar e estudar. Aquelas acusadas de crimes como adultério eram açoitadas, ou apedrejadas até a morte.

“As mulheres ficarão proibidas de ter uma oportunidade de educação, e nossas jovens ficarão privadas do trabalho”, alerta ela, em seu gabinete, enquanto prepara, com seus líderes, a próxima batalha. / AFP e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.