A grande ausente no mundo

Falta de coerência entre os 28 membros da União Europeia resulta em grande vazio global

Fareed Zakaria , The Washington Post/O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2014 | 02h01

A crise da Ucrânia lançou um raio de luz sobre uma das lacunas gritantes do mundo atual: a inexistência de uma Europa estratégica e resoluta. Os Estados Unidos podem e devem liderar a resposta ao conflito, mas nada pode realmente acontecer sem a Europa.

A União Europeia (UE) é, de longe, a maior parceira comercial da Rússia, compra boa parte da energia vendida por Moscou, é a maior investidora em companhias russas e o principal destino do capital russo. Alguns críticos do presidente dos EUA, Barack Obama, querem que ele repreenda Vladimir Putin. No entanto, são as ações europeias que mais preocuparão o presidente russo.

Considerem a maneira como a Europa lidou com a Ucrânia. Durante anos, ela não conseguiu realmente se decidir se queria encorajar o ingresso da Ucrânia na UE, por isso enviou sinais confusos a Kiev, que tiveram o efeito inicial de decepcionar os ucranianos pró-europeus, irritar os russos e confundir todos os demais.

Em 2008, depois que Moscou enviou tropas à Geórgia, a Europa prometeu uma "parceria" para os países ao longo da faixa oriental da Europa. Mas, como assinalam Neil MacFarlane e Anand Menon, na edição atual da publicação Survival, "a parceria oriental foi um exemplo clássico da propensão da UE para responder a eventos de longo prazo e retoricamente sugestivos, mas pouco significativos para a política atual".

Os líderes europeus estavam começando a cortejar a Ucrânia sem reconhecer como isto seria percebido na Rússia. Moscou tinha seus próprios planos para uma união alfandegária, que seria sucedida por uma União Eurasiana e serviria como um contraponto à UE. A Ucrânia era vital para os planos da Rússia e, ao mesmo tempo, dependia do gás natural barato fornecido por Moscou. De mais a mais, os ucranianos estavam divididos entre a aproximação com o leste ou com o oeste.

As negociações entre a UE e a Ucrânia se arrastaram, com advogados e tradutores precisando de um ano para elaborar o texto. Ao descrever esse atraso como um "erro", o chanceler polonês Radoslaw Sikorski disse: "O mesmo se aplica à União Europeia e ao Vaticano. Os moinhos de Deus moem lentamente, mas com segurança."

O acordo que foi oferecido à Ucrânia era cheio de exigências de reformas e reestruturação da economia corrupta, mas tinha pouco em matéria de ajuda para aparar os golpes e aumentar as apostas. Quando o então presidente Viktor Yanukovich rejeitou a oferta da Europa e se alinhou a Moscou, ele pôs em movimento um jogo de alta velocidade e altas apostas que a Europa estava absolutamente despreparada para enfrentar e não poderia responder.

Se a Europa estava tentando trazer a Ucrânia para o seu campo de influência, ela deveria ter sido mais generosa com Kiev e negociado seriamente com Moscou para aplacar seus temores. Em vez disso, pareceu agir quase sem atentar para as consequências estratégicas de seus atos. Depois, quando a Rússia começou uma campanha para desestabilizar a Ucrânia - que persiste até hoje - a Europa continuou um passo atrás, internamente dividida e sem vontade de se afirmar clara e rapidamente. Essas mesmas qualidades se manifestaram depois da derrubada do voo MH17 da Malaysia Airlines.

A União Europeia ainda tem uma chance de enviar um sinal mais claro à Ucrânia, à Rússia e ao mundo. Ela pode cobrar da Rússia que pressione os separatistas para cooperarem plenamente com a investigação sobre o MH17 e permitirem que o governo ucraniano assuma o controle de seu próprio território oriental. Ela poderia apresentar uma lista de sanções específicas que seriam implementadas se essas condições não forem atendidas num prazo, por exemplo, de duas semanas.

Além disso, a Europa deveria anunciar planos de longo prazo em duas frentes. Primeiro para conseguir uma maior independência energética do petróleo e do gás russos. As nações europeias também precisam reverter uma espiral descendente de duas décadas nos gastos com defesa que transformaram a UE num tigre de papel em termos geopolíticos.

A Alemanha, por exemplo, usou cerca de 1,5% de seu PIB em defesa - está entre os níveis mais baixos da Europa -, bem abaixo dos 2% que é a meta de todos os membros da Otan. É difícil ter voz ativa e ser temido quando se fala manso e carrega um graveto.

O problema está começando a ser descrito como covardia e tendência à conciliação da Europa. Ele é melhor explicado por uma falta de coerência entre os 28 países do bloco, muito diferentes entre si, uma falta de direção estratégica e uma orientação paroquial que espera que os problemas mundiais se desfaçam. O resultado é um grande vazio global, com consequências terríveis.

Se olharmos para trás daqui a alguns anos e nos perguntarmos por que a ordem internacional liberal com base em regimes abertos se enfraqueceu e erodiu, poderemos perfeitamente observar que um problema crucial foi que o grupo político e econômico mais poderoso do mundo, a União Europeia, com uma população e uma economia maiores que as dos Estados Unidos, foi a grande ausente no cenário internacional.

*Fareed Zakaria é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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