A grande ruptura

Crise econômica foi sentida em todo o país, mas é nos piores momentos que os EUA descobrem uma característica própria: tempos difíceis criam respostas coletivas

Peter Goodman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

Em um café da periferia de Portland, uma dúzia de pessoas em sofás esfarrapados observa a tela de seus laptops, que projeta um brilho azul em seus rostos pálidos. Elas procuram empregos na internet, servindo-se da conexão gratuita, enquanto passam outra tarde nublada no escritório temporário de nossa era.

Atualmente, cenas como essa são vistas em todas as cidades americanas, das docerias de Charlotte até as lanchonetes vegetarianas de Austin. Tornou-se algo comum, como as pilhas de móveis diante de casas confiscadas pela execução hipotecária. São uma melancólica prova da fome nacional por salários, um sinal claro da calamidade americana.

Ainda assim, a cena sugere a resistência de uma força que os americanos gostam de ressaltar como característica sua: tempos difíceis criam uma resposta coletiva. O pior declínio econômico desde a Crise de 1929 transformou lanchonetes em gabinetes de assistência a desempregados. As pessoas trocam dicas sobre quem está contratando e quais os melhores lugares para divulgar currículos.

Nos últimos três anos, enquanto explorei as consequências do declínio nas áreas mais atingidas do país, fui muitas vezes arrebatado pelas contradições que estavam em jogo, visões concorrentes de divisão e solidariedade. Mais de 230 anos após o início do experimento americano, parece que há uma batalha sendo travada pela identidade do país, uma disputa para definir os valores que governarão o que quer que se siga à Grande Recessão.

Muitas pessoas perderam a fé nas instituições, desde o Congresso até a Goldman Sachs. Ainda assim, sob a amargura que permeia as questões nacionais, uma tênue crença no bem coletivo ainda sobrevive, possivelmente moderando o estado generalizado de abatimento.

Quem somos nós? Essa pergunta surge conforme os americanos tentam obter respostas satisfatórias para si mesmos, recuperando identidades roubadas pelo declínio. A recessão transformou os donos de casa própria com crédito na praça em delinquentes. Profissionais que iam todos os dias para o trabalho tornaram-se desempregados. "Tudo o que quero é minha vida de volta." Versões diferentes dessa frase chegam com frequência ao meu caderno.

Em Cleveland, uma ex-proprietária contou que acampava no carro após ter perdido a casa. Em Newton, Iowa, um homem que transformava aço em geladeiras foi às lágrimas ao descrever sua incapacidade de proporcionar atendimento médico para o filho doente depois de ter perdido o emprego. Em Portland, uma executiva desempregada lutava para mandar a filha adolescente para a faculdade.

Outra frase recorrente: "Nunca me imaginei como alguém que se vê obrigado a recorrer aos serviços públicos." Foi o que disse uma balconista demitida em Tucson, que pensava em se inscrever nos programas de assistência social. Seu comentário ecoava o de um ex-consultor de hipotecas, que agora frita bacon em um restaurante da Califórnia.

Há tanta coisa em um estado tão claro de desordem que o desastre parece banal. Diante de centros comerciais vazios no sul da Califórnia, pessoas fantasiadas de gorila agitam placas para os carros que passam, anunciando a única indústria local em crescimento: "dinheiro em troca de ouro". Em Phoenix, outdoors nas vias expressas anunciam falências pelo telefone, sugerindo que a eliminação das dívidas seja tão corriqueira quanto pedir uma pizza.

Em Boise, Idaho, Elias Campos, carpinteiro demitido, lembra-se de receber, no ano passado, um telefonema de seu banco prometendo reduzir os juros do cartão de crédito. Tudo o que ele precisava era mostrar um holerite recente. "Respondi que não tinha nada do tipo." Em Cape Coral, Flórida, onde o marketing pretendia transformar quilômetros de canais em uma Veneza do Golfo do México, uma placa trazia uma atualização da história: "Imóveis a ótimos preços, penhorados pela hipoteca."

Casas tomadas pela execução hipotecária dominam as ofertas locais de imóveis a ponto de os corretores terem organizado passeios de ônibus dedicados à compra de propriedades. A simples existência de um empreendimento como este evidencia o quanto a inclinação americana para o desenvolvimento tirou a economia do prumo.

Os americanos são dados a excessos. Parece impossível contestar isto. Acreditar em fantasias, na riqueza incalculável oferecida pela nova economia, nas recompensas ilimitadas do mercado imobiliário. Ainda assim, somos pragmáticos e oportunistas, no melhor e no pior dos sentidos, um povo inclinado a transformar em algo melhor os resquícios de uma insensatez anterior.

