A guerra da Líbia não é americana

Interferência dos EUA no conflito do país africano deve multiplicar acusações de ataques contra muçulmanos

Edward Luttwak, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

Novamente os EUA estão bombardeando um país muçulmano para libertar a população de seus ditadores sanguinários. Novamente há civis inocentes sendo massacrados e os EUA têm a obrigação moral de intervir. Mas neste caso - mesmo integrando uma coalizão aprovada pela ONU para implementar uma zona de exclusão aérea - os EUA não deveriam, absolutamente, intervir.

Nenhum apelo humanitário deve ser ignorado, e muitos americanos lembram com profundo pesar o fato de o governo Clinton não ter se interposto contra o genocídio em Ruanda, em 1994, quando milhares de soldados poderiam ter salvo milhares de pessoas.

Então, por que a Líbia é diferente? Por que os EUA não deveriam intervir? Em primeiro lugar, porque o país tem petróleo e gás. Para muita gente, em todo o mundo, a ação militar americana foi motivada exclusivamente pelo desejo de se apossar dos recursos.

Naturalmente é um absurdo, mas os inimigos dos EUA repetirão muitas vezes essa acusação, plausível para quem não consegue acreditar que um governo possa ser benevolente o bastante para consumir sangue e dinheiro e ajudar, desinteressadamente, estrangeiros. Ainda mais de uma outra religião.

É inútil argumentar que o controle militar de um território e a posse dos seus recursos naturais são coisas bem diferentes de qualquer ocupação em que as regras são respeitadas. Pouca gente sabe que as forças militares americanas não fizeram nenhuma tentativa para se apossar, ou mesmo proteger diligentemente, as instalações petrolíferas do Iraque durante ou após a invasão de 2003. E mesmo quando levantado, este fato é considerado irrelevante. É por isso que, acreditando nessa acusação, os líderes políticos iraquianos começaram a fechar contratos na área do petróleo com empresas não americanas, para mostrar que não são marionetes dos EUA.

A segunda razão pela qual a Líbia é diferente de Ruanda é a sua religião. No Afeganistão, por exemplo, os imãs denunciam a intervenção americana como um ataque disfarçado contra o Islã.

É imperdoável repetir os mesmos erros na Líbia. Independente das suas boas intenções, os EUA serão representados novamente como o agente predador de um país antimuçulmano, provocando mais terrorismo.

Deveríamos deixar que a Liga Árabe ou a Organização da Conferência Islâmica, muito mais ampla, com seus 57 membros, que possuem caças de primeira linha e tropas, organizassem sozinhos uma intervenção humanitária à sua própria custa, em termos de dinheiro e de sangue. Os EUA não seriam novamente acusados de atacar o Islã. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

EDWARD N. LUTTWAK É REPRESENTANTE DO CENTRO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS E

INTERNACIONAIS

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