A grande vergonha da China

O Grande Salto para a Frente estabeleceu metas ambiciosas sem os recursos para cumpri-las

É JORNALISTA CHINÊS, AUTOR DE TOMBSTONE, YANG, JISHENG, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA CHINÊS, AUTOR DE TOMBSTONE, YANG, JISHENG, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h06

Foram 36 milhões de pessoas, incluindo meu tio, que me educou como filho, que morreram de inanição entre 1958 e 1962, durante uma calamidade provocada pela ação humana, conhecida como a Grande Fome. Em milhares de casos, pessoas desesperadamente famintas recorreram ao canibalismo.

Depois de 50 anos a fome ainda não pode ser mencionada livremente no lugar onde ocorreu. Meu livro Tombstone! (Memorial) só pode ser publicado em Hong Kong, no Japão e no Ocidente. Continua proibido no continente chinês, onde a amnésia histórica predomina e o controle da informação e expressão pelo governo ficou mais rigoroso no 18.º Congresso Nacional do Partido Comunista, encerrado na quarta-feira com mudanças na liderança que ocorrem a cada década.

Aqueles que negam que a fome existiu, como um executivo do jornal Diário do Povo afirmou recentemente, desfrutam da liberdade de expressão, apesar de suas alegações estúpidas de que foram "três anos de desastres naturais". Mas nenhuma epidemia, inundação ou terremoto provocou tamanho horror durante aquele período.

A pergunta: por que o governo chinês não permite que a pura verdade seja dita, já que as medidas econômicas adotadas por Mao Tsé-tung foram abandonadas nos anos 70 em favor da liberalização, e os alimentos passaram a existir em abundância desde então?

Legado. A razão é política: expor plenamente o fato pode corroer a legitimidade de um partido no governo que se agarra ao legado político de Mao, embora este legado, um sistema comunista totalitário, tenha sido a causa primária da fome. Como observou a economista Amartya San, jamais uma inanição de tamanha envergadura teria ocorrido numa democracia.

Na China de Mao, o poder coercivo do Estado prevalecia em todos os setores da vida nacional. A população rural era controlada por meio da coletivização da agricultura. O Estado conseguia, assim, gerenciar a produção de grãos, requisitar e distribuir essa produção por decreto.

Aqueles que cultivavam a terra ficavam presos no local por meio de um sistema nacional de registro de residências familiares e os cupons alimentares, emitidos para os que viviam nas cidades, saturavam o mercado. Os camponeses sobreviviam de acordo com a vontade do Estado.

O Grande Salto para a Frente, que Mao iniciou em 1958, estabeleceu metas ambiciosas sem os recursos para cumpri-las. Um circulo vicioso se seguiu; relatórios exagerados sobre a produção das autoridades do escalão mais baixo incentivavam as do alto escalão a estabelecer metas ainda mais elevadas. Manchetes nos jornais alardeavam que fazendas de arroz produziam 800 mil libras-peso por acre. Quando essa abundância declarada na verdade não podia ser fornecida, o governo acusava os camponeses de açambarcar os grãos. Buscas casa a casa eram feitas e qualquer resistência era sufocada usando a violência.

Mas desde que o Grande Salto para a Frente determinou que a China passaria para uma rápida industrialização, até os utensílios de cozinha dos camponeses foram derretidos na esperança de fabricar aço nas fornalhas de fundo de quintal, e as famílias foram forçadas a recorrer às grandes cozinhas comunitárias. O que lhes foi dito é que podiam comer à vontade. Mas quando a comida começou a escassear, nenhuma ajuda foi oferecida pelo Estado.

Os quadros do partido local serviam-se do arroz em primeiro lugar, um poder do qual sempre abusavam, poupando a si mesmos e suas famílias às expensas dos outros. Os camponeses famintos não sabiam a quem recorrer.

No primeiro semestre de 1959, a penúria era tão atroz que o governo central autorizou a adoção de medidas para resolver o problema, permitindo que as famílias camponesas cultivassem pequenas áreas de terra para se alimentar, em tempo parcial. Caso essa solução tivesse persistido, ela poderia ter aplacado o impacto da fome.

'Desvio direitista'. Mas quando Peng Dehuai, então ministro da Defesa da China, escreveu a Mao uma carta ingênua dizendo que as coisas não estavam funcionando, Mao achou que sua posição ideológica e seu poder pessoal seriam contestados.

Expulsou Peng e iniciou uma campanha para erradicar "o desvio direitista". Medidas para permitir a exploração de pequenos pedaços de terra particulares foram revogadas e milhares de funcionários do governo foram punidos por não se ater à linha radical.

O resultado foi uma inanição em escala épica. No final de 1960 a população total da China era 10 milhões de pessoas menor do que no ano anterior. Espantosamente, muitos celeiros de grãos do Estado estavam repletos de grãos na maior parte reservados para exportações que propiciavam divisas ou eram doados como ajuda externa.

Como jornalista e estudioso de história contemporânea, senti-me no dever de saber como a Grande Fome ocorreu e por quê. Desde a década de 1990 visitei mais de uma dezena de províncias, entrevistei mais de 100 pessoas e colecionei milhares de documentos. Como a Grande Fome era um tema proibido, consegui ter acesso a arquivos apenas sob o pretexto de "pesquisa de políticas agrícolas", ou "estudos sobre alimentação".

Os líderes comunistas criaram um enorme sistema de escravidão em nome da libertação humana. Que foi promovido como "o caminho para o paraíso", mas na verdade foi um caminho para a perdição.

Desejo que meu livro seja um monumento às 36 milhões de vítimas, mas também um memorial, antecipando o desaparecimento derradeiro de um sistema político totalitário que causou a Grande Fome. Tenho plena consciência dos riscos acarretados por este trabalho. Se algo suceder comigo porque tentei preservar a memória real dos fatos, então que este livro também se torne o meu memorial. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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