Isto pode ser observado nas antes esquecidas regiões centrais das principais cidades americanas, um universo que apresentou melhorias como reação ao dispendioso movimento em direção aos subúrbios. Denver pode ser um sinônimo de expansão urbana, mas antigos armazéns de tijolo no centro da cidade foram recentemente transformados em condomínios e restaurantes ao redor de um dos estádios de beisebol mais simpáticos do país.

Em Detroit, fala-se em reinventar bairros inteiros perdidos para a decadência. Vilas urbanas podem ser ligadas por ciclovias, ressaltando o papel desempenhado pelo transporte sobre duas rodas numa cidade cujo desenvolvimento e subsequente declínio estão associados à indústria automobilística. Em Toledo, Ohio, cidade que cresceu produzindo vidro para carros, as fábricas estão procurando um ramo mais lucrativo: a produção de painéis solares.

A fé nas grandes instituições sofreu uma clara erosão. Ainda assim, em muitas comunidades, outras instituições ocuparam esse espaço. Em Columbia, Carolina do Sul, a polícia se cansou das confusões que ocorriam em casas abandonadas pela execução hipotecária: adolescentes embriagados, ocupação de moradores de rua. Eles desistiram de convencer os proprietários legais - bancos de Seattle e Nova York - a arrumar a bagunça. Então, os policiais entraram nos imóveis com placas de compensado de madeira e pregos, lacrando os principais polos de atividade ilegal.

Em San Mateo, Califórnia, uma organização chamada Casa Samaritana reconheceu que o número de pessoas nos abrigos para moradores de rua estava aumentando simplesmente porque elas não podiam mais arcar com o aluguel. A agência começou a distribuir contribuições para pagá-lo. Posteriormente, o governo federal deu início a um programa parecido.

Em algumas comunidades, o declínio rompeu o tecido social, acentuando as divisões. Em um centro para desempregados de Orange County, Califórnia, seis pessoas se reuniram para debater a data do vencimento de seu seguro-desemprego. A maioria tinha trabalhado no setor financeiro. Uma delas era corretora de ações com renda anual de US$ 250 mil. Outra ganhava US$ 60 mil anuais como assistente executiva de uma revendedora da Jaguar. Muitas eram donas de imóveis.

Quase todas concordavam que os imigrantes ilegais estavam entre os principais responsáveis pela dificuldade enfrentada por elas para encontrar outro emprego. Que tipo de emprego elas estavam procurando? "Aceitaria um emprego de jardineira", disse uma mulher de 58 anos que ganhava US$ 24 por hora como gerente de escritório. "Mas há milhões de imigrantes ilegais na Califórnia e eles estão roubando nossos empregos."

Uma longa lista de fatores explica o que houve com a economia para que bons profissionais se vejam agora desprezados a ponto de terem negada a oportunidade de limpar banheiros. Para um estudante de macroeconomia, os imigrantes ilegais parecem um fator de menor importância, ocupando uma posição muito abaixo do fraco aumento nas posições de trabalho no longo prazo e do quase colapso do sistema financeiro.

Relação difícil. Mas, para os desempregados, os imigrantes ilegais são a explicação mais fácil. Era possível vê-los nas esquinas, à espera de trabalho. Estavam amontoados em casas alugadas. O desemprego é desorientador. Os imigrantes ilegais eram a única causa que morava na casa vizinha. Ainda assim, viajar pelos EUA nesta era de insegurança é maravilhar-se com a fé em algum tipo de sistema maior.

Em uma farmácia Duane Reade, no Brooklyn, um balconista negro queixou-se de não ter sido avisado sobre a venda da rede para a Walgreen"s. "Eu e meus colegas só ficamos sabendo pelos jornais", disse ele, mostrando mágoa na voz. Hoje, as empresas mudam de proprietário como fichas de pôquer em um cassino.

Trabalhadores de baixa renda não são mais difíceis de adquirir ou de descarregar do que um caixote de papel. Mas, apesar de tudo, esse jovem estava ofendido porque supôs algo diferente: um relacionamento de quase parentesco com seu patrão. É difícil saber se o sentimento dele seria motivo de tristeza ou de inspiração, pois, mesmo nas profundezas da força de trabalho americana, a fé em um empreendimento conjunto sobrevive. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA DE NEGÓCIOS

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