A grande narrativa global de nossa era

Os EUA, criadores, executores e mantenedores do sistema internacional existente se retiram para o isolamento autocentrado

Fareed Zakaria* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2018 | 05h00

Daniel Kahneman, que ganhou o Prêmio Nobel de Economia por reformular nosso entendimento sobre as motivações humanas, disse uma vez: “Nunca ninguém tomou uma decisão por causa de um número. As pessoas precisam de uma história”. Isso é verdadeiro para indivíduos e para nações. Os países sempre se orientam por um panorama internacional maior. Qual o panorama global da atualidade?

Durante décadas, vigorou a história determinada pela Guerra Fria. Quase todas as nações agiam ou reagiam em função dessa grande luta ideológica, política e militar. Então, veio 1989 e o colapso do comunismo. Pelos 20 anos seguintes, a globalização tornou-se a tendência dominante, com os países competindo para se tornarem mercados atraentes e o capitalismo democrático ocidental parecendo reinar absoluto, capitaneado pelo poder e prestígio dos EUA. O 11 de Setembro foi um duro golpe nesse quadro estável e, por um tempo, o terror islâmico pareceu abalar o curso da história. Mas o terrorismo era fraco e limitado para determinar a narrativa global.

Assim, qual é o panorama atual? Eu diria que a maior tendência hoje é o declínio da influência americana. Não o declínio do poder dos EUA - o país continua imbatível econômica e militarmente -, mas um declínio do desejo e da capacidade de usar esse poder para redesenhar o mundo. O atual governo parece empenhado em desmantelar as grandes realizações dos EUA, ou simplesmente desinteressado em decidir a agenda mundial. Donald Trump é o primeiro presidente em quase um século a terminar o primeiro ano no poder sem ter oferecido um jantar oficial a um chefe de Estado estrangeiro. E essa erosão na liderança global americana já começa a levar outros países a se reajustarem.

No início de dezembro, o ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, declarou que “as transformações importantes que afetam o mundo todo” decorrem “do afastamento dos EUA de Trump de seu papel de garantidor confiável do multilateralismo sob influência ocidental”. Essa mudança, disse o diplomata, “vem acelerando a modificação da ordem global (...) com o aumento do risco de guerras comerciais e conflitos armados”.

O problema para a Europa, disse Gabriel, é quase existencial. Segundo ele, desde a 2ª Guerra a Europa tem sido um projeto dos interesses claramente delineados dos EUA. No entanto, o atual governo americano vê a Europa de um modo muito distante, tomando antigos parceiros por competidores e às vezes pelos maiores rivais econômicos”. O ministro instou a Europa a tomar seu futuro nas mãos e separar-se da política exterior americana.

Consideremos também o discurso de junho da chanceler canadense, Chrystia Freeland, no qual ela agradeceu aos EUA pela administração por sete décadas do sistema internacional, mas considerou que, sob o governo Trump, a liderança americana desse sistema havia chegado ao fim.

Já o presidente chinês, Xi Jinping, fez um pronunciamento no 19º Congresso do Partido Comunista, em outubro, refletindo sua própria visão dessas novas realidades. “A importância da China está maior que nunca”, assinalou, com o país “mostrando uma nova rota para que outras nações em desenvolvimento cheguem à modernização”. Xi anunciou “uma nova era na qual a China caminha para o palco central e dá grandes contribuições à humanidade”. Em discursos anteriores ele já havia sugerido que a China se tornaria o novo garantidor da ordem comercial global.

Essa é, pois, a história global de nossa época. O país criador, executor e mantenedor do sistema internacional existente está se retirando para um isolamento autocentrado. A Europa, outra grande defensora e sustentáculo de um mundo aberto com base em regras, foi incapaz de atuar no atual cenário mundial, com uma clara visão ou propósito, e continua obcecada com o futuro de seu próprio projeto continental. Preenchendo o vácuo de poder, um grupo de potências menores, não liberais - Turquia, Rússia, Irã, Arábia Saudita -, vem crescendo em suas respectivas regiões. Mas apenas a China tem verdadeiramente condições e força estratégica para definir o novo capítulo da história de nossos tempos.

Há uma década, falei de um “mundo pós-americano”, surgido não pelo declínio dos EUA, mas “pela ascensão dos outros”. Esse mundo está de fato se consolidando. As mudanças, porém, são dramaticamente aceleradas pela decisão tola e autodestrutiva da administração Trump de abrir mão da influência global americana - algo que levou mais de 70 anos para ser edificado. “É triste”, poderia tuitar o presidente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

* FAREED ZAKARIA É COLUNISTA

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