A grande jogada do premiê russo

Os detalhes sobre quem teria feito o que para provocar a guerra da Rússia contra a Geórgia não são de grande importância. Quem se lembra dos detalhes da crise nos Sudetos que levou à invasão da Checoslováquia pela Alemanha nazista? Ninguém, é claro, pois essa disputa é lembrada como um ato menor de um drama muito mais amplo. Os eventos da semana passada serão lembrados da mesma maneira. Esta guerra não começou por causa de um erro de cálculo do presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili. É uma guerra que Moscou tenta provocar já há algum tempo. O homem que certa vez chamou o colapso da União Soviética de "a maior catástrofe geopolítica do século " restabeleceu um virtual regime czarista na Rússia e está tentando restaurar o papel antes dominante do país no palco da Eurásia e do mundo. Armado com riquezas provenientes do petróleo e do gás; mantendo um quase monopólio sobre o fornecimento de energia para a Europa; contando com um milhão de soldados, milhares de ogivas nucleares e o terceiro maior orçamento militar do mundo, Vladimir Putin acredita que agora é a hora de fazer sua jogada. O infeliz destino da Geórgia é estar no limiar do abismo geopolítico que marca a fronteira russa ocidental e sul-ocidental. Desde o Báltico ao norte passando pela Europa Central e pelos Bálcãs até o Cáucaso e a Ásia Central, uma disputa de poder geopolítico emergiu entre uma Rússia ressuscitada e revanchista de um lado e a União Européia e os Estados Unidos do outro. A agressão de Putin contra a Geórgia não deve ser atribuída somente às aspirações do pequeno país de ingressar na Otan ou ao mal-estar provocado no primeiro-ministro russo pela independência de Kosovo. Ela é, antes de mais nada, uma resposta às "revoluções coloridas" ocorridas na Ucrânia e na Geórgia, em 2003 e 2004, quando governos pró-Ocidente substituíram regimes pró-Rússia. Aquilo que o Ocidente celebrou como florescimento da democracia foi visto pelo autocrático Putin como um cerco geopolítico e ideológico. Desde então, Putin mantém-se determinado a impedir e, se possível, reverter a tendência pró-Ocidente junto às suas fronteiras. Ele busca não apenas impedir a inclusão de Geórgia e da Ucrânia na Otan como também trazê-las para o alcance do controle russo. Além disso, ele tenta abrir espaço para uma zona de influência dentro da Otan, com um status de segurança reduzido para os países que fazem fronteira com a Rússia, principalmente nos seus flancos estratégicos. Este é o principal motivo por trás da oposição de Moscou à instalação dos sistemas antimísseis dos EUA na Polônia e na República Checa. Sua guerra contra a Geórgia faz parte de uma estratégia maior. Putin está tão preocupado com alguns milhares de ossétios do sul quanto com os sérvios de Kosovo. Declarações de compaixão pan-eslávica são pretextos que têm o objetivo de difundir o nacionalismo russo e expandir o poderio da Rússia no exterior. HUMILHAÇÃOInfelizmente, tais táticas parecem funcionar invariavelmente. Enquanto os bombardeiros russos atacam portos e bases militares na Geórgia, os europeus e os americanos, incluindo funcionários de alto escalão no governo Bush, culpam o Ocidente por se exceder nas provocações à Rússia sobre um grande número de questões. É verdade que muitos russos se sentiram humilhados pelo modo com que terminou a Guerra Fria, e Putin convenceu a muitos de que a culpa da rendição russa ao Ocidente era de Boris Yeltsin e dos democratas russos. Este clima lembra a Alemanha após a 1ª Guerra Mundial, quando os alemães se queixavam da "vergonhosa derrota de Versailles" imposta pelas potências vitoriosas sobre uma Alemanha prostrada e dos políticos corruptos que apunhalaram o país pelas costas. Agora, como naquela época, esse sentimento é compreensível. No entanto, agora, como naquela época, ele está sendo manipulado para justificar a autocracia doméstica e para convencer as potências ocidentais de que a acomodação - ou, para empregar um termo que já foi respeitável, a conciliação - é a melhor medida. Mas a realidade é que, com relação à maioria desses problemas, é a Rússia, e não a Geórgia, quem está provocando. Foi a Rússia quem desafiou a autonomia de Kosovo, um lugar onde Moscou não teria interesses perceptíveis para além da já declarada solidariedade pan-eslávica. Foi a Rússia quem decidiu transformar o pequeno destacamento de um punhado de aviões defensivos interceptadores na Polônia, que jamais poderia ser usado contra o vasto arsenal de mísseis russos, em uma grande confrontação geopolítica. E foi a Rússia quem precipitou uma guerra contra a Geórgia ao encorajar os rebeldes ossétios do sul a aumentar a pressão sobre Tbilisi e fazer exigências que nenhum líder da Geórgia poderia aceitar. Se Saakashvili não tivesse caído na armadilha de Putin desta vez, algum outro pretexto teria detonado o conflito. Diplomatas na Europa e em Washington acreditam que Saakashvili cometeu um erro ao mandar soldados para a Ossétia do Sul na semana passada. Talvez. Mas seu erro verdadeiramente monumental foi o de ser presidente de uma nação pequena, em sua maioria democrática e insistentemente pró-Ocidente na fronteira da Rússia de Putin. Os historiadores analisarão o 8 de agosto de 2008 como um ponto de inflexão tão importante quanto o 9 de novembro de 1989, quando caiu o Muro de Berlim. O ataque russo contra o território soberano da Geórgia marcou o retorno oficial da história e nos termos de uma competição entre superpotências digna do século 19, com o pacote completo que inclui nacionalismos virulentos, batalhas por recursos, disputas por esferas de influência e território, e até mesmo - apesar de chocante para nossa sensibilidade do século 21 - o uso do poderio militar para concretizar objetivos geopolíticos. Sim, a globalização continua, assim como a independência econômica, a União Européia e outros esforços pela construção de uma ordem internacional mais aperfeiçoada. Mas tudo isso terá de competir com as duras realidades da vida internacional que perduram desde tempos imemoriais, e por vezes ser subjugado por elas . É melhor que o próximo presidente dos EUA esteja pronto para isto. *Robert Kagan, pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace, é colunista do ?Washington Post?. Seu livro mais recente é ?The Return of History and the End of Dreams? (O retorno da História e o fim dos sonhos).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.