A grande surpresa da eleição israelense

Análise: Samuel Feldberg

É DOUTOR EM CIÊNCIAS POLÍTICAS PELA USP, GRADUADO PELA UNIVERSIDADE DE TEL-AVIV. ATUALMENTE, DESENVOLVE ATIVIDADES ACADÊMICAS EM ISRAEL, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2013 | 02h03

O resultado das eleições de terça-feira em Israel traz como grande surpresa o fortalecimento do partido de centro de Yair Lapid, que obteve em torno de 15% dos votos. Binyamin Netanyahu enfrentará agora o desafio da pulverização do centro; os partidos de direita em conjunto com os religiosos podem criar uma frágil coalizão, que somente poderia ser fortalecida com a inclusão de Tzipi Livni, que abandonou o Kadima e criou um novo partido de centro (Hatnua) que recebeu em torno de 6% dos votos, ou do Avoda, que se transformou no terceiro maior partido com 14% dos votos.

Já Lapid declarou repetidas vezes que não participaria de uma coalizão que incluísse os partidos religiosos.

O perfil da coalizão que será formada determinará o comportamento do futuro governo e sua probabilidade de sobreviver aos quatro anos de um mandato regulamentar. Na campanha, os partidos de centro e de esquerda optaram por não transformar as questões de segurança nacional e política externa em plataformas políticas - ou apelaram por uma retomada das negociações com os palestinos, mas sem oferecer propostas concretas para sua implementação. E, surpreendentemente, desde a apresentação de Netanyahu na ONU, o Irã quase não foi mencionado.

No entanto, serão esses os temas que definirão o próximo governo: como será vista a ameaça do Irã e como serão tratadas as diferenças com os EUA, as possíveis (mas improváveis) negociações com os palestinos e, não menos importante, como será administrado orçamento militar, numa era de protestos que levaram às ruas multidões preocupadas com os preços do iogurte.

Netanyahu governou até hoje combinando valores patrióticos, política externa agressiva e economia de mercado, muito semelhante ao neoconservadorismo do governo de George W. Bush. Mas a situação econômica demonstra as contradições, embasadas em um déficit de mais de US$ 10 bilhões, que terá de ser compensado num momento em que os EUA de Barack Obama já dão sinais de uma possível repetição do confronto que levou ao congelamento das garantias americanas durante os governos de Yitzhak Shamir e George Bush (pai).

Um governo formado pelos partidos de direita, aliados aos religiosos, provavelmente se oporia a uma retomada das negociações com os palestinos, ainda que mesmo um governo de centro-direita poderia somente pretender fazê-lo. Uma parte da população israelense certamente apoia uma posição firme em relação aos palestinos, refletida nos 10% dos votos do Bayit Yehudi, partido que prega praticamente a anexação da Cisjordânia, negando a criação de um Estado palestino independente, e visto por muitos como a expressão das verdadeiras ideias de Netanyahu.

Em nada colabora a situação no entorno de Israel, com a Síria se desintegrando, a atuação da Al-Qaeda na África - incluindo o Sinai de um Egito agora governado pela Irmandade Muçulmana - e um Hamas fortalecido, que consegue encerrar um confronto armado com Israel obtendo vantagens significativas.

A maioria dos analistas estima que, como consequência desse impasse, eclodiria uma terceira Intifada, nas quais se utilizariam elementos não armados de resistência civil muito mais difíceis de serem contidos. A reação dos Estados Unidos e da Europa teria reflexos imediatos, tanto na situação econômica de Israel quanto na disposição dos até agora aliados israelenses de engajar todos os esforços na oposição ao programa nuclear iraniano.

Talvez a hora da verdade de Netanyahu tenha chegado. Num mundo em transformação, com os EUA caminhando na direção da independência energética e voltando-se para a Ásia, o novo governo israelense não poderá se dar o luxo de ignorar a opinião de seus aliados. Por mais que seu interesse supremo seja o de se manter no poder.

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