A guerra árabe ao terror

Aliados dos EUA se engajaram na luta contra o EI, mas não pelas razões que você acredita

JAMES, TRAUB, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2014 | 02h03

Estados árabes têm uma nova causa definidora: a guerra ao terror. Há quase quatro anos, levantes populares por toda a região subverteram a velha ordem e criaram um novo conjunto de aspirações e um novo significado coletivo. A Primavera Árabe, exceto na Tunísia, onde o espírito sobrevive, durou no máximo dois anos antes de dar lugar a caos e violência, retrocesso e lamento.

Qual o novo significado e direção do mundo árabe? Na época, ninguém podia ter certeza. Mas agora isso ficou claro. O imperativo de combater o terrorismo relegou as demandas por dignidade pessoal e direitos políticos à preocupação dos jovens insatisfeitos. Acabei de voltar da Alexandria e está claro que a única coisa em que todos os partidos no Egito concordam, exceto os insatisfeitos, é a necessidade de união contra a ameaça terrorista. Mas essa não é exatamente a mesma ameaça que preocupa os americanos.

Quando egípcios dizem "estamos numa fase terrorista", estão se referindo não ao Estado Islâmico (EI), mas ao grupo militante Ansar Beit al-Maqdis, que vem matando policiais e soldados no Sinai, e à guerra civil na vizinha Líbia. O chanceler egípcio, Sameh Shoukry, negou que o Cairo tenha concordado em participar de uma campanha militar contra o EI organizada pelos americanos.

Façamos um tour pela região: o Líbano está apavorado com o EI, que decapitou dois soldados libaneses, mas está igualmente preocupado com outros grupos islâmicos que cruzaram a fronteira com a Síria, entre eles a Frente al-Nusra. Os Emirados Árabes temem o EI e estão ansiosos para integrar a coalizão americana, mas também estão preocupados com radicais islâmicos na Líbia que lutam sob o nome Aurora Líbia.

Os turcos temem o EI, mas não mais do que temem os separatistas curdos que poderiam aproveitar a coalizão contra os jihadistas para promover sua campanha pela independência. Os sauditas podem ter aceitado abrigar bases de treinamento para rebeldes sírios moderados, mas temem mais o Irã do que qualquer outra coisa.

Levantei recentemente a mesma questão a um diplomata sênior de um país do Golfo, que disse: "Nossos temores na região obviamente vão além do EI". Ele não acredita que seus amigos americanos tenham esses temores. "Será um caso único ou vamos ver uma verdadeira parceria para combater o terrorismo?", questionou. A pergunta é justa: por que os Estados árabes deveriam dar seu apoio para combater o bicho-papão dos Estados Unidos se estes não retribuirão? O problema é a maneira como os Estados regionais definem o pântano que gostariam que os EUA ajudassem a drenar. O principal morador do pântano é a Irmandade Muçulmana.

Arábia Saudita e Egito baniram a Irmandade e a qualificaram de organização terrorista. Os Emirados condenaram 69 membros da Irmandade por conspiração para subverter o Estado. No Egito, é um artigo de fé compartilhado por secularistas e salafistas que a Irmandade é responsável, direta ou indiretamente, por violência terrorista e sabotagem - apesar da falta de evidências ligando a organização à campanha assassina do Ansar Beit. O grande princípio organizador do regime egípcio atual é simplesmente esse: esmagar a Irmandade. O diplomata do Golfo com quem falei foi muito explícito sobre essa questão.

"A Irmandade e a Al-Qaeda são variantes da mesma coisa", disse. A Irmandade é "uma passagem para outros extremismos". Quando ele pergunta se os EUA veem a Líbia como "outro dominó", como veem outros na região, está perguntando, em parte, se Washington compreende que a Irmandade está tentando derrubar peças de dominó regionais, como os dirigentes americanos um dia pensaram sobre o comunismo internacional.

A resposta é não. Barack Obama ofereceu apoio americano a Mohamed Morsi quando o povo egípcio o elegeu presidente. Na época, isso pareceu um importante endosso ao direito dos egípcios de decidir quem deveria liderar o país. Funcionários do governo rapidamente concluíram que Morsi era incompetente, mas não era terrorista. Aliás, Morsi mostrou-se um interlocutor útil e eficaz com o Hamas.

Desde então, nem ele nem os outros líderes da Irmandade que foram presos e podem receber a pena de morte com base em acusações forjadas conclamaram seus seguidores a pegar em armas contra o regime. Apesar de décadas de repressão, a Irmandade nunca se desviou de uma política de mudança não violenta. A organização foi escolhida, em parte, por seu sigilo, seu endosso à violência quando praticada por aliados como o Hamas. Ela é objeto também de uma paranoia que os americanos rapidamente reconhecerão como uma nova forma de ameaça vermelha.

A rotulação de terrorismo parece cada vez mais uma desculpa esfarrapada para o controle autoritário. Depois que a União Europeia usou uma sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU para pedir uma "investigação completa" da matança de milhares de manifestantes por forças de segurança egípcias desde a deposição do governo da Irmandade, em julho de 2013, autoridades egípcias acusaram os europeus de adotar um "padrão duplo" que conclama o Cairo a se unir à luta contra o terrorismo enquanto mina seus esforços para fazê-lo.

Os americanos não estão em posição de criticar Estados árabes por reagir de maneira exagerada a ameaças terroristas adotando leis domésticas duras. Se os EUA usaram a Lei Patriota e se permitiram usar simulação de afogamento com suspeitos de terrorismo depois do 11 de Setembro, por que nos surpreendermos que nações sem nenhuma tradição democrática criminalizem dissidentes e proíbam manifestações, como o Egito tem feito?

No entanto, é profundamente desanimador ver a massa escura do Estado de segurança nacional eclipsar tão completamente a bela celebração de liberdade que adornou os espaços públicos do mundo árabe há poucos anos. Além disso, a reação brutal à dissidência é autodestrutiva no longo prazo. Matar manifestantes islamistas desarmados se mostrou surpreendentemente popular entre egípcios, mas isso é muito mais favorável à promoção do terrorismo do que a sua dissuasão. E solapa a nova guerra ao terror ao confundir rivais políticos domésticos com uma genuína ameaça transnacional.

O mundo árabe realmente enfrenta uma ameaça crescente de violência terrorista: ele precisa forjar uma parceria com o Ocidente para enfrentar o EI e também forças mais locais. O Ocidente, porém, não entrará em nenhuma campanha para esmagar rivais políticos locais sob o pretexto de combater o terrorismo. O Egito e seus novos amigos no Golfo terão de fazer isso sozinhos. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA E ESCRITOR

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