A grande aposta democrata

Diferentemente do tempo de Reagan, hoje os democratas irradiam confiança e os republicanos são mais críticos 

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S. Paulo

31 Julho 2016 | 05h00

Vim para os EUA em 1982, atraído pelo país e interessado em sua política. Eram dias de trauma econômico (uma recessão profunda) e medo pela segurança nacional. E eu vinha da Índia, onde a população de modo geral pendia para o antiamericanismo e para um quase socialismo. No entanto, fiquei fascinado por Ronald Reagan e seu Partido Republicano. Reagan parecia incorporar o espírito dos EUA - era otimista, generoso, amante da liberdade.

Os democratas eram bem-intencionados, mas ao apontar as deficiências domésticas e falhas na política exterior, pareciam ignorar o quadro geral - de que os Estados Unidos, não a União Soviética, representavam o futuro. Como as convenções dos dois partidos mostraram nas últimas semanas, o mundo político virou de cabeça para baixo. Hoje são os democratas que irradiam confiança, e os republicanos os críticos de seu país.

As convenções de 1984 foram as primeiras que tive chance de observar. Estava quase hipnotizado. Ficava acordado até tarde num salão da faculdade para ouvir cada discurso. A fala de que melhor me lembro foi uma feita na convenção republicana em Dallas.

Reagan havia designado embaixadora na ONU uma democrata de longa data, Jeane Kirkpatrick, formada na Universidade Georgetown. Ela subiu ao pódio e falou num tom cuidadoso, incisivo, fustigando os democratas com argumentos que hoje se aplicariam facilmente... aos republicanos. Jennifer Rubin, do Washington Post, escreveu recentemente sobre a repercussão desse discurso.

Jeane Kirkpatrick explicou que admirava democratas como Harry Truman porque não se envergonhavam de ver os Estados Unidos como “uma grande nação”. Mas os “democratas de San Francisco”, disse ela, haviam perdido aquela fé instintiva (a convenção democrata daquele ano foi nessa cidade).

Quando Moscou se mostrava hostil, prosseguiu Jane, os democratas preferiam não acusar o Kremlin, mas culpar os EUA. “Eles sempre culpam primeiro os EUA”, afirmou.

Quando americanos foram mortos por terroristas no Líbano, lembrou Jane, os democratas “não culparam os terroristas... culparam os EUA”. E repetiu: “Eles sempre culpam primeiro os EUA”. A frase virou um bordão da campanha. Era exagero, como toda retórica desse tipo, mas capturava um pouco da realidade, como ocorre hoje se aplicada a Donald Trump. Ao falar dos chineses, de ataques terroristas ou de Vladimir Putin, ele não os critica. Em vez disso, tende a apontar falhas americanas - fraqueza, estupidez e ingenuidade de Washington.

A crítica mais séria de Jeane Kirkpatrick naquele discurso cairia ainda melhor sobre o indicado republicano. Ela descreveu o Partido Democrata como se comportando “menos como pombo ou falcão que como avestruz, convencido de que os EUA podem se isolar do mundo escondendo a cabeça na areia”. Jeane rejeitou taxativamente essa atitude. “Os EUA não poderão continuar sendo a sociedade aberta e democrática se forem deixados sozinhos - um Estado se defendendo de um mundo hostil.” Ela perguntou o que aconteceria à Europa se os EUA retirassem sua proteção. “Precisamos de amigos e aliados com os quais possamos compartilhar os prazeres e a proteção de nossa civilização”, afirmou.

O sucesso de Reagan, explicou ela, vem de três fatores: “confiança na legitimidade e sucesso das instituições americanas; confiança na decência do povo americano; e confiança na relevância de nossa experiência para o restante do mundo”.

O partido de Trump é diferente, caracterizado por dúvidas, sentimento de decadência e medo do futuro. “Este país é uma desgraça. Estamos afundando rapidamente”, diz ele. Em contraste, um equilibrado e confiante presidente Obama e sua mulher, Michelle, lembraram a seu partido, a seu país e ao mundo que “os Estados Unidos já são grandes”.

Especialistas em pesquisas e analistas assinalam que uma grande maioria acha que o país está “no caminho errado” e, nessas circunstâncias, otimismo não funciona. Essa sensação de desânimo explicaria o sucesso de Trump, e também de Bernie Sanders.

Mas Hillary Clinton e Barack Obama estão apostando pesado em que essa tendência não é nem profunda nem permanente. Eles investem na esperança de que os americanos não estejam raivosos a ponto de abraçar uma política de declínio e divisionismo. Estão seguindo o caminho de Franklin Roosevelt. Mesmo no auge da Depressão, e às vésperas da guerra, Roosevelt sempre acreditou que a maioria dos americanos queria um país assertivo quanto a seus propósitos e confiante no futuro. Esse era o Partido Democrata que Roosevelt construiu e, na maior parte, o que esteve no palco na Filadélfia em julho.

É preciso lembrar que nos últimos 44 anos, como apontou Dean Obeidallah, houve apenas três breves períodos em que a maioria dos americanos entendeu que o país estava no rumo certo. Em 1980, por exemplo, uma grande maioria achava que as coisas estavam despencando. Quatro anos depois, estava convencida de que os EUA vinham despertando. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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