'A Grã-Bretanha está cada vez mais isolada'

Diplomata descarta opção militar e diz que guerra diminuiu a chance de o país retomar soberania sobre as Malvinas

Entrevista com

DENISE CHRISPIM MARIN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2012 | 03h07

Na madrugada de 2 de abril de 1982, Jorge Arguello foi libertado após dois dias preso pela ditadura argentina. O país havia invadido as Malvinas e declarado guerra à Grã-Bretanha. Atual embaixador da Argentina em Washington, Arguello diz que o conflito só diminuiu as chances de o país retomar a soberania do arquipélago, que a Casa Rosada tenta negociar na ONU. "A opção militar está definitivamente descartada", disse Arguello ao Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista com o embaixador.

Por que a guerra foi desastrosa para a Argentina recuperar a soberania sobre as Malvinas?

Porque antes da guerra, Londres e Buenos Aires se aproximavam de uma negociação bilateral em sintonia com a Resolução 2.065 da ONU, que reconhece ser um caso de "descolonização especial e particular".

Por que a ONU não trata o caso como descolonização comum?

Porque a população das Malvinas foi implantada pelos britânicos após eles desalojaram os habitantes originais. Por ser um caso "especial e particular", a autodeterminação dos povos não se aplica às Malvinas, como ocorreu nas descolonizações dos anos 60 a 80. Nas Malvinas, portanto, está descartada a hipótese de consulta à população.

E como fica o direito à

autodeterminação dos povos?

A Grã-Bretanha é o único país a promover a aplicação indevida do princípio da autodeterminação dos povos. A ONU não reconhece como legítimo nenhum processo de colonização. Não convalida um mecanismo pelo qual um país mais poderoso invade o território de outro, desaloja a população original, injeta sua própria população e, algum tempo depois, pede a esses habitantes para escolher sua nacionalidade.

A Grã-Bretanha não quer negociar. Como mudar essa situação?

Todos os anos, a ONU pede aos dois países para iniciar a discussão. Não lhes diz a qual solução devem chegar. Mas é preciso dois para dançar o tango. E uma das partes se nega. Essa é uma relação de poder. Não só entre Grã-Bretanha e Argentina, mas entre Grã-Bretanha e ONU. Ao longo do tempo, os britânicos usaram vários argumentos para não negociar e manter o status quo.

O que falta para eles negociarem?

Primeiro, a opção militar está definitivamente descartada. Não só porque nos expressamos pela via pacífica como também porque a Argentina deve ser um dos países da América Latina que menos investem em armamentos. Segundo, a Argentina não impõe nenhuma condição para o início da negociação.

A presença militar britânica nas Malvinas responde a uma lógica geopolítica?

Há interesse estratégico de Londres, que controla desde a Ilha de Ascensão até as Malvinas, ou seja, uma porção importante do Atlântico Sul. A base militar está ali mais para assegurar a exploração de recursos naturais - petróleo, pesca, minerais - do que para defender a população. É uma posição a 14 mil km de Londres e a 400 km da Ilha dos Estados, primeira porção do território argentino.

Caso a Argentina recupere a soberania, o que faria com os kelpers?

A Constituição manda o governo argentino preservar e garantir todos os interesses e o modo de vida dos habitantes das Malvinas. Teriam apenas de convergir para o sistema constitucional e legal da Argentina.

A recuperação da soberania pode ocorrer de forma gradual como ocorreu com Hong Kong?

Não descartamos nenhuma hipótese, mas não podemos avançar sobre ideias antes de termos uma mesa de negociação.

Isso é suficiente?

Creio que dará resultado. Talvez não imediato. Mas há crescente isolamento da posição de Londres. Há alguns anos, dizia-se que a demanda argentina estava condenada. Hoje, até países da comunidade britânica no Caribe defendem a negociação.

Os EUA se mantêm neutros. Esse apoio não seria decisivo para a Argentina?

Os EUA deram apoio às negociações. Essa é a posição oficial do Departamento de Estado. O governo americano diz ser neutro apenas sobre a questão de fundo, ou seja, se a soberania é britânica ou argentina. Em 1982, os EUA deram apoio logístico à Grã-Bretanha. Estamos, portanto, diante de uma evolução importante de Washington.

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