'A guerra chegou incomodamente perto demais de casa'

O Westgate Premier Shopping Mall era um oásis em Nairóbi. Um lugar requintado onde a pessoa podia comer um delicioso brunch no terraço protegido por toldo do ArtCaffe ou um sushi primoroso no Onami, um restaurante japonês que rivaliza com qualquer um de Washington ou Nova York. Minha mulher e eu levamos muitas vezes nossos dois filhos pequenos para brincar nos castelos de plástico no térreo ou para visitar o mercado africano semanal que era montado no estacionamento no teto do edifício. Havia também um cinema, um cassino e um supermercado.

Sudarsan Raghavan*, O Estado de S.Paulo / The Washington Post

23 Setembro 2013 | 02h04

Anteontem, nosso oásis virou uma zona de guerra. Atiradores ligados à milícia Al-Shabab, vinculada à Al-Qaeda, invadiram o shopping, matando 68 pessoas e ferindo mais de 175. Era gente que tinha ido fazer compras, ver um filme, almoçar, levar seus garotos a uma festa de aniversário ou a uma aula de culinária. Estavam fazendo exatamente o que nós com frequência fazemos num fim de semana no Westgate.

Nas duas últimas décadas, estive em numerosas zonas de guerra na África, Ásia e Oriente Médio. Sobrevivi a um atentado suicida em Bagdá, a ataques com morteiros e batalhas de rua na Libéria, Líbia e Iêmen. Mas o que se desenrolou no sábado causou uma sensação muito diferente. A guerra ao terrorismo chegou incomodamente perto de casa, psicológica e fisicamente: vivemos a pouco mais de um quilômetro do Shopping Westgate.

Nunca esperei ver dois cadáveres crivados de balas nos degraus do shopping, na entrada que eu frequentemente transpunha para usar um caixa eletrônico ou tomar um cappuccino. Nunca esperei ver carros perfurados por balas, com as portas escancaradas, na rua onde eu passo guiando várias vezes por semana. Nunca pensei em usar meu colete à prova de bala e capacete num lugar onde, com frequência, usava bermudas, camiseta e sandálias.

Isso ocorria no Afeganistão ou Iraque ou Somália. Não perto de minha casa. As entrevistas com vítimas pareciam mais pessoais do que outras tragédias que cobri. Era difícil manter-se emocionalmente distante, como se espera que jornalistas se comportem ao fazer um reportagem. Uma mulher queniana, Elizabeth Muthina, descreveu como ela se escondeu dos atiradores dentro de uma caixa de papelão no Nakumatt, o supermercado dentro do shopping.

Enquanto ela falava, pude visualizar o cenário da loja. Minha família e eu havíamos feito compras ali muitas vezes, especialmente aos sábados. Não pude deixar de imaginar minha mulher se escondendo numa caixa com atiradores enlouquecidos tocaiando vítimas para matá-las.

Durante todo o dia, minha mulher telefonava com atualizações. Ao que parecia, quase todos de nossa rede social tinham amigos ou parentes retidos no shopping, escondidos em armários ou banheiros, rezando para os atiradores não os descobrirem.

A parte mais dolorosa foi ver os rostos de pessoas fora do shopping aguardando notícias de seus entes queridos presos no interior. Um pai, com o trauma estampado no rosto, correu para fora com a filhinha em prantos em seus braços. E, pela primeira vez em minha carreira, eu pensei: esse poderia ter sido eu.

*Sudarsan Raghavan é chefe da sucursal do 'The Washington Post' na África.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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