A grande disputa de hoje

Com o fim da Guerra Fria, antagonismo na política global agora é entre os capitalismos democrático e de Estado

David Brooks, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2010 | 00h00

Neste momento, estamos chocados com a guerra entre a British Petroleum (BP) e o governo dos EUA. Trata-se, porém, de um conflito conhecido. De um lado, uma multinacional que procura o lucro; de outro, o governo que tenta regular a companhia e responsabilizá-la por seus atos.

Na realidade, é uma briga de família e ocorre em meio a um conflito muito mais amplo. Nessa disputa mais ampla, BP e o governo americano pertencem ao mesmo time.

O confronto começou com o fim da Guerra Fria. Aquele conflito ideológico pretendia definir se o capitalismo era o melhor sistema econômico. Mas não definiu se o capitalismo democrático era o melhor sistema sócio-político-econômico. Em vez disso, deixou o mundo dividido em dois campos distintos.

Em um canto, estão os que acreditam no capitalismo democrático - campo que vai dos EUA à Dinamarca e Japão. Nele, as pessoas acreditam que as empresas têm a função de criar riqueza e elevar o padrão de vida, enquanto governos existem para regulamentá-los quando necessário e estabelecer um nível de igualdade para o funcionamento da economia. Funcionários do governo, o presidente Barack Obama e trabalhadores do setor privado, como os executivos da BP, pertencem a esse campo.

No outro canto, estão os que rejeitam o capitalismo democrático por acreditar que leva ao caos, às bolhas, à exploração e a graves crises. Em seu lugar, eles defendem o capitalismo de Estado. Representantes desse campo governam Rússia, China, Arábia Saudita, Irã, Venezuela e muitos outros países.

Alguns especialistas começaram a analisar o capitalismo de Estado. Um dos estudos mais claros e mais abrangentes é The End of the Free Market (O fim do livre mercado, numa tradução literal), de Ian Bremmer.

O autor ressalta que, no capitalismo de Estado, os governos autoritários usam os mercados "para criar a riqueza, que pode ser orientada da maneira que os líderes consideram a mais adequada". Sua finalidade principal, afirma, "não é (a maximização do crescimento) econômico, mas a maximização política (do poder do Estado e das possibilidades de sobrevivência da liderança)". No capitalismo de Estado, as empresas estatais existem para ganhar dinheiro e financiar a classe dominante.

O contraste é mais claro no setor de energia. No mundo capitalista democrático temos as companhias petrolíferas, como Exxon Mobil, BP e Shell, que ganham dinheiro para os acionistas. No mundo capitalista de Estado, há as empresas controladas pelo governo, como Gazprom, Petrobrás, Saudi Aramco, Petronas, Petroleos de Venezuela (PDVSA), China National Petroleum Corporation e a National Iranian Oil Company. Elas criam a riqueza para as camarilhas políticas, e estas, por sua vez, se respaldam no poder do Estado.

Disputa interdependente. Por terem essa vantagem, as companhias estatais da área de energia esmagam sistematicamente as empresas privadas do setor. Nos EUA, usamos a expressão Big Oil para descrever a Exxon Mobil, BP, Royal Dutch Shell e outras. Mas isso mostra apenas como somos limitados. De fato, nenhuma destas companhias privadas está na lista das 13 maiores empresas de energia do mundo. Uma geração atrás, as maiores multinacionais produziam muito mais do que a metade do petróleo e gás do mundo. Agora, segundo Bremmer, produzem 10% e detêm apenas cerca de 3% das reservas mundiais.

A rivalidade entre o capitalismo democrático e o capitalismo de Estado não é como a rivalidade entre capitalismo e comunismo. É uma rivalidade interdependente. As empresas capitalistas estatais investem consideravelmente em empresas capitalistas democráticas (mas não costumam investir umas nas outras). Ambas as partes dependem uma da outra em redes comerciais que se entrecruzam.

Não entanto, há rivalidade, uma rivalidade em termos de prestígio.

Que sistema funciona melhor para proporcionar segurança e crescimento? Que sistema as nações democráticas emergentes e problemáticas deveriam querer?

Há também uma rivalidade a respeito das normas que deveriam reger a ordem mundial. Países como a Rússia deveriam poder deixar de vender o gás para a Europa Ocidental para estabelecer uma posição política? Os governos deveriam poder alterar o campo de atuação para beneficiar campeões nacionais bem relacionados? Regimes autoritários, como o Irã, deveriam poder chegar à bomba nuclear? Nós, no mundo democrático, pressupomos em geral que o capitalismo de Estado não poderá prosperar para sempre. Companhias inovadoras não podem prosperar, a não ser que haja também um livre intercâmbio de ideias. Uma economia com base na alta tecnologia exige uma destruição criativa maior do que um governo autoritário pode tolerar. O favoritismo inevitavelmente mina a eficiência.

Sistema viável. Tudo isso é verdade. Mas o capitalismo de Estado pode ser o único sistema viável nas sociedades em que o grau de confiança é baixo, em países em que o poder descentralizado descamba para o gangsterismo.

Além disso, os regimes democráticos têm mostrado recentemente seus pontos vulneráveis: a tendência a fazer promessas impossíveis de ser cumpridas aos idosos e a outros grupos politicamente poderosos; a tendência à polarização, que imobiliza os governos até mesmo diante de problemas devastadores.

No mundo democrático, não temos nenhum direito a sermos otimistas. O capitalismo de Estado explora profundas paixões nacionalistas e oferece uma segurança em termos psicológicos aos que detestam o estardalhaço do capitalismo moderno. Portanto, enquanto brigam, espero que Obama e a BP preocupem-se com o contexto mais amplo.

Precisamos de saudáveis empresas privadas de energia, e ao mesmo tempo precisamos, gradativamente, deixar de lado o petróleo e o gás - os produtos que financiaram o surgimento de um capitalismo estatal agressivo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É COMENTARISTA POLÍTICON

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